'Isso é conversa para boi dormir'

Para ex-diretor do BC, aceleração é disseminada

PATRICIA LARA, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2012 | 03h08

"Isso é conversinha para boi dormir." Foi assim que o ex-diretor do Banco Central e sócio diretor da Schwartsman & Associados, Alexandre Schwartsman, respondeu à pergunta sobre se a inflação em aceleração refletiria apenas um choque localizado ao segmento de commodities, como argumentaram algumas autoridades monetárias em discursos recentes.

"O índice de difusão do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) vem rasgando recordes todo mês. Difusão mede a porcentagem dos itens que estão subindo. O fenômeno é disseminado", disse o ex-diretor do BC em entrevista ao serviço AE Broadcast Ao Vivo, da Agência Estado. "E, se você olhar as medidas de núcleos, também vem rasgando. As medidas de núcleo nos últimos meses têm rodado na casa de 0,4% ao mês."

O indicador de difusão do IPCA- 15 de agosto alcançou 65,8% de acordo com cálculo realizado pelo banco Besi Brasil, logo após o IBGE anunciar oficialmente a inflação de 0,39%. O resultado ficou acima do de julho, de 61,6%.

Câmbio. O economista disse que a política cambial deve continuar impulsionando os preços das commodities. "O impacto do preço das commodities na inflação ocorre no Brasil por culpa única e exclusivamente da política cambial que o governo tem adotado", disse.

"No período de 2006 a 2010, quando o câmbio efetivamente flutuava, o preço de commodities em reais oscilava muito pouco. Toda vez que os preços das commodities subiam, o real se apreciava e tirava a pressão dos preços de commodities. E toda vez que o preço das commodities caía, o real se depreciava e fazia a mesma coisa", disse. "O regime cambial acabava atenuando os efeitos domesticamente", acrescentou.

"A partir do momento em que o Banco Central diz que o dólar não vai para baixo de R$ 2, o aumento dos preços das commodities deixa de ser atenuado pela valorização da moeda. O choque de commodities só se traduz em aumento de inflação por culpa da política cambial adotada no Brasil", comentou Schwartsman.

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