Felipe Siqueira/Estadão
Grupos dizem aguardar mais informações sobre a reforma do Imposto de Renda. Felipe Siqueira/Estadão

IR: Empresas são pegas de surpresa por fim de subsídios e falam em aumento de custos

Associações apontam que propostas previstas na reforma tributária vão impactar os negócios já fortemente afetados pela pandemia

Érika Motoda e Maiara Santiago, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2021 | 20h08

As associações de empresas que podem ver o fim de seus subsídios com a versão da reforma tributária apresentada nesta terça-feira, 13, dizem que foram pegas de surpresa e que as propostas previstas no texto vão prejudicar os negócios já fortemente afetados pela crise econômica causada pela pandemia. Contudo, os grupos dizem que ainda aguardam mais informações sobre a proposta do relator Celso Sabino (PSDB-PA).

A Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem (Abac) afirmou que, no caso da cabotagem, existem benefícios que são repassados aos usuários e a sua retirada “de forma pouco avaliada” pode ser uma medida em sentido oposto ao que pretendeu o governo no projeto de lei da Cabotagem. “Os investimentos no Brasil precisam ser incentivados para afastarmos a volatilidade do mercado internacional como o que está ocorrendo com a navegação de longo curso que teve os valores de frete quadruplicados.”

A Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC) disse que a medida afetará toda uma cadeia de fornecedores, varejistas, revendedoras, salões de beleza além de consumidores, “que serão penalizados com aumento de carga tributária”.

“O texto traz prejuízos para a sociedade, que sofrerá com aumentos de preços, e restringirá o acesso da população de menor renda a produtos essenciais que promovem a proteção e a manutenção da saúde e o bem-estar da sociedade, evitando inclusive, gastos com o tratamento da saúde do brasileiro”, escreveu a associação que representa setor de cosméticos.

Já a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) disse, por meio de nota, que a medida poderá significar mais custos para a aviação comercial, prejudicando um setor que já tem sido duramente afetado pela pandemia. A extensão desse impacto, porém, ainda está sob análise da Abear e de suas associadas.

Procurada, a Associação Brasileira da Indústria de Medicamentos Isentos de Prescrição (ABIMIP) não quis se posicionar. A Embraer, a Associação Brasileira de Aviação Geral (Abag) e a Abrafarma (Abrafarma Associação Brasileira de  Redes de Farmácias e Drogaria) não retornaram até a publicação desta reportagem.

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Relatório da reforma do IR reduz imposto sobre empresas e mantém isenção de fundos imobiliários

Parecer do deputado Celso Sabino prevê uma queda da alíquota base do Imposto de Renda das Pessoas Jurídicas de 15% para 2,5% até 2023

Camila Turtelli e Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2021 | 13h37
Atualizado 13 de julho de 2021 | 20h12

BRASÍLIA - O parecer da segunda fase da reforma tributária prevê uma queda da alíquota base do Imposto de Renda das Pessoas Jurídicas (do IRPJ) de 15% para 2,5% até 2023. Na primeira etapa, a alíquota cairá 10 pontos porcentuais de (15% para 5%) no ano que vem. Em 2023, a alíquota será reduzida para 2,5%.

A alíquota adicional do IRPJ de 10% (cobrada para empresas com lucro acima de R$ 20 mil) será mantida. Ou seja, para as empresas maiores, a alíquota cairá de 25% para 12,5%.

No projeto original, a queda prevista do IRPJ era de 5 pontos porcentuais em duas etapas, metade em 2022 e o restante em 2023. Esse movimento foi considerado tímido e insuficiente para fazer frente à volta da taxação de lucros e dividendos.

O texto do deputado Celso Sabino (PSDB-PA) retirou a taxação de 15% sobre os rendimentos de fundos de investimentos imobiliários (FIIs), como propôs o governo no projeto enviado no fim do mês passado. Ou seja, pelo parecer, esses fundos devem continuar isentos de impostos. “Nos fundos de investimentos imobiliários, vamos manter a isenção. Também os fundos de investimento no agro, Fiagro, fundo de participações de empreendimentos e logísticas e de construção”, afirmou Sabino.

O relatório mantém a taxação de 20% na distribuição de lucros e dividendos, isentos no Brasil desde 1996. Mas abre uma exceção quando a distribuição é feita entre empresas do mesmo grupo societário. Os detalhes foram antecipados ao Estadão/Broadcast e estão sendo apresentados aos líderes dos partidos.

“Tributação de lucros e dividendos já está bem aceita, 20% todo mundo já assimilou, o mundo tudo cobra. O mundo cobra 40%, tem gente que cobra 50%, e o Brasil vai entrar e agora com 20%”, disse o relator. 

Queda maior no IR de empresas para diminuir resistências

A queda forte da tributação das empresas é uma forma para enfrentar as resistências ao projeto do setor privado, que se uniu contra o aumento da carga tributária.  Mais de 120 associações enviaram manifestação contrária ao texto do governo para o presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL).

“É uma medida muito ousada que vai gerar uma expectativa muito grande no crescimento econômico do País. Isso pode ser o maior programa efetivo de geração de emprego orgânico e saudável do País”, disse Sabino, animado com o apoio que tem recebido nos últimos dias após a decisão de mudar o projeto do governo e garantir uma queda maior do IRPJ. Segundo ele, a  redução da alíquota para 2,5% vai atingir 1,1 milhão de empresas ativas hoje no Brasil. 

Ele previu uma queda líquida de R$ 30 bilhões na carga tributária do IR, que segundo ele, teve apoio do ministro da Economia, Paulo Guedes. Essa perda será bancada com o aumento da arrecadação “O ministro vai bancar essa perspectiva de crescimento econômico e de aumento de arrecadação”, disse.

Para Sabino, essa redução, que classifica de extraordinária, não terá mais volta e será fundamental para atrair investimentos, aumentar a competitividade das empresas brasileiras em relação ao resto do mundo. “Vamos colocar em outro patamar mundial econômico”, disse.

O relatório prevê a manutenção do fim da possibilidade de as empresas deduzirem do imposto a pagar as despesas com os chamados Juros sobre Capital Próprio (JCP), uma forma que as grandes companhias remuneram os seus acionistas.

Retirada dos 'penduricalhos' do texto

O relator enxugou o projeto cortando o que chamou de “ penduricalhos” que tratavam de medidas acessórias, de combate à elisão (formas que as empresas usam para pagar menos impostos ou dilatar o pagamento ao longo do tempo de forma que se torne, na prática, inexistente) e à sonegação.

Sabino retirou do texto a obrigatoriedade de empresas imobiliárias, de aluguéis, shoppings, terem que pagar o imposto pelo lucro real. Essas empresas pagam pelo lucro presumido, uma forma simplificada de tributação, e mudança foi uma das mais criticados pelo mercado no projeto original do governo.

Isenção maior para pessoa física

O parecer manteve o aumento da faixa de isenção e R$ 1.903,98 para R$ 2,5 mil, uma correção de 31%, como o proposto pelo governo. Com isso,  caso o texto seja aprovado no Congresso, mais de 5,6 milhões passarão a ser considerados isentos. As demais faixas do IR também foram ajustadas, mas em menor proporção (cerca de 13%). 

Foi mantido também o limite de uso do desconto simplificado na declaração do IR. Pelas regras atuais, todas pessoas físicas podem optar por esse desconto, e o abatimento é limitado a R$ 16.754,34. 

Pela proposta, quem tem renda acima até R$ 40 mil por ano (pouco mais de R$ 3 mil por mês) não poderá mais optar pelo desconto simplificado na declaração anual do IR — que estará limitado a R$ 8 mil.

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Para compensar queda no IRPJ, relator propõe fim de incentivos a 20 mil empresas

São atingidas as indústrias de cosméticos, perfumaria, medicamentos, aeronaves e embarcações, além das termelétricas na aquisição de carvão e gás natural

Adriana Fernandes, Camila Turtelli e Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2021 | 15h14
Atualizado 13 de julho de 2021 | 22h42

BRASÍLIA - O relatório da reforma do Imposto de Renda, apresentado nesta terça-feira, 13, propõe retirar incentivos fiscais a 20 mil empresas e inclui a economia com o fim dos supersalários do serviço público como contrapartidas à redução de 12,5 pontos porcentuais no IR para as empresas. Mesmo assim, o relator, deputado Celso Sabino (PSDB-PA), diz que a redução na carga tributária em R$ 30 bilhões só será compensada com o aumento da arrecadação gerado pela retomada da economia. 

Das 20 mil empresas atingidas com os cortes estão as indústrias de cosméticos, perfumaria, medicamentos, aeronaves e embarcações. Além disso, será retirada parte dos benefícios de PIS/Cofins dado a termelétricas na aquisição de carvão e gás natural. “Entendemos que esse  setor foi amplamente beneficiado com a capitalização da Eletrobrás”, afirmou Sabino. 

Como mostrou o Estadão, o parecer da segunda fase da reforma tributária prevê uma queda da alíquota base do Imposto de Renda das Pessoas Jurídicas (do IRPJ) de 15% para 2,5% até 2023. Na primeira etapa, a alíquota cairá 10 pontos porcentuais de (15% para 5%) no ano que vem. Em 2023, a alíquota será reduzida para 2,5%. A alíquota adicional do IRPJ de 10% (cobrada para empresas com lucro acima de R$ 20 mil) será mantida. Ou seja, para as empresas maiores, a alíquota cairá de 25% para 12,5%. Segundo o relator, a redução no IR vai beneficiar 1,1 milhão empresas ativas hoje no Brasil.  

No projeto original, a queda prevista do IRPJ era de cinco pontos porcentuais em duas etapas, metade em 2022 e o restante em 2023. Esse movimento foi considerado tímido e insuficiente para fazer frente à volta da taxação de lucros e dividendos.

Para compensar uma redução maior da alíquota do IRPJ, Sabino conta com a economia de R$ 300 milhões por ano, segundo ele, prevista caso o projeto que restringe os supersalários do funcionalismo ao teto (hoje, em R$ 39,3 mil) seja aprovado pelo Congresso. O texto, previsto para ser votado hoje na Câmara, retira os chamados “penduricalhos, como auxílios e outros bônus, e limitam as remunerações ao salário dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A conta da economia não inclui a aplicação da regulamentação aos funcionários do Legislativo e do Judiciário.

O parecer do projeto do IR ainda prevê o fim da isenção a auxílios moradia e transporte pago aos funcionários públicos, políticos e juízes para aumentar a arrecadação.

Outra mudança feita pelo relator foi limitar as deduções que as empresas fazem no Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT). Hoje, o que uma companhia gasta com o tíquete alimentação é abatido no resultado apurado, para diminuir o lucro que será tributado, e novamente sobre o valor do imposto a pagar a depender da alíquota. "A empresa tem um benefício em dobro. Nossa proposta é retirar a segudna possibilidade de abater o valor da alimentação dos trabalhadores do IR a pagar", disse Sabino. 

Mesmo com esses cortes, o projeto ainda vai reduzir a carga tributária em R$ 30 bilhões. Essa perda, explicou o relator, será bancada com o ganho de arrecadação gerado pela recuperação da economia e crescimento maior do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil. Sabino disse que teve o apoio do ministro da Economia, Paulo Guedes, na formulação do projeto e contrapartidas. 

De acordo com o deputado, as mudanças representarão uma queda na arrecadação federal de R$ 30 bilhões. O novo texto corta em R$ 115 bilhões a arrecadação prevista até 2023, mas medidas como a redução de subsídios, taxação de dividendos e fim da dedução com o pagamento de  juros sobre capital próprio aumentam o recolhimento de tributos em R$ 85 bilhões no mesmo período.

Sabino contou que começou a trabalhar com uma meta pessoal de zerar a alíquota de 15%.  “Enfrentei resistências operacionais. Busquei tudo o que pude e foquei em 2,5% e consegui o recurso total para compensar”, contou o relator. 

Segundo ele, o ministro Guedes aceitou: “ O ministro bateu na mesa, comprou a ideia e vai pagar a diferença que está faltando com o aumento de arrecadação previsto e com a expectativa de que o pulso da economia vai acelerar e que nós vamos ter aí uma forte geração de emprego e renda de novos empreendimentos e novas empresas”, disse.

Sobre as restrições fiscais para fazer essa compensação, o relator disse que o artigo 14 da Lei de Responsabilidade Fiscal prevê que cortes de benefícios produzam repercussão geral (para todos) não precisam ser contrabalanceados com uma nova arrecadação.

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Lira fala em votar reforma do IR já nesta semana se houver 'convergência'

O presidente da Câmara elogiou as mudanças propostas pelo relator, Ceso Sabino, e disse que o texto está 'adequado' ao momento da economia, mas poderá sofrer 'um ajuste ou outro'

Anne Warth , O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2021 | 17h17

BRASÍLIA - O presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), disse que o parecer preliminar da reforma tributária pode ser votado ainda nesta semana, se houver “ambiente e convergência”. O relator, Celso Sabino (PSDB-PA), apresentou o relatório aos líderes nesta terça-feira, 13, e, agora, a proposta será debatida com as bancadas da Casa. “A continuar no ritmo que foi hoje, o texto da reforma tributária do Imposto de Renda pode estar pronto para ser votado essa semana”, afirmou, ao chegar à Câmara.

Segundo Lira, a ideia é votar o quanto antes o texto do IR e deixar a unificação do PIS e Cofins na Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) para o início de agosto. Ambos os projetos precisam apenas de maioria simples para serem aprovados. “Vamos sentir a temperatura para ver se há ambiente e convergência para votar", afirmou.

Lira elogiou as mudanças propostas por Sabino e disse que o texto está “adequado” ao atual momento da economia, mas poderá sofrer “um ajuste ou outro”. O presidente da Câmara disse que a proposta afastou o “tenentismo” da Receita Federal. “O projeto beneficia o capital produtivo e taxa o especulativo e quem tem renda mais alta”, afirmou Lira.

Segundo o presidente da Câmara, a proposta de reforma tributária é “neutra, justa e moderna”. No entanto, de acordo com cálculos apresentados por Sabino, o parecer reduz em R$ 30 bilhões a arrecadação federal.

Lira ressaltou que o governo fará uma renúncia tributária grande para fomentar o crescimento. Ele elogiou a proposta de corte no Imposto de Renda para empresas, de 15% para 2,5% até 2023, “uma redução significativa para qualquer país no mundo”. A alíquota adicional do IRPJ de 10% (cobrada para empresas com lucro acima de R$ 20 mil) será mantida - ou seja, para as empresas maiores, a alíquota cairá de 25% para 12,5%.

Ainda segundo Lira, a proposta de taxação dos dividendos, mantida em 20%, é “justa”. “O governo acredita que a desoneração do capital produtivo vai gerar recuperação da economia e aumento da arrecadação”, disse. 

Para Lira, o ministro da Economia, Paulo Guedes, demonstrou confiança e, ao mesmo tempo, fez um “gesto arriscado” ao “dar crédito" ao Congresso para que faça "justiça social" com o Imposto de Renda.

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Em reunião com Guedes, nova versão de reforma do IR agrada a bancos

Após críticas ao projeto original, o relator Celso Sabino articulou com o ministro Paulo Guedes uma nova proposta, com uma redução mais ousada no IRPJ, que agradou a Febraban

Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2021 | 16h21

BRASÍLIA - A recalibragem da proposta de redução do Imposto de Renda sobre Pessoas Jurídicas (IRPJ) costurada pelo Ministério da Economia com o relator do projeto na Câmara, deputado Celso Sabino (PSDB-PA), começa a virar o jogo da resistência do setor produtivo. 

O Estadão/Broadcast apurou que o presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Isaac Sidney, saiu satisfeito da reunião realizada nesta terça-feira, 13, com o ministro Paulo Guedes e o secretário da Receita Federal, José Tostes Neto. 

A proposta original da Economia previa uma redução de 5 pontos porcentuais no Imposto de Renda de Pessoas Jurídicas (IRPJ) em dois anos. Mas após muitas críticas ao projeto, o relator do texto, deputado Celso Sabino, articulou com Guedes uma redução bem maior da alíquota, de 10 p.p em 2022 e mais 2,5 p.p. em 2023.

Com isso, a alíquota base do IRPJ cairá de 15% para 2,5% em dois anos. A alíquota adicional de 10% para empresas com lucro anual superior a R$ 20 mil permanece. Para esse grupo, a redução agora proposta é de 25% para 12,5%.

Na última quinta-feira (8), Guedes almoçou com grandes empresários em São Paulo e prometeu mudanças no texto. Segundo apurou a reportagem, a redução mais ousada no IRPJ agradou a Febraban. De acordo com fontes que acompanharam a conversa, Sidney teria considerado que o corte de 12,5 p.p no IRPJ tem grande potencial para melhorar o ambiente de negócios.

Segundo essas fontes, o presidente da Febraban também teria reafirmado ao ministro que a reforma do IR vai na direção correta ao taxar menos as empresas e passar a tributar a distribuição de dividendos – como é a praxe em todo o mundo. A proposta do governo mantida pelo relator prevê a cobrança de uma alíquota de 20% sobre os dividendos pagos pelas empresas a seus acionistas.

Sidney teria feito ainda um pedido à equipe econômica para que haja convergência de tributos corporativos entre empresas que atuam nas mesmas atividades. O pedido é para que a reforma siga o alinhamento internacional e garanta a isonomia de tratamento entre as companhias de um mesmo segmento.

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IR: Fiscalistas da Economia temem perda de arrecadação para a sustentabilidade das contas

Texto faz uma redução agressiva do IRPJ, mas as compensações previstas não são suficientes para cobrir a perda de arrecadação; relator diz que buraco de R$ 30 bi será compensado com a expectativa de aumento na arrecadação com a retomada

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2021 | 18h13

BRASÍLIA - Se o projeto original do governo que altera o Imposto de Renda (IR) desagradou os liberais do Ministério da Economia, agora é a ala fiscalista que está preocupada com a possibilidade de perda de R$ 30 bilhões na arrecadação com o parecer do relator Celso Sabino (PSDB-PA).

O parecer, apresentado nesta terça-feira, 13, faz uma redução agressiva do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica em 12,5 pontos porcentuais e as compensações previstas não são suficientes para cobrir a perda de arrecadação. Um buraco de R$ 30 bilhões que o relator diz que será compensado com a expectativa de aumento na arrecadação com a retomada econômica, mas que na avaliação dos técnicos traz risco fiscal.

Segundo apurou o Estadão, esse valor de perda de arrecadação foi considerado alto para um País que tem déficit fiscal e uma dívida pública elevada, de quase 100% do PIB. “A redução de arrecadação é certa enquanto as medidas de compensação não possuem o mesmo grau de certeza para a sustentabilidade do equilíbrio fiscal. Estamos preocupados”, disse uma fonte do Ministério da Economia que pediu para não ser identificada.

 Na matemática do parecer, o impacto de perda de arrecadação é de R$ 115 bilhões e R$ 85 bilhões em aumento de receitas e medidas compensatórias, como redução de subsídios, taxação de dividendos e fim da dedução com o pagamento de juros sobre capital próprio.

Entre o corte de renúncias, está a retirada de benefícios tributários que alcançam 20 mil empresas para setores, entre eles, produtos de cosméticos, perfumaria, medicamentos e indústria de aeronaves e embarcações. Além disso, será retirado parte dos benefícios de PIS/Cofins concedidos a termelétricas na aquisição de carvão e gás natural.

Na prática, se não houver aumento da arrecadação por conta do crescimento, o rombo nas contas públicas vai aumentar com a queda da carga tributária de R$ 30 bilhões do IR prevista na proposta.

Para o analista do Senado e especialista em contas públicas, Leonardo Ribeiro, o texto pode trazer incertezas para as contas públicas pelo risco de aumento da dívida. Ele explica, porém, que a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) permite que, no caso de uma medida de redução da arrecadação geral e indiscriminada que não olha para um segmento específico, haja queda da carga tributária, mas observando as metas fiscais. 

“Tem que ser transparente. O mercado tem que estar sabendo que vai aumentar o rombo. Seria um tiro no escuro essa medida ser aprovada sem as metas fiscais”, alertou.

Mas o consultor destacou que a LRF não é tão rígida a ponto de não permitir que um governo faça uma política fiscal expansionista na redução de impostos. Segundo ele, a LRF autoriza desde que seja uma redução geral, mas a Lei de Diretrizes Orçamentárias tem que ser aprovada com a meta fiscal. “O governo está optando em reduzir o imposto para de alguma forma tornar a economia mais dinâmica”, ressaltou. 

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Com ajuda de relatório da reforma do IR, Bolsa sobe e se descola do exterior

Agradou o mercado a decisão do relator de manter isento o Imposto de Renda para fundos imobiliários; dólar, porém fechou em alta, de olho em alta da inflação dos EUA

Redação, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2021 | 14h58
Atualizado 13 de julho de 2021 | 19h10

A Bolsa brasileira (B3) contrariou o clima negativo do exterior e emendou o segundo pregão de alta nesta terça-feira, 13, após o relator da reforma do Imposto de Renda dizer que vai manter a isenção para fundos de investimento imobiliário, em infraestrutura e logística. O Ibovespa subiu 0,45%, aos 128.167,74 pontos. No câmbio, a reformulação no projeto chegou a ajudar o dólar, mas o avanço da inflação dos Estados Unidos pressionou a moeda, que fechou com leve alta de 0,13%, a R$ 5,1809.

Apesar de os índices de Nova York terem fechado em baixa, em dia de inflação ao consumidor nos EUA no maior nível em 13 anos em junho, o que reforça a preocupação quanto ao momento de eventual recalibragem na concessão de estímulos monetários, o Ibovespa conseguiu se firmar no patamar dos 128 mil pontos.  Na semana, ele avança 2,18%, enquanto no mês os ganhos vão a 1,08% e, no ano, a 7,69%.

Na entrevista ao Estadão/Broadcast, o relator da reforma do IR disse também que o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), colocará o texto em votação assim que houver "consenso", e ressaltou que as mudanças deverão ser aprovadas ainda neste ano, para que possam valer em 2022. De acordo com fontes, a recalibragem do IRPJ agradou à Febraban - hoje, o presidente da entidade, Isaac Sidney, esteve reunido com o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o secretário da Receita Federal, José Tostes Neto, para conversar sobre a reforma.

Lira disse que o parecer preliminar pode ser votado ainda nesta semana, se houver "ambiente e convergência". O relator apresentou o relatório aos líderes hoje e a proposta passa agora a ser debatida com as bancadas da Câmara. "A continuar no ritmo que foi hoje, o texto da reforma tributária do Imposto de Renda pode estar pronto para ser votado esta semana", afirmou nesta terça-feira Lira. Ele disse também que a proposta é "neutra, justa e moderna".

Com os desdobramentos em torno da reforma, as ações de grandes bancos, que contribuíam para segurar o Ibovespa mais cedo, chegaram a mudar de direção em bloco, mas encerraram o dia com sinal misto, entre perda de 0,43% para BB ON e ganho de 0,61% para Itaú PN. Ao fim, o dia se mostrou positivo para as commodities, com Petrobrás PN em alta de 0,61% e Vale ON, de 0,59%, e para as ações de siderurgia, com Usiminas PNA com ganho de 1,33% e CSN ON, de 1,00%.

Porém, após o relator da reforma do IR sugerir compensar a queda na alíquota do IRPJ com a isenção dos benefícios dados a 20 mil empresas, especialmente as indústrias de cosméticos, perfumaria, medicamentos, aeronaves e embarcações, além das termelétricas, as ações desses segmentos caíram. Embraer cedeu 2,94% e Natura, 0,39%.

Porém, em resposta à perspectiva de manutenção da isenção de IR nos fundos de investimento imobiliário, as ações de administradoras de shoppings, como BR Malls, em alta de 2,63% e Multiplan, de 2,86%, se alinharam às campeãs do dia - destaque também para JHSF, com 3,16%.

"Na apresentação do parecer preliminar do deputado Celso Sabino, os fundos imobiliários não serão tributados, permanecendo a redução da alíquota de 20% para 15% no ganho de capital. Essa notícia, em especial, impulsionou o setor de construção e shoppings, uma vez que os fundos são usados como uma forma de financiamento", observa Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora.

"O relator também aprofundou a redução do IRPJ para empresas de todos os regimes tributários", acrescenta o analista. "A alíquota, hoje de 15%, será reduzida para 5% em 2022 e para 2,5% a partir de 2023. O adicional de 10% para maiores empresas (lucros superiores a R$ 20 mil por mês) está mantido no substitutivo preliminar. Desta forma, na prática, para grandes empresas que excedem R$ 20 mil de lucro mensal, a alíquota vai cair para 12,5%", diz Ribeiro.

"Além da questão dos fundos imobiliários, que conta bastante, o cenário ainda é de recuperação para o PIB no segundo semestre, com revisões não só das previsões sobre o nível de atividade como também para a inflação. Tivemos nova melhora do desempenho de serviços, o que, mantida a vacinação e sem agravamento relacionado a variantes do coronavírus, contribui para este viés positivo. Há ainda muito o que vir com relação à reforma (do IR), pode vir até melhor do que o esperado, com desidratação da primeira proposta do Guedes", diz Thiago Raymon, head de estratégia da Wise Investimentos

Câmbio

A volatilidade marcou os negócios no mercado de câmbio doméstico, com o dólar trocando de sinal várias vezes ao longo do pregão. Apesar do relatório mais favorável da reforma do Imposto de Renda, a pressão vinda fora se impôs, com o fortalecimento global da moeda americana, após o CPI de junho, de 0,9%, ter vindo acima do esperado (0,5%, segundo Projeções Broadcast), o que aumentou as apostas de que o Federal Reserve (Fed, o Banco Central americano) possa antecipar o início da redução de compra de títulos públicos (tapering).

Na contramão, jogaram a favor do real a estimativa de entrada forte de recursos para aberturas de capital de empresas na B3 (IPO), a perspectiva de alta mais intensa da taxa Selic por aqui, após declarações ontem no fim do dia do diretor de Política Monetária do Banco Central, Bruno Serra sobre o tema.

No acumulado do mês, a moeda americana acumula valorização de 4,18%. Vale destacar que o fechamento no mercado de câmbio doméstico se deu bem no momento em que o índice DXY - que mede o desempenho da moeda americana ante seis divisas fortes - batia na máxima do dia, na casa dos 92,800 pontos. O dólar também subia mais de 1% em relação ao peso mexicano, considerado par do real. Por aqui, a moeda para agosto cedeu 0,17%, cotada a R$ 5,1745.

Na pesquisa mensal do Bank of America com gestores e investidores da América Latina, caiu de 85% para 66% a fatia dos que acreditam em dólar deve terminar o ano abaixo do nível de R$ 5,10, embora tenha sido mantida perspectiva de que o real vai ter desempenho melhor que outras moedas. /LUÍS EDUARDO LEAL, ANTONIO PEREZ E MAIARA SANTIAGO

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