ANDREW KELLY/REUTERS
ANDREW KELLY/REUTERS

IPO do ‘cheque em branco’ chega ao País

Conhecida como Spac, nova forma de abertura de capital ganhou fama nos EUA

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2021 | 05h00

A febre que atingiu o mercado financeiro nos Estados Unidos, o chamado “IPO (oferta inicial de ações, na sigla em inglês) do cheque em branco”, acaba de desembarcar no País. Nessa modalidade, os investidores fazem uma aposta na capacidade dos gestores em encontrar boas oportunidades de negócios. A curiosidade é que os recursos são levantados sem que a empresa a ser listada na bolsa de valores seja definida. Apenas depois que o dinheiro entra no caixa é que os gestores por trás da oferta saem à caça de uma companhia para fazer o investimento – e é ela que se tornará, ao final, uma empresa de capital aberto. 

Por ora, essas ofertas, mesmo que algumas tenham o objetivo final de investir no Brasil, estão concentradas nas bolsas norte-americanas. No entanto, o tema já está na mesa dos reguladores por aqui.

Essas empresas do cheque em branco são conhecidas como Spac, sigla para Special Purpose Acquisition Company (veículo de propósito específico de aquisição), e estão ganhando fama mundo afora. Esse mercado gira em torno de nomes reconhecidos, já que a credibilidade da gestora é que vai fazer o investidor lhe dar um “cheque em branco”. A vantagem para o investidor é entrar antes numa aposta com alto potencial de valorização, algo muito valioso em um mundo que ainda vive o fenômeno do juro negativo. Por ter um trâmite regulatório menor, o Spac é visto como uma alternativa mais rápida do que os IPOs clássicos para as companhias com intenção de acessar o mercado de capitais.

“Esse movimento deve continuar em decorrência da liquidez global. Esses instrumentos estão conseguindo levantar capital com uma facilidade muito alta”, comenta o presidente do Morgan Stanley no Brasil, Alessandro Zema. Ele lembra que na América Latina há uma série de oportunidades para investimentos, o que abre espaço para essa novidade para a região. “Uma gestora com experiência comprovada em criação de valor consegue atrair investidores procurando investir na América Latina”, diz.

Salto 

A ampla liquidez global fez esse tipo de operação dar um salto nos Estados Unidos. No ano passado, foram realizados 248 IPOs de Spacs, mais de quatro vezes que o visto um ano antes, segundo dados da SpacInsider. Esse número representou praticamente a metade de todas as aberturas de capital que ocorreram nos Estados Unidos no ano passado. Apenas nesse início de ano já foram mais 296 IPOs do cheque em branco, número que sobe toda semana, somando mais US$ 96,6 bilhões em emissões.

“Há dezenas de trilhões de dólares sentados basicamente em juros negativos, e essas transações trazem uma opção ao investidor”, comenta o corresponsável pelo banco de investimento do Bank of America, Hans Lin. Tal opção ao investidor significa que, caso o patrocinador (como são chamados os gestores que fazem os IPOs das Spacs) não encontre uma empresa alvo ou o investidor não tope a empresa proposta a ser adquirida, ele terá o direito de receber o dinheiro aportado atualizado com o rendimento pago pelos treasuries, os títulos do Tesouro dos EUA. Depois do IPO do Spac, pelas regras, é dado um prazo de 24 meses para a aquisição da empresa alvo.

Com a aquisição bem-sucedida, a empresa que recebe o investimento se torna, ao final do processo, uma companhia de capital aberto. Lin, do Bofa, aponta que hoje, em todo o mundo, há mais de US$ 100 bilhões captados por Spacs em busca de empresas. O número de ofertas desse tipo partindo da América Latina tende a crescer, acrescenta o executivo.

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