Justin Lane/EFE - 9/12/2021
Justin Lane/EFE - 9/12/2021

IPO do Nubank: papéis do banco fecham em alta de 14,54% na estreia na Bolsa brasileira

Em resultado similar, as ações do banco na Bolsa de Nova York subiram 14,71%; durante pregão na B3, os papéis do Nubank chegaram a entrar em leilão por oscilação máxima permitida

Matheus Piovesana, Altamiro Silva Junior e Victoria Netto, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2021 | 13h29
Atualizado 10 de dezembro de 2021 | 20h40

O Nubank encerrou sua primeira semana na Bolsa já fazendo parte do grupo das empresas mais valiosas da América Latina. Os papéis da empresa fecharam o pregão desta sexta-feira, 10, com alta de 14,71%, valendo US$ 11,85 em Nova York. Na Bolsa brasileira (B3), os papéis do Nubank começaram a ser negociados nesta sexta em formato de BDRs (certificados de ações listadas fora do País), e fecharam em alta de 14,54%, R$ 11,50, na estreia.

Durante o pregão na B3, os papéis do Nubank chegaram a entrar em leilão por oscilação máxima permitida (acima de 10%). Outros bancos brasileiros também encerraram o dia em alta na Bolsa, como o Banco Inter (6,38%) e Banco Pan (15,31%). 

Já as ações dos bancos privados tradicionais operaram sem sinal único, pressionados pela perspectiva de maior inadimplência e aumento dos juros, segundo Julia Monteiro, analista da My Cap. As ações do Itaú subiram 0,21%, mas as do Bradesco caíram 0,39%.

Com a alta de hoje, o valor de mercado do Nubank encerrou a semana em US$ 54,6 bilhões (R$ 305,8 bilhões), um ganho de 30% desde que chegou ao mercado, avaliado em US$ 41,7 bilhões.

No Brasil, somente a Vale (R$ 388 bilhões) e a Petrobras (R$ 400 bilhões) valem mais que o banco digital. Todos os bancos tradicionais seguem com valor de mercado inferior ao do Nubank, quando comparados na mesma moeda. O mais próximo é o Itaú Unibanco, que vale R$ 205 bilhões. 

Na América Latina, o Nubank só é menos valioso que um seleto grupo de empresas. Ele inclui negócios tradicionais, como a America Móvil, dona da Claro, avaliada em US$ 62 bilhões, mas também o Mercado Livre, outra referência para empresas de tecnologia da região, e que vale US$ 61 bilhões.

Abertura na B3

Os fundadores do Nubank tiveram que voltar às pressas de Nova York, onde a ação estreou na quinta-feira, para participarem nesta sexta-feira da cerimônia que marcou o início dos papéis na B3. 

De Wall Street para o centro de São Paulo, David VélezCristina Junqueira e o americano Edward Wible mantiveram o discurso de que as ambições do banco digital seguirão altas após a chegada nas bolsas brasileira e americana. "O IPO não é de jeito nenhum a linha de chegada. Pelo contrário, é um momento que permite escalar ainda mais o impacto que a gente tem", disse Junqueira, se referindo à oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês).

Na B3, a cerimônia contou com alguns convidados, além da diretoria do banco digital e do presidente da B3, Gilson Finkelsztain, vestido com uma camiseta roxa, a cor do banco digital. Em ano de recorde de IPOs no Brasil, com 45 empresas estreando na Bolsa, o executivo destacou que o Nubank trouxe mais uma inovação ao mercado brasileiro, que é são as Brazilian Depositary Receipt (BDR) nível 3, que permite, segundo ele, um dupla listagem verdadeira. O nível 3 é de papel que é negociado diretamente no pregão da bolsa e exige registro no regulador, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Finkelsztain contou que quando visitou Vélez há pouco mais de dois anos, o colombiano já falava da intenção de fazer dupla listagem das ações, uma delas no Brasil. "Não dava para fazermos um IPO em Nova York e esquecermos dos nossos clientes no Brasil", disse Vélez na cerimônia na B3, acompanhado ao vivo pelo YouTube por mais de 3 mil pessoas simultaneamente.

Papéis para os clientes

A estratégia do Nubank de distribuir BDRs a seus clientes pode dobrar o número de CPFs na B3, destacou Finkelsztain. A Bolsa paulista tem atualmente 4 milhões de clientes. Através do programa NuSócios, o Nubank entregou um BDR para cada um de 7,5 milhões de clientes que pediram para receber os ativos. Além disso, outros 815 mil investidores compraram BDRs na oferta, o que a tornou a maior oferta de varejo por uma empresa na Bolsa local.

O processo do IPO da fintech levou todo o ano de 2021 e envolveu mais de 200 funcionários, do centro tecnológico do banco em Berlim, passando pelo México, Estados Unidos e a sede em São Paulo, contou Vélez. Aos jornalistas, os fundadores do banco digital fizeram um rápido pronunciamento, sem direito a perguntas, por causa do período de silêncio exigido pelos reguladores do mercado. 

Vélez deu uma mensagem de estímulo aos empreendedores brasileiros. "Em um país que pode ter tanta oportunidade, queremos demonstrar agora que todos os setores da América Latina, por mais concentrados, por mais difíceis, estão abertos para mais e melhores empreendedores."

Já o americano Edward Wible, em uma de suas raras declarações à imprensa, ressaltou que após o sucesso do IPO, eles já vão voltar a colocar a mão na massa. "Segunda-feira a gente volta ao trabalho", disse.

Papel caro?

O analista de setor financeiro Carlos Macedo, ligado à plataforma Ohmresearch, diz que os primeiros dias do Nubank listado não devem demonstrar um retrato fiel do preço que o mercado tende a atribuir ao negócio. 

"Tem uma reviravolta contratada por causa da base de clientes, mas o múltiplo é alto mesmo comparado com outras empresas do setor", disse ele, se referindo aos indicadores financeiros que costumam ser analisados por investidores, os múltiplos.

Em relatório divulgado em outubro, antes de o Nubank revelar os números de sua oferta, Macedo estimou que de acordo com os indicadores tradicionais, que medem a relação entre o preço da ação e o lucro (preço/lucro) ou o preço/valor patrimonial, o Nubank teria um valor justo entre US$ 6 bilhões e US$ 27 bilhões, bem abaixo do preço atual.

Ele afirma ainda que a fintech tem um desafio grande nos próximos anos: igualar, ou superar, as expectativas altas que gerou no mercado. "Se não consegue entregar, o tombo é muito alto. O exemplo disso é a Stone, que negociava em um múltiplo super alto, não conseguiu entregar esse crescimento e caiu", diz. 

Como mostrou a Coluna do Broadcast, a forte baixa da ação da Stone era parte de um movimento que poderia respingar no Nubank, e que obrigou a fintech a cortar os preços das ações em seu IPO.

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