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Irresistível corte da Selic

Há espaço para o Copom continuar cortando os juros, mas com cautela

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2020 | 04h00

Já são quase irresistíveis os argumentos para o Copom reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto porcentual, para o novo patamar mínimo histórico de 4,25%, na sua próxima reunião, nos dias 4 e 5 de fevereiro.

Depois do surpreendente repique nos últimos dois meses de 2019, em razão do choque nos preços da carne, a inflação deve ceder e ficar bem aquém da meta para este ano, de 4,0%.

Só para lembrar: o IPCA subiu 1,15% em dezembro, maior taxa desde junho de 2018, fechando o ano em 4,31%, acima do centro da meta para 2019, de 4,25%. O preço da carne foi o grande vilão: aumentou 18,06% em dezembro e 32,4% no acumulado do ano.

Mas ao se excluir o choque das carnes e o impacto de preços administrados, como os de combustíveis e de energia elétrica, o comportamento da inflação em 2019 se mostrou bastante benigno.

Uma das medidas de preços mais monitoradas pelo Banco Central, o núcleo de serviços subjacentes – que reflete bem o desempenho da atividade econômica – subiu apenas 3,55%, nos cálculos da Guide Investimentos. Esse núcleo exclui os preços de serviços com comportamento sazonal e os mais voláteis, como passagens aéreas. A média dos dez núcleos de inflação registrou alta de 3,05% em 2019.

Chegou, de fato, a haver um temor de que a alta expressiva no preço das carnes pudesse se propagar na economia, gerando uma onda de reajustes de outros preços – o chamado impacto secundário. 

Por enquanto, a evidência – as coletas diárias de preços – mostra que isso não está acontecendo.

A perspectiva no curto prazo é o choque do preço das carnes se dissipar e a inflação se desacelerar significativamente. Até porque 2020 está começando com o preço das carnes já bastante elevado. Ou seja, é possível, inclusive, que a inflação fique mais baixa neste ano por conta do recuo no preço das carnes. Sem falar que o reajuste das tarifas de ônibus pelo País tem ficado abaixo do que os analistas estavam esperando, o que também vai contribuir para uma inflação mais moderada. E como as chuvas estão menos volumosas neste verão, a alta habitual no preço das hortaliças também deve ser menor em 2020.

Conforme a última pesquisa Focus, os analistas esperam uma alta de 0,36% no IPCA de janeiro. Para o ano inteiro de 2020, a projeção de inflação vem caindo nas últimas três semanas, apesar da alta recente do dólar e das carnes. A mediana das estimativas dos analistas aponta para uma inflação de 3,56% neste ano.

Dado o quadro que se está vendo de inflação em 2020, é apropriado o Copom cortar os juros mais uma vez? Sim. Aliás, seria razoável esperar que o Copom revise para baixo a projeção de inflação para este ano quando atualizar seus números em relação à sua última reunião, na qual estimou inflação – no cenário híbrido com dólar constante a US$ 4,20 e trajetória de juros da pesquisa Focus – em torno de 3,7% para 2020. Isso apesar de a inflação de 2019 ter sido mais alta do que a projetada pelo Copom na última reunião (ao redor de 4,0%).

É relevante notar que o dólar, outro fator importante para a decisão do Copom, voltou a subir aceleradamente no início deste ano e se encontra de novo próximo de R$ 4,20. Apesar dessa alta recente, as expectativas de inflação para este ano caíram. Ou seja, neste momento, o câmbio não é uma fonte de preocupação para a inflação. Já a atividade econômica está com menos ímpeto do que se imaginava até o início do mês, quando foi divulgada uma queda mais acentuada da produção industrial de novembro do que o projetado. Os dados de serviços e de vendas do varejo de novembro também decepcionaram, levando a um viés negativo nas estimativas de crescimento do PIB do quarto trimestre de 2019.

Assim, se a inflação segue benigna, apesar do recente choque no preço das carnes, o câmbio não é, por enquanto, fonte adicional de pressão e a atividade econômica não mostra um aquecimento preocupante, há espaço para o Copom seguir cortando os juros, porém com cautela. E isso significa reduzir o ritmo de corte de 0,50 ponto da última reunião para 0,25 ponto em fevereiro.

* É COLUNISTA DO BROADCAST

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