Já falta gasolina em algumas distribuidoras pelo País

Petrobrás enfrenta dificuldades para atender 100% das cotas prometidas às distribuidoras e acelera importações do combustível

Raquel Landim, de O Estado de S.Paulo,

23 de abril de 2011 | 18h10

A Petrobrás não está conseguindo atender a totalidade das cotas de gasolina acertadas com as distribuidoras. Fontes do setor relatam que estão recebendo 80% a 90% dos volumes do combustível que encomendam à estatal. O problema é maior entre as distribuidoras independentes, que atuavam mais no mercado de etanol. Procurada desde segunda-feira, a Petrobrás não deu entrevista.

"As cotas não estão sendo 100% atendidas dependendo da região do País", confirmou uma fonte de uma distribuidora ao Estado na condição de anonimato. "O problema é que a demanda por gasolina cresceu demais, por causa da alta do etanol, mas no geral a Petrobrás tem se esforçado para não faltar combustível. Até agora os problemas têm sido pontuais e localizados".

A Petrobrás importou emergencialmente 1,5 milhão de barris de gasolina para atender a demanda extra. Cosan e Coopersucar também trouxeram 138 milhões de litros de etanol anidro, que é misturado à gasolina.

A demanda por gasolina bateu recorde no País, enquanto o consumo de etanol hidratado caiu vertiginosamente. Conforme o Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e Lubrificantes (Sindicom), que representa 75% do mercado, foram consumidos 2,3 bilhões de litros de gasolina em março.

A entidade projeta novo recorde em abril. Segundo o presidente do Sindicom, Alísio Vaz, a tendência é que o mercado se normalize em maio, com o início da safra da cana e o aumento da produção de etanol.

O preço do litro do etanol hidratado subiu 30,8% este ano e 37% em 12 meses, atingindo R$ 2,359 nas bombas. O consumidor fez as contas e viu que não vale mais a pena abastecer com álcool, que rende 70% da gasolina. Por conta da mistura de 25% de etanol anidro, a gasolina também subiu 7,5% deste o início do ano, para R$ 2,789 - mesmo com a Petrobrás mantendo os preços estáveis para as distribuidoras.

O etanol anidro, que é misturado à gasolina, teve a alta mais expressiva. Desde o início do ano, esse combustível subiu 98,7%, para R$ 2,4727, conforme cálculo do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP.

Prejuízo. A Petrobrás hoje tem prejuízo na venda de gasolina e diesel, porque os preços praticados localmente estão abaixo do mercado internacional. Cálculo do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) aponta que, desde 24 de janeiro, quando os preços do petróleo começaram a subir por causa dos conflitos no Oriente Médio, a estatal já perdeu R$ 1,31 bilhão.

Quando importa gasolina mais cara para manter a oferta a preços subsidiados, a perda aumenta. A diretoria da estatal já declarou que precisa aumentar o preço da gasolina, mas foi desmentida pelo governo. A equipe econômica está preocupada com o impacto na inflação, que já ameaça romper a meta estabelecida pelo Comitê de Política Monetária (Copom).

O governo discute reduzir a Cide, imposto que incide sobre os combustíveis, para aliviar o caixa da Petrobrás, mas manter o subsídio ao consumidor. Em anos anteriores, outro remédio utilizado foi reduzir a mistura de etanol na gasolina de 25% para 20%. "Neste ano o governo não adotou essa estratégia porque falta gasolina", disse Adriano Pires, diretor do CBIE.

Dados da Agência Nacional de Petróleo (ANP) mostram que o crescimento da produção de gasolina não tem acompanhado o consumo. Em 2010, a produção de gasolina cresceu 8,8%, enquanto o consumo aumentou 17,4%, graças às vendas recordes de veículos. O crescimento da produção de etanol também não ocorreu no ritmo da demanda.

Alguns fatores prejudicaram a produção de etanol, o que provocou forte alta de preços nos últimos meses. Com a recuperação das cotações do açúcar no mercado externo, os usineiros optaram por reduzir a produção de etanol e transformar a cana em açúcar. Problemas climáticos também reduziram as duas últimas safras de cana.

Antônio de Pádua Rodrigues, diretor técnico da União da Indústria da Cana de Açúcar (Unica), disse que o setor enfrentou ainda um movimento de consolidação desde 2008, quando a crise global abalou as empresas, que estavam endividadas após um ciclo de investimentos. "O Brasil caminha para um problema estrutural. O governo tem de decidir rápido o que quer, porque o crescimento da demanda tem sido maior que a oferta".

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