Rodolfo Buhrer/Fotoarena
Rodolfo Buhrer/Fotoarena

Irregularidades foram encontradas pela Operação Carne Fraca em três frigoríficos

Relatório da PF mostra que, em dois deles, suspeitas são baseadas em conversas interceptadas

O Estado de S.Paulo

21 de março de 2017 | 23h50

A operação Carne Fraca, cuja divulgação resultou na imposição de barreiras internacionais à carne brasileira, encontrou irregularidades sanitárias em três dos 21 frigoríficos investigados. Segundo o relatório de 300 páginas da Polícia Federal, das três empresas, só a Peccin Agroindustrial teve produtos periciados pelo corpo técnico da PF a partir de amostras vindas de um supermercado de Curitiba.

Os outros dois frigoríficos, Larissa e Souza Ramos, transformaram-se em suspeitos de praticar irregularidades sanitárias apenas com base em declarações de conversas interceptadas no âmbito do inquérito.

Embora seja conduzida pela delegacia de Repressão ao Crime Organizado, cuja função é investigar crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, a operação ficou mundialmente famosa após a PF realizar uma coletiva de imprensa na qual foram abordados supostos problemas sanitários, como o uso de papelão em embutidos, carne estragada, aditivos acima do liberado e substâncias cancerígenas.

Foram essas suspeitas, levantadas pelo delegado Maurício Moscardi que iniciaram uma crise internacional. Após a divulgação da operação, a União Europeia, Hong Kong e países como China, Japão, Suíça e Chile impuseram embargos à carne.

Entretanto, de todas as empresas citadas, somente a Peccin foi alvo de uma análise pericial. Das duas maiores empresas do setor, a JBS, dona da Friboi e Seara, e a BRF, união da Sadia e Perdigão, só a BRF foi citada em um caso de problema sanitário, mas sem uma análise técnica.

Segundo relatório da PF, um executivo da BRF é suspeito de oferecer vantagens indevidas a um funcionário público com o objetivo de evitar a suspensão das atividades na fábrica em Mineiros (GO), onde teria sido encontrado foco de salmonela.

Carne estragada. Por sua vez, a Peccin, cujos donos tiveram conversas interceptadas e produtos foram periciados, é suspeita de usar carne estragada em salsichas e linguiças, além de incluir aditivos acima do limite permitido. Segundo laudo da PF, ao examinar produtos da Peccin vendidos em Curitiba, concluiu-se que a sua “composição está em desacordo com a legislação brasileira vigente, extrapolando os valores máximos para analito amido e nitrito/nitrato, e com aditivos não previstos pela legislação e não declarados no rótulo das amostras.”

Ainda sobre o frigorífico, uma médica veterinária que trabalhava na empresa depôs na PF e afirmou que eram usados “outros produtos mais baratos para substituir a carne na fabricação dos produtos agropecuários”. A PF aponta, ainda, a “utilização de carnes estragadas na composição de salsichas e linguiças, a ‘maquiagem’ de carnes estragadas com a substância cancerígena ácido ascórbico, carnes sem rotulagem e sem refrigeração, além da falsificação de notas de compra de carne”.

Em nota, a Peccin disse ter recebido com “grande surpresa, consternação e forte repúdio as falsas alegações que culminaram com a prisão preventiva de seus diretores”. A empresa afirmou ter amplo interesse em contribuir com as investigações, “estando inteiramente à disposição das autoridades policiais para prestar quaisquer esclarecimentos que se façam necessários”.

No caso do frigorífico Larissa, a suspeita levantada com base em grampos da PF é que o dono, Paulo Rogério Sposito, não demonstra “qualquer surpresa com a substituição de etiquetas de validade em uma carga inteira de carnes de barriga ou com a utilização de carnes vencidas há três meses para a produção de outros alimentos”.

No caso do Souza Ramos, além da suspeita de trocar a matéria prima da salsicha de peru por outras aves, a PF cita interceptação telefônica em que identificou que 18 toneladas de peru com salmonela, recusados no exterior, teriam sido levadas ao frigorífico. Segundo a PF, o interlocutor “sugere que a carne podre serve para fazer mortadela”.

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