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Itaú recusou oferta dez vezes maior pelo BPI

Cinco anos depois, fatia de 18,87% no banco português foi vendida por 93 milhões

FERNANDO DANTAS, MONICA CIARELLI / RIO, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2012 | 03h08

O Itaú Unibanco acaba de vender por 93 milhões uma participação de 18,87% no banco português BPI (Banco Português de Investimento), pela qual o Itaú recusou uma oferta de 936 milhões em 2007 (antes da fusão com o Unibanco em 2008).

A história, relatada pelo jornal português Diário Económico em matéria publicada na terça-feira da semana passada, mostra que o grupo bancário brasileiro deixou de ganhar 843 milhões (R$ 2,107 bilhões) pelo timing infeliz na venda da sua fatia no BPI.

Na verdade, a participação do Itaú quando ocorreu a oferta, em 2007, era ligeiramente menor, de 17,6%.

No momento em que o Itaú Unibanco está no foco no Brasil pela campanha do governo para a redução do spread dos bancos privados e pelos fracos resultados que, junto com outras grandes instituições financeiras brasileiras, obteve no primeiro trimestre, o desfecho da história do BPI passou relativamente despercebido.

Foi em abril de 2007 que o banco português BCP (Banco Comercial Português) reviu de 5,7 para 7 o preço por ação de uma oferta pública de aquisição do BPI. O Itaú, que detinha 133,76 milhões (17,6% do capital) recusou a proposta, junto com outro acionista, o La Caixa, grupo bancário espanhol. Assim, a tentativa de aquisição do BCP não teve sucesso.

Há cinco anos, quando a operação foi tentada, a grande crise global ainda não havia começado, e as perspectivas econômicas portuguesas pareciam muito mais brilhantes.

Com o início da turbulência, porém, e especialmente nos dois últimos anos, quando a periferia europeia foi atingida em cheio, os bancos portugueses ficaram em situação crítica, e o preço de suas ações despencou.

Assim, conforme anunciado num comunicado ao mercado em 20 de abril (sexta-feira da semana retrasada), o Itaú Unibanco, por meio da controlada Itaúsa Portugal Investimentos (IPI), vendeu toda a sua participação de 18,87% para o próprio grupo La Caixa.

Segundo a reportagem do Económico, o preço pago equivale a 0,5 por ação, ou 14 vezes menos do que a oferta que o Itaú recusou há precisamente cinco anos.

"O sistema bancário português está sofrendo com o problema das contas públicas do país, e esse episódio mostra o cuidado que as instituições brasileiras têm de ter com os investimentos fora do País", comenta Luís Miguel Santacreu, analista de bancos da consultoria Austin Asis.

O comunicado ao mercado do Itaú Unibanco, assinado por Alfredo Egydio Setubal, diretor de Relações com Investidores, explica que "a venda ao Grupo La Caixa, atualmente o maior acionista do BPI e instituição com forte presença na Península Ibérica, nos permite ter confiança de que essa operação é a melhor alternativa para a continuidade dos negócios do BPI. Ao longo de 20 anos de associação, o Itaú Unibanco tem desfrutado de excelente relacionamento com a administração do Grupo La Caixa".

Ainda segundo o comunicado, a operação tem impacto positivo de R$ 100 milhões no patrimônio líquido consolidado, e um efeito negativo, não recorrente, de cerca de R$ 200 milhões no lucro líquido contábil. O efeito vai aparecer no balanço do segundo trimestre deste ano.

Sem mencionar o que deixou de ganhar pela oferta desperdiçada em 2007, o comunicado destaca ainda a relevância do BPI para o Itaú Unibanco como base em Portugal para a operação europeia de banco de investimento e voltado ao segmento empresarial. O texto cita o "apoio à atividade cross-border de empresas europeias e latino-americanas, que hoje está consolidada e conta com representantes em Lisboa, Londres, Madri, Frankfurt e Paris".

Procurado pelo Estado, o Itaú Unibanco não se manifestou, indicando que tudo o que tinha a dizer sobre o episódio está no comunicado ao mercado. A operação está condicionada à autorização do Banco de Portugal (banco central).

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