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No radar dos investidores, a economia vai para o segundo plano

Fabio Alves, O Estado de S.Paulo

14 Dezembro 2016 | 05h00

A virada do ano em 2015 foi um pesadelo para quem comandava o País: na esteira das eleições presidenciais de 2014, uma tempestade política engoliu a economia e fez o investimento e o consumo despencarem. A de 2016, pior ainda: a crise não saiu de férias para o Natal e o réveillon, acelerando o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Em 2017, a volta das festas de fim de ano promete ser conturbada pelo terceiro ano consecutivo: a cadeira de Michel Temer na Presidência da República parece menos robusta a cada dia que passa.

Aliás, parece até que esse roteiro de virada de ano está se tornando uma tradição do presidencialismo de coalizão que marca a democracia brasileira. Mas, ao contrário de 2015 e 2016, o combustível para a turbulência no ano que vem deve vir principalmente da Operação Lava Jato e os próximos capítulos das delações premiadas de executivos da Odebrecht.

O vazamento da delação de Claudio Melo Filho, ex-lobista da empreiteira, causou um terremoto em Brasília, envolvendo vários caciques da política brasileira, entre eles o próprio Temer, além do ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, e o secretário executivo do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), Moreira Franco. E foi apenas a primeira de um total de 77 delações de executivos da Odebrecht.

Por enquanto, o mercado financeiro assumiu uma postura complacente em relação aos últimos episódios da crise política, agarrando-se na aprovação em segundo turno pelo Senado da PEC que limita o crescimento dos gastos públicos à inflação por 20 anos – a chamada PEC do Teto. Todavia, se no início de 2017 o governo Temer voltar ao centro das acusações de corrupção e propina no âmbito da Lava Jato, dificilmente a reforma da Previdência vai avançar na velocidade esperada no Congresso. Mais ainda: um governo demasiadamente fragilizado poderá ser forçado a fazer concessões na proposta original, diluindo o ajuste necessário nas aposentadorias e em outros benefícios previdenciários. E, sem essa reforma controlando o crescimento acelerado dos desembolsos da Previdência, que consomem 40% dos gastos primários no Brasil, a PEC do Teto não se sustenta por muito tempo.

Assim, uma tempestade política no início de 2017 deve enterrar de vez a recuperação da atividade econômica no ano que vem. Na mais recente pesquisa Focus, do Banco Central, a projeção do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2017 foi reduzida pela oitava semana consecutiva. Agora, espera-se uma expansão de apenas 0,70%. Há, inclusive, economistas já prevendo nova retração do PIB no ano que vem.

A equipe econômica – liderada pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles – vem tentando reagir, preparando um pacote de medidas para estimular a economia, como o Programa de Sustentação ao Emprego (PSE), com investimento previsto de R$ 1,35 bilhão para a manutenção de 200 mil postos de trabalho em quatro anos. De sua parte, o presidente do BC, Ilan Goldfajn, não perde nenhuma oportunidade para alardear que os juros vão cair, num aparente esforço para animar investidores, consumidores e empresários.

De nada adianta injeção de recursos – como fazia Dilma em momentos de desespero – ou redução de juros se empresários e consumidores temerem uma turbulência política de tal magnitude que ponha em risco a governabilidade de Temer. Os principais auxiliares de Temer sobreviverão às denúncias? A Lava Jato forçará uma reforma ministerial no curto prazo? O presidente escapará ileso? O peemedebista chega ao fim do mandato, em 2018? Ninguém sabe responder com absoluta certeza hoje. Assim, como tirar da gaveta os projetos de investimentos sem saber quem estará no comando do País? Como se endividar para fazer uma compra maior, como a de um imóvel ou de um veículo, se o mercado de trabalho seguir piorando?

Os principais indicadores da atividade econômica, como vendas no varejo e produção industrial, não devem reagir enquanto a crise política azedar a confiança dos agentes econômicos. No radar dos investidores, a economia vai para o segundo plano. Mesmo no recesso de fim de ano do Legislativo e do Judiciário, a crise política não deve tirar férias.

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