Ipiranga: fundo americano e pessoa física são os suspeitos

Na investigação sobre o vazamento de informações na venda do grupo Ipiranga para os grupos Braskem, Ultra e Petrobras, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e o Ministério Público conseguiram, em uma ação inédita, bloquear as contas dos principais suspeitos de terem se beneficiado com as informações. Os nomes destes investidores estão sob sigilo, mas a CVM já divulgou que trata-se de um fundo sediado em Delaware, nos Estados Unidos, e uma pessoa física.De acordo com apuração da autarquia, eles compraram ações ordinárias (ON, com direito a voto) da Ipiranga na sexta-feira com valor mais baixo (R$ 80,15) e venderam os papéis na segunda com preço mais alto (R$ 96,50). Nesta operação, o fundo lucrou R$ 3,3 milhões com a operação, um ganho de 40%. A pessoa física embolsou R$ 970 mil, uma alta de 60% sobre a posição inicial.Esses dois aplicadores foram responsáveis por 20% do volume de negócios com as ações da Refinaria na sexta-feira. A autarquia ainda investiga outros 24 investidores, sendo que 23 operaram com papéis da Refinaria e outro com a Distribuidora."O dano em uma operação como essa não está relacionado apenas ao valor, mas, como são empresas de porte, têm uma repercussão muito grande no mercado", afirmou o presidente da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Marcelo Trindade. A investigação preliminar da CVM deve ser concluída em 90 dias. A apuração não irá se restringir aos investidores que efetivamente adquiriram os papéis. A autarquia também irá avaliar todos os executivos que tiveram informações sobre o negócio, como consultores, advogados e membros das empresas. Segundo Trindade, novas ações cautelares para bloquear o ganho com a compra de papéis podem ser pedidas.Nos próximos 30 dias, o Ministério Público Federal irá propor uma ação civil pública para indenizar os aplicadores que venderam as ações da Ipiranga nos dias que antecederam o anúncio da alienação de controle, e portanto tiveram prejuízo.Ação inéditaPela primeira vez, o MP e a autarquia conseguiram na Justiça uma liminar que bloqueou os recursos provenientes dos ganhos obtidos com uso de informações que possivelmente vazaram. A decisão saiu na noite da quarta-feira, 21, e foi concedida pela 1ª Vara Federal do Rio de Janeiro. "O bloqueio da operação é um sinal de que o investidor pode vir tranqüilo porque aqui tem uma autoridade reguladora", avalia Trindade.Os rumores de que houve privilégio de informações no processo de aquisição da empresa foram reforçados pelo aumento do volume de negócios com ações do Grupo Ipiranga na semana que antecedeu o anúncio da venda. Entre os dias 12 e 16 deste mês, foram negociados R$ 24 milhões em ações ordinárias. É mais do que o dobro do volume negociado nos três meses anteriores, entre 2 de janeiro e 9 de março: R$ 11,6 milhões. A mudança de média diária dá a dimensão do salto: de R$ 290 mil, em três meses, para R$ 4,8 milhões na última semana.Trindade lembrou de um estudo do órgão regular inglês que verificou que em 25% das operações de fusão e aquisição há suspeita de vazamento de informação. No Brasil não existe estudo, mas Trindade acredita que nos últimos dois anos o porcentual foi maior do que esse.

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