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Japão adota política do 'vai ou racha' contra crise

Cinco anos depois de renunciar,o conservador Abe voltou ao poder com planos ousados para recuperar a economia e para desafiar a vizinha China

Denise Chrispim Marin, enviada especial de O Estado de S.Paulo,

19 de abril de 2014 | 18h23

TÓQUIO - Shinzo Abe tornou-se mundialmente conhecido por adotar uma política econômica na linha do "vai ou racha" para tirar o Japão da rotina inercial de crescimento baixo e deflação. Dentro do país, é um exemplo vivo de fênix política. Há sete anos, Abe renunciou ao cargo de primeiro-ministro, depois de apenas 366 dias de governo, com a economia do país e a própria saúde em frangalhos. Em 2012, voltou à arena em disputa por um cadeira no Congresso, foi escolhido como líder do opositor Partido Democrata Liberal e, em dezembro daquele ano, reassumiu o posto de primeiro-ministro trazendo consigo um plano econômico ousado, que correu o mundo sob a alcunha de Abenomics.

Abe sucedeu uma série de quatro primeiros-ministros que não duraram no cargo mais tempo do que seu primeiro mandato. Voltou com a ambição de permanecer pelo menos por quatro anos no poder. Não se curou completamente da colite ulcerosa porque não há remédio definitivo para essa doença autoimune, causadora de dores agudas e desencadeada muitas vezes pelo estresse. Ao deixar o governo, em setembro de 2007, Abe foi imediatamente hospitalizado. Passou uma semana tomando apenas suco de cenoura, uma receita doméstica de cura, e manteve suas partidas de golfe. Dois anos depois, foi um dos pacientes beneficiados pela comercialização, no seu país, de um medicamento inovador.

Os cinco anos longe do governo foram empregados por Abe no resgate da simpatia do eleitorado de seu distrito natal, Yamaguchi, no Sul do Japão. Fez ginástica com idosos nos parques, visitou eleitores em suas casas, estudou macroeconomia com mestres como Koichi Hamada, Yoichi Takahasi e Etsuro Honda e debateu com o grupo conservador, o Criar o Japão. Ao final, concluiu ser necessária a elevação drástica da liquidez pelo Banco do Japão para estimular o consumo e as exportações e, por consequência, a produção.

O tsunami e o colapso da usina nuclear em Fukushima, em março de 2011, pioraram a situação econômica do Japão, ainda fragilizado pela crise financeira global de 2008. Abe ressurgiu na arena política em 2012 com o bordão "O Japão está de volta", a síntese de sua agenda ambiciosa para resgatar a autoestima japonesa e de sua teoria das três flechas para colocar a economia nos eixos – pacote de estímulo, afrouxo monetário e reformas. Sua popularidade alcançou 68% e, pela primeira vez em anos, um programa de governo despertou simpatia d o Keidanren, a Federação Empresarial do Japão.

"O primeiro-ministro Abe é um realista", afirmou Takahiro Sekido, economista-chefe do Bank of Tokyo-Mitsubishi. "Não tem muito carisma, mas teve muita sorte", disse Kazuhito Yamashita, do Canon Institute for Global Studies, de Tóquio.

Abe também incentiva a rivalidade com a China em questões geopolíticas e históricas. Tradicionalista, o primeiro-ministro é um inconformado com a submissão total do país aos Estados Unidos após a Segunda Guerra. Seu avô materno, Nobusuke Kishi, compôs o gabinete ministerial durante a guerra e, depois do conflito, negociou o acordo pelo qual os EUA ainda hoje se responsabilizam pela defesa do país. Nos anos 30, Kishi comandara a invasão japonesa na Mandchúria, China, palco de massacres.

Abe não quer mudar os termos desse acordo com os EUA, mas o artigo da "Constituição pacifista" restringe a ação das Forças Armadas japonesas estritamente à autodefesa. Como a emenda ao texto constitucional é improvável, Abe testa os seus limites como primeiro-ministro: quer que sua interpretação, favorável a ataques preventivos e à defesa dos aliados do Japão, prevaleça.

No seu primeiro mandato, chegou a questionar a veracidade de crimes cometidos pelas tropas japonesas durante o conflito, como o rapto de mulheres para fins de escravidão sexual na Coreia e na China. No segundo mandato, não tocou diretamente na questão, mas emitiu sinais conservadores bem entendidos mundo afora. Em dezembro passado, Abe visitou o santuário Yasukuni, em Tóquio, onde estão gravados os nomes de todos os combatentes japoneses desde 1968, quando começou o reinado do imperador Meiji. Da lista constam 14 criminosos da Segunda Guerra. A última vez que um primeiro-ministro – Junichiro Koizumi – ousara visitar o santuário, a China e as Coreias protestaram. Não fizeram diferente desta vez.

A estratégia de irritar a China não parou por aí. Duas autoridades da NHK designadas por Abe negaram publicamente ter havido escravidão de mulheres pelas tropas japonesas. Em janeiro, durante visita à África, terreno de investimento e influência da China na última década, Abe prometeu US$ 320 milhões em assistência aos países do continente devastados por conflitos e desastres naturais. Dias depois, no Fórum Mundial de Davos, Abe acusou a China de promover uma "expansão militar na Ásia". / D.C.M.

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