Dida Sampaio/Estadão
Jair Bolsonaro e seu futuro ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araujo Dida Sampaio/Estadão

Itamaraty terá departamento do agronegócio, diz futuro ministro

Para Araújo, ministério foi a ‘casa do MST’ nos governos do PT, ‘agora estará à disposiçãodos produtores’

Lu Aiko Otta, O Estado de S.Paulo

22 Dezembro 2018 | 05h00

BRASÍLIA - O futuro chanceler, embaixador Ernesto Araújo, usou ontem sua conta no Twitter para anunciar que criará um Departamento do Agronegócio na estrutura do Ministério das Relações Exteriores. Segundo explicou, ele atuará em sintonia com o Ministério da Agricultura na conquista de novos mercados. “Daremos ao agro a atenção que no MRE ele nunca teve”, escreveu.

Sem deixar de lado comentários de cunho ideológico, Araújo afirmou que, nos governos do PT, o Itamaraty foi “a casa do MST”. Agora, disse ele, “estará à disposição do produtor.”

Hoje, o Itamaraty já tem uma estrutura dedicada ao tema: a Divisão de Agricultura e Produtos de Base, que integra o Departamento Econômico da pasta. Num departamento próprio, o agronegócio ficaria um patamar acima na hierarquia administrativa do governo. 

A ideia foi considerada positiva pelo vice-presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Pedro de Camargo Neto. Mas ele lamentou que, ao falar do agronegócio, o futuro chanceler não tenha esclarecido os pontos que mais preocupam o empresariado do setor: a ideia de transferir a embaixada de Tel-Aviv para Jerusalém, que coloca em risco o mercado árabe, e a relação com a China, principal comprador do agronegócio do Brasil. “Foi ruim”, disse. “Mais preocupou do que despreocupou.”

Na mesma postagem, Araújo escreveu que “algumas negociações comerciais em curso são ruins para a agricultura”, sem especificar quais, nem por quê. “Vamos reorientá-las em benefício dos produtores brasileiros.”

Mas, na avaliação de Pedro Camargo, as negociações em curso não são ruins para o setor. Pelo contrário: por ser forte, o agronegócio brasileiro consegue atrapalhar as negociações que não lhe são benéficas. “O agro sempre ganha”, disse. “Às vezes ganha pouco, às vezes ganha muito.” Ele admite que a falta de acordos bilaterais prejudica um desempenho melhor da balança comercial, mas atribui a responsabilidade disso mais ao setor privado do que ao Itamaraty.

Araújo afirmou também que a diplomacia brasileira defenderá o produtor brasileiro da pecha de ser agressor do meio ambiente. “O produtor agrícola brasileiro contribui para a preservação ambiental como em nenhum outro lugar do mundo.” 

A preservação da Amazônia é usada por concorrentes para desgastar a imagem dos produtos brasileiros no mercado internacional, principalmente os do agronegócio. Por isso, produtores se preocupam com a ideia de retirar o Brasil do Acordo do Clima. Entre outras consequências, isso daria mais munição a esses grupos. 

Isso não parece preocupar o futuro chanceler. “O establishment da velha política e da velha mídia quer usar o agro como pretexto para reduzir o Brasil a um país insignificante”, escreveu. “Não adianta ganhar o prêmio de redação da ONU, não é isso que abre mercados nem cria empregos.”

E desafia: “Querem jogar a agricultura contra os ideais do povo brasileiro? Não conseguirão. O trabalho incansável, a fé, a inventividade, o patriotismo dos agricultores são a própria essência da brasilidade.” O chanceler afirma que o Brasil não deixará de exportar soja, carne, frango e açúcar. “Mas passará a exportar também esperança e liberdade”, escreveu. “O fato de ser uma potência agrícola não nos proíbe de ter ideais e de lutar por eles.”

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Futura ministra quer acabar com inspeção diária em frigoríficos do País

Escolhida para comandar o Ministério da Agricultura, Tereza Cristina defende que cada produtor inspecione suas unidades

André Borges, O Estado de S.Paulo

22 Dezembro 2018 | 05h00

BRASÍLIA - A futura ministra da Agricultura, Tereza Cristina, quer alterar o processo de inspeção de carnes e derivados produzidos no País, acabando com a fiscalização diária do governo. A medida beneficia principalmente os frigoríficos, hoje submetidos a auditorias diárias feitas pelo servidores públicos do ministério. 

As regras de vigilância sanitária determinam que é função do governo – e não do produtor de carne – fazer a inspeção sanitária diária da carne, desde antes do abate dos animais até a sua produção para consumo. O plano da nova ministra da Agricultura é fazer com que o setor adote “práticas de autocontrole”, com protocolos de segurança estabelecidos pelo governo, mas sendo auditados pelo poder público apenas “de tempos em tempos”, sem a necessidade de ter um agente do Ministério presente fisicamente, todos os dias, nos frigoríficos do País.

Em entrevista ao Estado, Tereza Cristina disse que essa será uma de suas primeiras medidas. “Simplificação não é precarização. Com responsabilidade e seriedade, vamos dar agilidade e reduzir custos. Com o autocontrole, a responsabilidade é do produtor, seja sobre os equipamentos, seu pessoal ou sobre a qualidade do que tem de sair dali. Ele deve cumprir a regra, o que ele terá de fazer é seguir um protocolo detalhado”, declarou a ministra. “A fiscalização do Ministério será uma auditoria feita de tempos em tempos. Se achar que não está bom, vai lá toda semana.”

Tereza Cristina diz que o modelo atual limita a autonomia dos frigoríficos. Hoje, segundo ela, a produção não pode ser ampliada para o fim de semana porque os fiscais do ministério não trabalham sábado e domingo e não podem receber hora extra. “Com essa medida, não tem problema nenhum, pode trabalhar sábado, domingo, à noite, três ou quatro turnos”, disse. “Isso é o que esse governo novo quer implantar, onde puder. Cada um tem de tomar conta do seu pedaço, com responsabilidade.”

O modelo de autocontrole, segundo Cristina, já é utilizado em várias partes do mundo. “É um processo usado em parte da Europa. O ministério faz a fiscalização do animal vivo, para ver se ele está em perfeita condição de saúde para ser consumido. Mas internamente, o controle é da empresa, do frigorífico.”

O processo de inspeção de carnes brasileiro esteve no centro das investigações da Operação Carne Fraca, realizada pela Polícia Federal em março de 2017. As investigações apuraram a atuação de auditores fiscais sanitários e suas relações com grandes frigoríficos, levando ao fechamento de algumas plantas pelo País. Delatores confessaram que empresários pagavam mesadas para funcionários do Ministério da Agricultura para que pudessem escolher os fiscais do governo que atuariam dentro das unidades fazendo vista grossa na vigilância. 

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Estado é vital no frigorífico, diz ministro Blairo Maggi

Ministro diz que o mercado internacional exige a presença física e diária, nos frigoríficos, de um auditor sanitário ligado ao poder público

André Borges, O Estado de S.Paulo

22 Dezembro 2018 | 05h00

BRASÍLIA - O atual ministro da Agricultura, Blairo Maggi, um dos principais produtores rurais do País, não acredita na possibilidade de a proposta da nova ministra da pasta, Tereza Cristina, ter efeito prático. Para o consumidor brasileiro, disse Maggi, o governo pode aplicar a regra que quiser, mas quando o assunto é exportação, porém, a situação torna-se completamente diferente. 

De acordo com Maggi, é o mercado internacional que exige a presença física e diária, nos frigoríficos, de um auditor sanitário ligado ao poder público, e não um funcionário da própria empresa. “Quando eu cheguei ao Ministério da Agricultura, eu também tinha a ideia de limpar tudo e deixar a responsabilidade apenas com os frigoríficos. O tempo e a experiência da Operação Carne Fraca (ocorrida em março de 2017) foi me mostrando que isso não é possível. Se o Estado sair de lá de dentro, vai dar confusão. A presença do Estado ainda é necessária lá.”

Maggi citou, como exemplo, imposições feitas ao exportador brasileiro pelos EUA e a Europa. “Os americanos não aceitam hoje que funcionários de inspeção sejam vinculados ao frigorífico. Eles exigem que se tenha algum agente público ali, fisicamente, inclusive depois do abate do animal. Essa inspeção após a abertura do animal é determinada pelos EUA”, disse. “Quando você abre uma carcaça, você tem de ter alguém ali que não seja da empresa para verificar se há algo que possa fazer mal para o consumo humano. É muito difícil uma mudança sobre isso, porque isso está vinculado aos nossos certificados de exportação. São exigências de mercado comprador.”

Sobre os consumidores europeus, o ministro declarou que as medidas têm sido ainda mais duras, exigindo não apenas que os auditores sejam servidores públicos, mas também seus ajudantes. Hoje há cerca de 2,5 mil auditores fiscais federais em todo o País, sendo que na área de inspeção animal atuam aproximadamente 800 profissionais. O quadro de ajudantes deste time, porém, chega a 12 mil pessoas, as quais são contratadas pelos frigoríficos. 

Pressão. “Passei este ano inteiro com uma pressão enorme do mercado europeu, porque eles resolveram exigir que até mesmo os ajudantes dos fiscais passassem a ser de responsabilidade do Ministério da Agricultura. Ele exigiram que mudássemos isso, sob risco de não poder mais mandar mercadoria para a Europa. Veja a complexidade do assunto”, disse o ministro. Nesta semana, foi publicado um decreto que permite a possibilidade de empresas de fora prestarem esse serviço terceirizado para apoiar a inspeção pública feita nos frigoríficos.

Na avaliação de Blairo Maggi, há espaço para reduzir algumas rotinas dos auditores dentro dos frigoríficos – como acompanhar a etapa de qualidade dos produtos –, mas é praticamente impossível retirá-los da operação. “Esse é o caminho que se seguiu até agora. Se o novo ministério quer fazer mudanças nessa área, terá que combinar isso com os compradores externos. Temos compromissos assumidos com cada País.”

Polêmica. O tema é controverso até mesmo para o Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais Federais Agropecuários (Anffa Sindical), que representa os servidores públicos. “O que está se procurando é responsabilizar a indústria sobre a qualidade do produto. É complexo. Não há uma posição firme sobre isso dentro da própria categoria. O que esperamos é que abra uma discussão interna no governo e que isso envolva o setor produtivo”, disse Maurício Rodrigues Porto, presidente da Anffa.

Porto lembra alguns produtos, como o leite, por exemplo, que já chegaram a ter inspeção pública diária no passado, mas que hoje são alvos de procedimentos mais esporádicos. “Carne é outra coisa. Há mais de 350 tipos de doenças que podem afetar um rebanho. De maneira geral, é arriscado tentar reproduzir imediatamente modelos de outros países dentro Brasil”, disse. “Infelizmente, a consciência do empresário brasileiro ainda é a do lucro. Estamos falando de garantir a segurança alimentar e a saúde pública. É uma questão complexa.”

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Mudança na inspeção de frigoríficos seria bem-vinda, dizem especialistas

Segundo analistas, mudança não deve causar preocupação a exportadores; entidade de defesa do consumidor se diz preocupada

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

22 Dezembro 2018 | 05h00

As mudanças na fiscalização da carne podem ser positivas – se o governo conseguir desburocratizar o procedimento de inspeção – e não devem afetar as exportações brasileiras, segundo especialistas ouvidos pelo Estado. As entidades de defesa do consumidor, no entanto, veem a proposta com preocupação.

Na avaliação de Alexandre Mendonça de Barros, da consultoria especializada MBAgro, a inspeção de qualidade feita pelos próprios frigoríficos ocorre em outros países e seria um passo importante para desburocratizar o processo. “O Estado não tem condições de ampliar o número de fiscais do Ministério da Agricultura. É uma forma inteligente de agilizar a fiscalização e o governo deve aplicar as multas devidas, caso necessário.”

O consultor e ex-secretário do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic), Welber Barral, avalia que a mudança não deve causar impacto nas relações com os países que compram carne do Brasil. “Os países compradores têm equipes próprias que vêm ao frigorífico verificar se as exigências dos importadores estão sendo cumpridas e é interesse das empresas manter os mercados externos que foram conquistados.”

Já o diretor de Fiscalização do Procon-SP, Osmário Climaco de Vasconcelos, é menos otimista. “Apesar de o Procon não fiscalizar a carne in natura, apenas a processada, acreditamos que deixar a inspeção nas mãos das empresas é preocupante. Há casos recentes de baixo controle sanitário e é preciso garantir que o consumidor está recebendo produtos de qualidade.” 

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