Italiano é escolhido para presidir BCE

Mario Draghi, ex-diretor do Goldman Sachs e presidente do Banco Central da Itália, será o novo guardião do euro a partir de 1.º de novembro

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2011 | 00h00

A partir de 1.º de novembro, a moeda única da União Europeia (UE) terá um novo guardião. Em plena crise do euro, o italiano Mario Draghi, ex-diretor do Goldman Sachs, foi escolhido como o novo presidente do Banco Central Europeu (BCE), em substituição a Jean-Claude Trichet, que se consolidou como o maior defensor da divisa desde a crise aberta pela quebra do banco Lehman Brothers, em 2008.

A decisão foi tomada por chefes de Estado e de governo da zona do euro, ontem, em Bruxelas. Depois de meses de tratativas e de uma defecção inesperada, a do presidente do Bundesbank - Banco Central da Alemanha -, Axel Weber, Draghi se tornou nome de consenso entre os líderes políticos europeus. Ele será o terceiro presidente da instituição criada em 1998, sucedendo ao holandês Wim Duisenberg, presidente até 2003, e a Trichet.

Aos 63 anos, o italiano terá a tarefa de zelar pela política monetária da zona do euro e pela estabilidade dos preços. Mas, em especial neste momento, deverá trabalhar pela solidez do sistema financeiro, abalado em países como Irlanda, Grécia, Portugal e Espanha.

Currículo não lhe falta. Discípulo do Prêmio Nobel de Economia Franco Modigliani, Draghi foi o primeiro italiano a tornar-se PhD pelo Massachusetts Institut of Technology (MIT), nos Estados Unidos.

Também foi representante de seu país no Banco Mundial entre 1984 e 1990, diretor do Tesouro italiano de 1990 a 2001 e vice-presidente do banco americano Goldman Sachs entre 2002 e 2006, antes de tornar-se presidente do Banco Central da Itália, cargo que ainda ocupa.

Seu histórico, entretanto, também lhe rende críticas. Isso porque o Goldman Sachs foi o banco que auxiliou a Grécia a maquiar suas contas públicas, permitindo seu ingresso na zona do euro, mas abrindo a sequência de eventos que culminou na revelação, em 2009, de uma dívida e de um déficit públicos muito acima do assumido por Atenas. As fraudes gregas estão na origem da crise do sistema financeiro que Draghi terá de combater.

Interferência. A nomeação de Draghi trouxe consigo um problema político para a União Europeia. Ao perder Trichet, a França ficaria sem membro no conselho de presidentes do BCE. Insatisfeito, o governo da França paralisou as negociações em torno de Draghi e condicionou seu apoio à demissão do também italiano Lorenzo Bini Smaghi, cujo mandato continuaria.

Em entrevista, Nicolas Sarkozy confirmou ter pedido o comprometimento de Smaghi de que se demitirá do cargo quando da posse de seu compatriota, abrindo espaço a um francês. "Smaghi me telefonou para me dizer que antes do fim do ano ele será chamado a novas funções", disse Sarkozy.

O "pedido" de demissão gerou algumas críticas à França, por uma suposta violação à independência do BCE. A polêmica, porém, logo esfriou. Ontem o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, anunciou seu apoio a Lorenzo Smaghi para presidir o Banco Central italiano, em substituição a Mario Draghi, afirmando que ele é "incontestavelmente qualificado para o posto".

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