Isoladas da crise mundial, ações do Iraque disparam

Governo espera que implantação de modelo de investimento eletrônico faça economia prosperar ainda mais

AP

12 de outubro de 2008 | 16h10

Enquanto o resto do mundo está enfrentando um derretimento financeiro, o mercado de ações do Iraque está tendo um crescimento vertiginoso. O índice ISX subiu aproximadamente 40% em setembro, impulsionado pelo aumento da confiança e ganhos em segurança. Mas o chefe do mercado de ações, Taha Abdul-Salam, não vê tal tendência com bons olhos. Ele está preocupado que o maior recurso do Iraque, o petróleo, venha a ser o calcanhar de Aquiles. "Acredito que ainda estamos longe do que está acontecendo pelo mundo nos mercados financeiros. Mas no fim, devemos saber que também somos parte do mundo. Acredito que, de algum modo, teremos problemas", disse. O Iraque está em uma posição única, já que sua economia pós-guerra está em processo de reconstrução, e ainda muito dependente dos fundos dos Estados Unidos, em vez de investimento internacional. Isso se reflete no mercado de ações, que tem apenas 95 companhias iraquianas listadas e um volume diário entre um e dois milhões de dólares. "Não acho que a atual crise financeira vá afetar nossa economia, e, especificamente, este mercado, porque não estamos conectados a nenhum mercado global e temos pouquíssimos investidores internacionais", disse o corretor Omar Mauwaffak. "Ainda é um mercado local, pequeno." Mouwaffak foi um dos muitos investidores e corretores que abarrotaram a bolsa neste domingo, 12, enquanto as atividades do mercado eram atualizadas com marcadores coloridos e apagadores em quadros brancos, sem computadores. "Ainda investimos no modo manual", disse Abdul-Salam, ressaltando que isto limita o número de negócios. "Se você tem investimento eletrônico, você terá centenas de transações." A bolsa, que começou a permitir investidores estrangeiros em agosto de 2007, também é aberto apenas três vezes por semana, das 10h à meia-noite. É regulado pela Comissão de Valores Mobiliários do Iraque, a qual foi baseada na comissão dos Estados Unidos. Promovido por autoridades americanas, a Bolsa de Ações do Iraque abriu em junho de 2004 para substituir o extinto modelo adotado na era Saddam Hussein, que foi marcado pela corrupção. O novo modelo teve bons negócios no início, com dez milhões de dólares circulando em apenas um dia, mas os negócios diminuíram com o aumento da violência e depois que iraquianos passaram a fugir para países vizinhos, levando o dinheiro com eles. Abdum-Salam, que tem mestrado em Economia pela Universidade de Bagdá, vê uma oportunidade de trazê-los de volta - ressaltando os planos de implementar investimento eletrônico. "Estamos tentando convencer aqueles que fugiram de que eles precisam voltar, porque temos uma boa segurança no Iraque agora. Estamos tentando construir o país", ele disse. Ele afirmou que os estrangeiros, incluindo americanos, britânicos e investidores de outros países representam menos de 3% do volume médio. O investidor Salam Hassan Jawad disse que a crise do mercado poderia até mesmo atrair novos estrangeiros. "Acho que alguns investidores estrangeiros que estão com medo de investir dinheiro nas economias afetadas vão investir o dinheiro aqui, mas não necessariamente grandes cifras", afirmou. Abdul-Salam apontou que o maior setor da economia ainda é o bancário, mas o setor hoteleiro está alavancando todos os índices. "Desde setembro, o índice está subindo porque há uma alta demanda por ações de hotéis", ele disse. "Os outros setores não enfrentaram perdas nos preços, fazendo os índices subirem." Abdul-Salam também espera conseguir mais investimentos estrangeiros uma vez que a mudança para os investimentos eletrônicos esteja completa. "Há muitos fundos pensando em investir aqui no Iraque. Eles mandam e-mails, entram em contato com nossos corretores, gostam de coletar informações", diz. "Mas alguns desses fundos estão esperando pela automação porque eles gostam de investir do modo internacional." Mas ele está preocupado que queda dos preços do petróleo, que mergulharam quase 50% depois de uma alta de cerca de US$ 150 o barril, force o Iraque a reajustar o gasto inicialmente previsto em US$ 79 bilhões. "Acredito que todos os nossos planos para a economia iraquiana vão, talvez, sofrer alguns danos ou problemas porque estivemos esperando por altos números. Agora precisamos replanejar", afirmou. "O petróleo é o primeiro e o mais caro produto dos quais dependemos para nosso trabalho, para todos os planos, para nosso investimento, para nossa reconstrução." O porta-voz do ministério do Petróleo, Assem Jihad informou que a economia iraquiana é muito dependente do petróleo e disse que autoridades estiveram analisando o mercado cuidadosamente. "Ainda esperamos que tudo fique claro para decidirmos se precisamos ajustar o preço médio do barril de petróleo que recomendamos para o próximo ano", disse.

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