Christopher Aluka Berry/Reuters - 4/1/2019
Christopher Aluka Berry/Reuters - 4/1/2019

Saiba quem é Janet Yellen, a escolha de Biden para o Tesouro americano

A ex-presidente do banco central dos Estados Unidos será uma das poucas pessoas a terem ocupado os três principais cargos de governo na área econômica

Jeanna Smialek , The New York Times

24 de novembro de 2020 | 16h31

WASHINGTON - Janet Yellen se tornou economista numa época em que poucas mulheres assumiam essa profissão e um número muito menor chegava a posições de comando num ambiente dominado por homens. Agora, ela será a primeira mulher nomeada secretária do Tesouro e uma das poucas pessoas que já exerceram o comando econômico da Casa Branca, do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) e do gabinete da presidência.

Ela deve ocupar a função num momento em que a reconstrução de uma economia abalada pela pandemia do novo coronavírus e onerada por um alto nível de desemprego constitui um desafio crucial para o governo do presidente eleito Joe Biden.

Embora Janet Yellen não seja o tipo de pessoa radical que alguns mais progressistas esperavam - ela já alertou que os Estados Unidos estão se endividando demais, fato do qual alguns liberais discordam -, ela tem dado uma atenção consistente e cuidadosa às consequências disso para a desigualdade e o mercado de trabalho, mesmo com sua posição provocando uma reação negativa por parte dos membros do Congresso.

Como presidente do Federal Reserve, de 2014 a 2018, as séries de aumentos dos juros foram extremamente baixas quando ela e seus colegas testaram se o nível de desemprego diminuiria ainda mais sem provocar uma alta dos preços. Sua paciência atraiu críticas de economistas preocupados com a inflação na época, mas as políticas adotadas criaram as bases para um mercado de trabalho forte e uma expansão recorde que levou o desemprego ao seu patamar mais baixo em 50 anos, antes de a pandemia virar tudo de ponta cabeça.

A senadora Elizabeth Warren, de Massachusetts, uma das figuras democratas mais influentes no Congresso, escreveu no Twitter que Janet “será uma escolha excepcional para a secretaria do Tesouro”.

Mas ela terá um grande desafio: como secretária do Tesouro, estará na linha de frente do enfrentamento das consequências econômicas geradas por uma pandemia que continua a infligir danos. Embora a economia venha se recuperando para chegar aos níveis anteriores ao novo coronavírus, os lockdowns e as infecções que vêm aumentando têm levado os governos locais a restringirem novamente a atividade econômica, o que provavelmente deve reduzir a velocidade da recuperação.

Janet Yellen defende continuar com o apoio do governo para trabalhadores e empresas, alertando publicamente que, se não houver uma ajuda dos governos locais e estaduais, a recuperação será mais lenta, como ocorreu após a crise de 2008, no período em que ela presidiu o Federal Reserve.

“Enquanto a pandemia continuar afetando gravemente a economia, precisamos continuar com o apoio fiscal extraordinário”, disse ela em entrevista à Bloomberg Television em outubro. E qualificou o suporte fiscal dado no início da crise como “extremamente impactante”, mas observou que as disposições que eram chave agora expiraram.

Ao contrário da independência do Fed, como secretária do Tesouro ela assumirá uma função muito mais política, que provavelmente exigirá negociações com um Senado controlado pelos republicanos. Como Biden provavelmente insistirá na ajuda econômica adicional, ela será crucial para negociar um pacote de estímulos num Congresso politicamente dividido, que até agora não autorizou uma nova rodada de ajuda.

Primeira mulher no comando do Tesouro americano

Janet Yellen será a primeira mulher a assumir uma função dominada por homens brancos - como Alexander Hamilton - nos seus 231 anos de história e a ter ocupado os três principais cargos de governo na área econômica, incluindo a direção do Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca durante o governo de Bill Clinton.

Antiga acadêmica que deu aulas na universidade da Califórnia, em Berkeley, ela foi presidente do Federal Reserve Bank de San Francisco, ex-governadora do Fed e sua vice-chairman antes de se tornar a primeira mulher a presidir a instituição.

Disse que gostaria de ser renomeada quando seu mandato como chairman do Fed terminasse em 2018. Mas o presidente Donald Trump foi contra sua indicação.

Ao substituí-la, Trump quebrou um precedente. Os três titulares anteriores foram reconduzidos ao cargo pelos presidentes que eram de partido político oposto. Mas Trump escolheu Jerome Powell, o atual chairman, com quem Janet poderá em breve estar trabalhando diretamente como secretária do Tesouro. Os dois ainda conversam e ela tem elogiado o desempenho de Powell no Fed, sugerindo que eles manteriam um bom relacionamento.

Nascida no Brooklyn, Nova York, em 1946, ela cresceu em Bay Ridge, um bairro de classe média à margem de Staten Island. Sua mãe era uma professora que parou de trabalhar para educar os filhos. Seu pai era médico. Ela concluiu seus estudos secundários com louvor e foi editora do jornal da sua escola. Cursou depois a Brown University e fez seu doutorado em Yale. Numa entrevista em 2013 com Simon Bowmaker, professor de economia na universidade de Nova York, ela expôs a ele suas razões para se tornar economista, dizendo que sempre gostou do rigor da matemática, mas a economia oferecia algo mais.

“Preocupo-me com pessoas e descobri que a economia tem uma enorme relevância para nossas vidas e o potencial para tornar o mundo um lugar melhor”, disse.

Influência para autoridades do Fed

Janet conheceu seu marido, George A. Akerlof, economista laureado com um Nobel, quando trabalhava com pesquisa no Fed, em 1977.

Ela passou seus anos após o seu período no Fed na Brookings Institution, ocupando um cargo próximo de Ben Bernanke, que a precedeu na presidência do banco central americano, e outras autoridades da instituição.

Janet Yellen é uma economista keynesiana, o que significa que ela acredita que os mercados têm imperfeições e às vezes necessitam ser redirecionados ou reativados pela intervenção do governo.

E influenciou muito autoridades em cargos de liderança no Fed. John C. Williams, que trabalhou para ela em San Francisco, hoje preside o Federal Reserve Bank of New York. Mary C. Daily, que dirige o Fed de San Francisco, cita Janet como sua principal mentora.

Henry Paulson, que foi secretário do Tesouro no governo do presidente George W. Bush, elogiou a sua indicação. Disse que ela “terá um trabalho duro à frente, mas tem experiência, talento, credibilidade e um relacionamento com membros do Congresso dos dois partidos para fazer uma real diferença”.

Embora outros candidatos ao cargo também tenham uma ampla experiência em política fiscal e monetária, Janet está bem colocada para ter seu nome ratificado pelo Senado, mesmo no controle dos republicanos.

Mas, sob muitos aspectos, esses conflitos sugerem o quanto Washington mudou nos últimos cinco anos. As autoridades do Fed agora falam regularmente sobre desigualdade e não enfrentam nenhuma oposição. O banco central baixou medidas políticas muito similares à abordagem de Janet no tocante à determinação das taxas de juros, que, espera-se, irão fomentar um crescimento mais inclusivo.

“Parece uma mudança muito sutil para muitos seres humanos normais”, disse Janet Yellen sobre as medidas adotadas. “Grande parte da história do Fed gira em torno do controle da inflação. Isso realmente reflete um reconhecimento decisivo de que estamos num contexto muito diferente”, afirmou. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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