'Irmã mais velha' China é maior desafio para sucesso dos Brics

Durante os dois anos de duras negociações para criar o novo banco de desenvolvimento dos Brics, o principal obstáculo não foi a falta de recursos ou de comprometimento, mas a parceira China.

ALONSO SOTO, REUTERS

15 de julho de 2014 | 19h46

Inicialmente, os chineses queriam uma parcela maior do banco, lançado formalmente nesta terça-feira pelos líderes dos cinco países dos Brics como claro desafio ao rígido domínio ocidental sobre as finanças globais, disseram autoridades envolvidas nas conversas.

No final, Brasil e Índia prevaleceram e mantiveram igual a participação dos cinco membros, mas permanecem os temores de que a China, segunda maior economia do mundo, possa tentar exercer influência maior no banco de 100 bilhões de dólares para ampliar seu peso político no exterior.

“É inevitável que os chineses dominem o novo banco”, declarou Riordan Roett, cientista político da Universidade Johns Hopkins. “Eles não se envolvem nestes empreendimentos a menos que tenham, senão o controle total, uma influência significativa”.

Conhecidos por suas diferenças acentuadas na economia e na política, os Brics enfrentam o desafio de conter a ânsia chinesa para controlar instituições que supostamente dão voz a todos os parceiros.

A discórdia interna se tornou evidente nesta terça-feira, quando o grupo mostrou dificuldade para superar um impasse de última horas nas negociações entre China e Índia –- ambas queriam sediar o banco. Para destravar as conversas, o Brasil abdicou do pedido para ser o primeiro presidente rotativo em favor dos indianos, segundo uma autoridade de alto escalão envolvida no processo.

O banco será sediado em Xangai, a capital dos negócios na China, e seu objetivo será romper com o modelo que dá pouco direito a voto para economias emergentes e perpetua o domínio dos Estados Unidos e da Europa sobre o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial.

“Este é um grande desafio para os Brics. Às vezes, quando se chega às negociações de fato e os países querem mais voz, esquecem de algumas de suas aspirações mais nobres, quando criticavam o FMI e o Banco Mundial”, disse Kevin Gallagher, professor de relações internacionais da Universidade de Boston.

A China já detém a maior fatia do novo fundo de reserva, também inaugurado nesta terça-feira e conhecido como Arranjo Contingentes de Reservas, e entrou com 41 bilhões de dólares, enquanto Brasil, Rússia e Índia prometeram 18 bilhões de dólares cada, e a África do Sul, cinco bilhões de dólares.

O regimento interno do banco procura evitar que qualquer membro tenha peso excessivo.

"A ideia é ter uma instituição profissional ditada pelas melhores práticas bancárias e pela governança compartilhada que manterá esse risco à distância”, afirmou à Reuters o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, nos bastidores da cúpula.

(Reportagem adicional de Anthony Boadle)

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