Daniel Teixeira/ ESTADÃO
Daniel Teixeira/ ESTADÃO

Itaú BBA reabre banco em Portugal para se preparar para Brexit

Unidade de Lisboa será uma divisão complementar do Itaú de Londres; operações lusitanas seriam o braço do banco para o cliente que está fora da Inglaterra

Célia Froufe, correspondente, e Eduardo Gayer, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2019 | 07h00

LONDRES e SÃO PAULO - Para se preparar para as consequências da saída do Reino Unido da União Europeia, o chamado Brexit, o Itaú decidiu reabrir o Itaú BBA Internacional, voltado para o segmento de atacado, em Lisboa. As operações devem ter início nas primeiras semanas de 2020, já que, conforme apurou o Estadão/Broadcast, os trâmites regulatórios estão adiantados e a marca brasileira aguarda apenas o aval final do Banco de Portugal.

De acordo com informações obtidas pela reportagem, Lisboa será uma divisão complementar do Itaú de Londres, uma subsidiária que deve ser comandada pelo CEO da instituição no Reino Unido, Renato Lulia-Jacob. Não há, dessa forma, perspectiva de transferência de sede de uma capital para a outra. Cerca de 80 colaboradores atuarão na nova unidade, alguns deles vindos de outros núcleos do banco na Europa.

O Itaú BBA comemorou, no mês passado, 25 anos de atuação na Europa - a entrada no continente se deu, justamente, por Lisboa. Em 2010, abriu uma unidade em Londres, centro financeiro europeu, e optou por diminuir as operações na capital portuguesa, que passou a contar apenas com uma agência. Na Inglaterra, o foco do banco é a área de mercado de capitais internacional, voltada para a distribuição primária de emissões brasileiras e do próprio Grupo Itaú, além do mercado secundário de papéis públicos e privados de emergentes.

A instituição também atua na Suíça - mas tanto este país quanto o Reino Unido estão fora da zona do euro. Assim, as operações lusitanas seriam o braço do banco para o cliente que está fora de Londres. Atualmente, há um acordo entre os britânicos e o restante do continente para que as instituições financeiras possam atuar nos dois lados, desde que possuam o que é chamado de "passaporte". É com ele que o Itaú atende seus clientes em outras praças, a partir da City. No entanto, há incertezas sobre como ficará essa questão após a saída do Reino Unido da União Europeia.

Com o Brexit, a intenção é usar a unidade em Portugal para operações que por ventura não possam ser feitas a partir de Londres, quando e se o divórcio for concluído. O cronograma da separação conta com a retirada britânica da União Europeia em 31 de janeiro e com um prazo de transição até o fim de 2020. Na terça, 17, os mercados do continente foram abalados pela notícia de que o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, quer usar sua maioria recém obtida no Parlamento para mudar a lei que trata do Brexit e garantir que essa fase de transição não seja estendida, como havia sinalizado a UE.

Por mais que esteja ocorrendo em paralelo com a questão do divórcio, a ampliação das atividades do Itaú em Lisboa também faz parte de um processo de expansão do banco, como apurou o Estadão/Broadcast. Por isso, a escolha por Portugal tem sido considerada como "natural" e servirá como mais uma base de atendimento para os clientes corporate e institucional do banco na Europa, atendendo a todos os clientes do segmento atacado, até do private bank. Não há, contudo, intenção de ampliação da área de varejo para fora da América Latina.

A notícia repercutiu com força em Portugal, país que tem sido procurado por empresas brasileiras que desejam atuar na Europa. A semelhança do idioma, a boa perspectiva para a economia do país e o crescimento da comunidade brasileira por lá têm sido apontados como razões para a escolha do local como ponto de expansão de negócios no Velho Continente. De acordo com o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras de Portugal, a nacionalidade brasileira mantém-se como a principal comunidade estrangeira no país.

Procurado pela reportagem, o Itaú preferiu não se pronunciar.

Travessia do Canal da Mancha

A transferência de funcionários do setor financeiro da City para outras capitais europeias tem sido uma constante desde que o Brexit foi anunciado. Algumas cidades, como Frankfurt, na Alemanha, chegaram a expor sua preocupação com a infraestrutura insuficiente para receber um aumento expressivo de profissionais e suas famílias. Em outras, como Madri, na Espanha, houve campanha para atrair bancos, corretoras e seus trabalhadores, com diferenciais não apenas em relação ao custo de vida mais baixo, mas pela quantidade de dias de sol no ano superior a Londres.

O fluxo de imigração, no entanto, acabou sendo, até o momento, menor do que o previsto. Em entrevista ao Estadão/Broadcast em maio, o prefeito da City, Peter Estlin, argumentou que nem 10 mil profissionais do setor financeiro saíram do país por conta do Brexit - um número irrisório, tendo em vista a contratação de 35 mil no segmento de Fintechs e de um mercado de 2,3 milhões de pessoas.

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