Denise Andrade/ ESTADÃO
Denise Andrade/ ESTADÃO

Ex-presidente do BC e fundador do BBA morre em SP

Além de fundar o banco de investimento, vendido ao Itaú em 2002 por R$ 3 bilhões, Bracher também foi vice-presidente do Bradesco

O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2019 | 16h24
Atualizado 12 de fevereiro de 2019 | 11h04

O banqueiro Fernão Botelho Bracher morreu, na manhã desta segunda-feira, 11, no hospital Albert Einstein, em São Paulo. Ex-presidente do Banco Central e um dos idealizadores do Plano Cruzado, no governo José Sarney, Bracher, que tinha 83 anos, sofreu complicações decorrentes de uma queda. O banqueiro deixa cinco filhos: Candido – atual presidente do Itaú Unibanco –, Beatriz, Eduardo, Elisa e Carlos, além de 15 netos e três bisnetos.

Formado em direito pela Faculdade São Francisco (USP), em 1957, mudou-se em seguida, com sua mulher, a historiadora e psicanalista Sonia Sawaya, para a Alemanha para prosseguir estudos nas faculdades de Freiburg e Heidelberg. Voltou dois anos depois para ser sócio de um dos maiores escritórios do País, o Pinheiro Neto. Em 1961 deixou para trás a carreira de advogado para trilhar sua carreira como executivo de banco.

Foi convidado para ser assistente de diretoria no Banco da Bahia, sendo promovido a diretor da instituição para o setor sul e depois a coordenador da área externa. Em 1973, quando o banco foi incorporado pelo Bradesco, ficou mais um ano na instituição financeira a convite do maior acionista do Bradesco, o banqueiro Amador Aguiar.

Antes de criar o maior banco de investimento do Brasil em 1988, Bracher teve duas importantes passagens pelo governo: foi diretor de câmbio do Banco Central entre 1974 e 1979. Em 1985, foi convidado pelo então presidente José Sarney para presidir o BC em um dos momentos mais turbulentos da economia brasileira: o período da hiperinflação.

Deixou o Banco Central em 1987 – nove dias antes de o País decretar a moratória. Foi a última passagem pelo governo de Bracher, antes de se tornar dono de um dos maiores bancos de investimentos do País. Um ano depois de sair do governo, uniu ao economista André Lara Resende para fundar o BBA em parceria com a instituição financeira Creditanstalt, um dos bancos mais antigos da Áustria.

O BBA virou referência nacional e protagonizou importantes operações de fusões e aquisições do País. No fim de 2002, o BBA foi incorporado pelo Itaú por R$ 3,3 bilhões, criando o Itaú BBA.

Entre abril de 1997 a abril de 1996, Fernão Botelho Bracher foi membro do Conselho Consultivo do Grupo Estado.

O banqueiro recebeu diversas homenagens. Em nota, o BC foi lamentou a morte de Bracher: “Em 11 de janeiro passado, (Bracher) nos honrou e emocionou com sua participação no evento História Contada do BC, no qual relatou sua contribuição nas áreas de desregulamentação do mercado de câmbio, no combate à inflação e na renegociação da dívida externa”, afirmou o BC.

“Fernão Bracher prestou inestimáveis serviços ao Brasil, tanto no Banco Central, quanto nas suas várias atividades no setor privado.”

Reações

André Lara Resende, economista: “Era um homem de espírito público e, mesmo na iniciativa privada, foi sempre um gentleman.”

Luiz Carlos Trabuco Cappi, presidente do conselho de administração do Bradesco: “Bracher contribuiu para o primeiro plano heterodoxo contra a inflação, o Cruzado.”

Alexandre Bertoldi, sócio-gestor do Pinheiro Neto Advogados:  “O BBA tornou-se uma referência para o setor.”

Sergio Rial, presidente do Santander Brasil: “Com sua visão única do mercado, Bracher contribuiu para a construção de um setor sólido e eficiente.”

Um banqueiro de atuação pública

O Brasil quebrou mais uma vez, oficialmente, em 20 de fevereiro de 1987, quando o presidente José Sarney anunciou a suspensão de pagamento dos juros da dívida externa. Nove dias antes o presidente do Banco Central (BC), Fernão Bracher, havia pedido demissão.

“Saí porque queria aumentar os juros e não me deixaram”, explicou anos depois, distante do setor público e bem conhecido como um banqueiro de sucesso. Elevar os juros em fevereiro de 1987 era apenas uma das medidas de bom senso recomendadas para um país como o Brasil, cheio de distorções, com a moeda supervalorizada e as contas externas em frangalhos.

Ao tentar um aperto da política monetária o presidente do BC reagiu, simplesmente, ao fracasso do Plano Cruzado II, implantado no fim do ano anterior. A insistência do chefe de governo em manter a fantasia do controle de preços e de salários, juntamente com uma taxa de câmbio irrealista, conduziria o País a uma nova moratória.

Outra quebra havia ocorrido cinco anos antes, quando uma enorme crise cambial se espalhou por dezenas de países, a partir da moratória do México. O governo brasileiro havia recorrido ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Nem tudo se consertou. Pelo menos as contas externas melhoraram, mas por pouco tempo. A lição havia sido esquecida pelos estrategistas do primeiro governo civil.

Bracher presidiu o BC entre 28 de agosto de 1985 e 11 de fevereiro de 1987, quando Dilson Funaro chefiava o Ministério da Fazenda e conduzia as tentativas de liquidar a inflação com intervenção em preços e salários, mas sem dar a atenção necessária aos problemas fiscais, monetários e cambiais.

O presidente do BC havia passado pela instituição entre 1974 e 1979, como diretor da área externa. Conhecia bem os problemas cambiais, quando assumiu a chefia da política monetária em 1985, mas só poderia usar plenamente seu conhecimento se confrontasse a política econômica. Em 1985 Bracher participou da reunião anual do FMI em Seul, na Coreia, e destacou-se como um defensor da política brasileira como responsável e digna de confiança. Cumpriu seu papel, mas foi incapaz de evitar o retorno do País ao Fundo, menos de dois anos depois. 

Fernão Bracher foi mais conhecido, no último quarto de século, como banqueiro de sucesso. Em 1988, fundou o BBA, banco de investimentos, em associação com o austríaco Creditanstalt. Com a absorção pelo Itaú, 14 anos depois, criou-se o Itaú BBA. Candido Botelho Bracher, filho de Fernão, hoje preside o Itaú Unibanco. /Rolf Kuntz

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