Italianos e gregos mostram ceticismo sobre plano anticrise da UE

O acordo fechado por líderes da zona do euro nesta quinta-feira para conter a crise de dívida da região foi recebido com ceticismo por espectadores nos dois países que mais estão em evidência: Grécia e Itália.

CATHERINE HORNBY, REUTERS

27 de outubro de 2011 | 13h09

O primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, apresentou um ambicioso conjunto de reformas destinadas a impulsionar o crescimento e reduzir a dívida, como parte do acordo, mas analistas questionaram a capacidade de sua fragmentada coalizão para implementar o plano.

Na Grécia, cidadãos e políticos da oposição temiam a perspectiva de maior aperto de cinto e mais anos de recessão, mostrando pouco entusiasmo com o plano pelo qual bancos e seguradoras aceitarão uma perda de 50 por cento nos títulos gregos que possuem.

As promessas de Berlusconi incluem o aumento da idade de aposentadoria e a facilitação da demissão de funcionários pelas empresas, mas poucos esperam que um governo rodeado de escândalos, com um péssimo histórico de aprovar reformas, seja capaz de fazê-lo enquanto batalha por sua sobrevivência.

"É difícil acreditar que as intenções de ontem possam realmente ser transformadas no maior plano de reformas de mercado que a Itália já colocou no papel", escreveu Antonio Polito no jornal Corriere della Sera, apontando tensões na coalizão e a falta de fé no governo.

Um editorial no jornal de inclinação esquerdista La Repubblica descreveu o plano como um "livro dos sonhos".

Em um sinal dos desafios que Berlusconi enfrenta, a maior união sindical da Itália, a CGIL, respondeu comprometendo-se a lutar contra os planos de reforma e fez um apelo aos sindicatos menores para que se unam contra "ataques direcionados" aos trabalhadores italianos.

"Estamos prontos para propor uma ação unificada", disse a secretária-geral da CGIL, Susanna Camusso, ao La Repubblica.

OPOSIÇÃO

Berlusconi apresentou o pacote de reformas construído às pressas como uma "carta de intenções" para a cúpula da União Europeia, prometendo um muito adiado plano de desenvolvimento econômico até 15 de novembro e outras medidas para aumentar o crescimento e equilibrar o Orçamento até 2013.

As medidas fazem parte de um acordo na zona do euro destinado a encerrar a crise da dívida, que ameaçou desfazer o projeto da união monetária.

Após ter evitado o pior da crise financeira nos últimos anos, a Itália foi para o centro da crise da dívida neste ano, com seus custos de financiamento público disparando para perto de níveis insustentáveis.Só a intervenção do Banco Central Europeu (BCE) impediu que o país ficasse fora de controle.

Os investidores se preocupam com o crescimento cronicamente lento da Itália e com a sustentabilidade de sua dívida de 1,9 trilhão de euros, que só perde para a Grécia dentro da zona do euro, representando 120 por cento do Produto Interno Bruto (PIB).

A lista interminável de problemas de Berlusconi -- incluindo escândalos sexuais, problemas legais, uma discussão pública com o ministro da Economia e aliados cada vez mais rebeldes -- prejudicou ainda mais a confiança dos investidores.

O aliado de Berlusconi no partido Liga do Norte, de quem ele depende para a maioria parlamentar, recusou-se a ceder em algumas partes da reforma previdenciária e abertamente questionou se o governo pode chegar até o fim do mandato, que acaba em 2013. Analistas dizem que eleições antecipadas são prováveis na primavera europeia do ano que vem.

Ainda assim, alguns analistas disseram que os planos de Berlusconi foram além das expectativas e o mercado europeu de ações subiu para o maior patamar desde agosto, como alívio após o acordo dos líderes da UE.

Analistas receberam bem as medidas de potenciais demissões no setor público e a facilitação dos cortes de emprego para as empresas em tempos de dificuldades econômicas, que encontravam forte oposição nas ruas de Roma.

"Facilitar a demissão de funcionários não ajuda nem um pouco as pessoas. Eles deveriam visar os grandes ativos, aqueles que têm mais necessidade de pagar mais neste momento de crise ", disse um morador de Roma, que não quis ser identificado.

Na Grécia, os cidadãos atingidos por várias rodadas de rigor fiscal, incluindo cortes de salários e de aposentadorias e aumentos de impostos, responderam com críticas semelhantes.

O primeiro-ministro grego, George Papandreou, disse que o acordo significa que a dívida do país passará a ser sustentável, mas as pessoas nas ruas viram poucos motivos para comemorar.

"Eu não me sinto salvo", disse o professor Pantelis Abeloyannis, 47, pai de três filhos e que está lutando para sobreviver e pagar sua hipoteca após pesados cortes salariais.

"Os bancos não estão pagando para nós hoje. Eles estão apenas retornando uma parte do lucro que obtiveram de nós todos esses anos."

(Reportagem adicional de Renee Maltezou e George Georgiopoulos)

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