''''Isto aqui está entregue a Deus''''

Desabafo de Santos sobre a Fernão Dias não é o único

Marianna Aragão, SÃO PAULO, O Estadao de S.Paulo

10 de outubro de 2007 | 00h00

Enquanto seu destino era definido no leilão de privatização do Governo Federal, a Rodovia Fernão Dias (BR-381) vivia mais um dia típico. Buracos no asfalto, placas destruídas, falta de sinalização e veículos parados no acostamento por falta de auxílio rodoviário foram alguns dos obstáculos encontrados pela reportagem do Estado no trecho de 107 quilômetros entre a capital paulista e Extrema (MG).''''Isto aqui está entregue a Deus'''', desabafa o motorista Marcos Santos, de 33 anos, há cinco trabalhando pelas estradas do País.Na tarde de ontem, o caminhão em que Santos levava um frete até a cidade de Rio das Pedras (SP) teve duas de suas quatro rodas traseiras furadas, na altura do km 37 da rodovia. Conseqüência, segundo ele, da má conservação da Fernão Dias. ''''Já é a segunda vez que isso me acontece este ano, e na mesma estrada'''', conta o motorista, que temia perder o prazo da entrega e calculava em R$ 350,00 o prejuízo com o conserto dos pneus. ''''Quantas viaturas passaram aqui para dar auxílio? Nenhuma. Vou ficar horas parado esperando ajuda de um colega.''''Para Santos, a história poderia ter sido diferente caso a rodovia já estivesse privatizada. Nas estradas estaduais de São Paulo, como a Bandeirantes (SP-348), onde também trafega com freqüência, ele diz que o serviço de manutenção chega minutos depois de qualquer incidente. Por isso, se diz a favor da cobrança de pedágio. ''''Desde que seja para melhorar, é bom que se faça, e logo'''', diz o motorista.O caminhão de Santos parou no final do trecho mais crítico percorrido pela reportagem: os cerca de 60 km que separam a capital paulista de Atibaia (SP). Apesar de ter duas ou três faixas, é nesse trajeto que se vêem dezenas de caminhões trafegando pelo acostamento - uma forma de fugir dos buracos maiores das pistas principais. Além disso, a seqüência de ''''tapa-buracos'''' deixou o asfalto totalmente enrugado. Placas retorcidas, pichadas e quebradas completam a paisagem.Também nesse trecho, nenhuma viatura da Polícia Rodoviária Federal foi avistada auxiliando os veículos parados ao longo da estrada. Pelo menos quatro caminhões, entre eles o de Santos, estavam parados na via por problemas mecânicos ou pneu furado.É o caso do caminhoneiro Geraldo Donizete Pedro, de 43 anos. Ele transporta telhas de uma fábrica em São Paulo para Piracaia (SP) pelo menos quatro vezes por semana. Usa sempre a Fernão Dias. Na manhã de ontem, teve um problema com o freio do caminhão, próximo ao km 80. Sozinho, ele precisou de uma hora para consertar o defeito. ''''Tem um posto de gasolina a um quilômetro daqui, mas o que adianta? Se fosse na (rodovia) Anchieta, já tinha mandado um guincho.''''Quilômetros à frente, o motociclista Vangivaldo Santana, de 35 anos, vivia drama semelhante. Após ter o pneu traseiro perfurado na altura de Mairiporã (SP), precisou empurrar sua motocicleta por quatro quilômetros até o posto de gasolina mais próximo. ''''É a primeira vez que cruzo esta estrada e já dei azar'''', conta ele, que ainda tinhamais 30 quilômetros de estrada pela frente até o destino final, Atibaia (SP).

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