Tiago Queiroz/ Estadão
Tiago Queiroz/ Estadão

Compra de fintechs por bancos tem corrompido o espírito de inovação

Ideia é se adaptar à mudança dos tempos, e não contê-la – o que seria um exercício tão fútil quanto tapar sol com peneira

Jaime Castromil*, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2022 | 04h00

Desde os anos 2000, as fintechs têm revolucionado o mercado financeiro. Utilizando tecnologia de ponta para gerar soluções inovadoras nos diferentes produtos e serviços, até então ofertados apenas por instituições tradicionais, as fintechs facilitaram a vida das pessoas, trazendo mais rapidez sem perda de segurança.

Elas foram rápidas em identificar que alguns clientes não têm suas necessidades atendidas pelos produtos bancários tradicionais. Assim, as fintechs passaram a oferecer alternativas a esse público e acesso a uma infinidade de produtos, facilidades bancárias não apenas para os chamados desbancarizados, mas para uma geração em transformação.

O que impressiona é o surgimento e amadurecimento das “fintechs de infraestrutura”, que revolucionaram os serviços bancários. Com a premissa de reduzir as funções de serviços financeiros à sua versão mais elementar, elas se tornaram eficientes ao automatizar e remover desperdícios dos processos.

Os bancos sempre trabalharam com o pressuposto de que é mais eficaz apoiar o negócio internamente e construir a infraestrutura em torno de produtos. Hoje, está comprovado que a manutenção dessas infraestruturas internas gera processos ineficientes, que acabam desmontadas para serem recriadas de forma mais funcional e menos custosa.

Os bancos precisaram enxergar as fintechs de uma outra forma e aproveitar a excelente oportunidade de utilizá-las a seu favor. Por exemplo, abandonando estruturas internas burocráticas em prol de fintechs que, além de prestar o mesmo serviço de forma mais célere, têm uma clara agenda de inovação. O resultado, certamente, será um cliente mais satisfeito e uma operação financeiramente mais saudável.

Alguns bancos perceberam essa oportunidade e fizeram movimentos de compra. À primeira vista, a abordagem pareceu interessante para resolver ineficiências e agregar a experiência à cultura interna. Contudo, temos visto que essa ação, muitas vezes, corrompe a natureza da fintech, que tem seus processos estagnados com a perda da independência, destruindo o espírito inovador e a praticidade. O que era para modificar, acaba modificado e perde totalmente o sentido.

É importante que os bancos se modernizem e utilizem a expertise de empresas mais jovens, alinhando suas práticas às necessidades de seus clientes. Mas isso precisa ser feito de forma inteligente e assertiva. Afinal, a ideia é se adaptar à mudança dos tempos, e não contê-la – o que seria um exercício tão fútil quanto tapar sol com peneira. 

* CHIEF OPERATING OFFICER DO DEUTSCHE BANK NO BRASIL

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