‘Japão precisa de novo estímulo monetário’

Conselheiro de Shinzo Abe espera a medida para o início de maio ou de agosto e a reativação de usinas elétricas nucleares

Denise Chrispim Marin, enviada especial a Tóquio,

13 de fevereiro de 2014 | 21h33

O sucesso da política econômica do primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, dependerá de maior agressividade do próprio governo e do Banco do Japão. Considerado o braço direito de Abe no governo, o economista Etsuro Honda, prevê o anúncio de uma nova rodada de ajuste quantitativo no início de maio ou de agosto, como meio necessário para neutralizar o impacto severo do aumento do imposto sobre consumo na atividade a partir de abril. 

Em entrevista ao Estado, o conselheiro especial do gabinete de Abe antecipou ser inevitável a reativação das usinas nucleares comprovadamente seguras a partir de meados deste ano.  O governo tenderá ainda, em sua opinião, a suspender a segunda etapa de aumento desse mesmo tributo, prevista para abril de 2015, e promover uma gradual redução mais robusta no imposto sobre o lucro das empresarias, para nivelar a alíquota efetiva com as aplicadas pela França e Alemanha.

Honda insistiu ser a Abenomics uma política voltada para mudar a mentalidade do empresariado, apegado ao ambiente de baixo crescimento com deflação vivido pelo Japão nos últimos 15 anos.  Rejeitou, diplomaticamente, a sua avaliação como política de estímulo às exportações, via desvalorização da moeda japonesa, o iene. As duas primeiras "flechas" da Abenomics foram disparadas no ano passado e envolveram a adoção da meta de inflação de 2%, de um primeiro afrouxo quantitativo de US$ 1,4 trilhão e de um pacote de estímulo de US$ 170 bilhões. Nas contas do governo, o Japão, essas medidas resultarão no aumento de 2,6% no Produto Interno Bruto (PIB) do ano fiscal de 2013, a ser encerrado em 31 de março.

Como se explica o período tão longo de deflação e crescimento baixo vivido pelo Japão?

Desde o estouro da bolha imobiliária e do mercado de ações, em 1997, o setor privado japonês tornou-se insolvente, e o comércio doméstico foi afetado pelo clima de incerteza. O índice de custo de vida começou a declinar no ano seguinte, assim como os salários. O Japão passou a viver em um círculo vicioso de queda do consumo, queda da produção e queda nos salários. A mentalidade da indústria e do comércio ficou apegada ao ambiente deflacionário. Muitos países sofreram com a hiperinflação depois da 2ª Guerra Mundial, como o Brasil. O Japão é o único caso clássico de deflação, e seus governos falharam em adotar uma política para romper esse ciclo.

A Abenomics é uma política de crescimento baseada no estímulo ao consumo e aos salários ou, como alegam seus críticos, baseada no aumento das exportações pela via da desvalorização do iene?

O Banco do Japão fixou no ano passado a meta de inflação de 2% e adotou uma política de afrouxo monetário como meio de atingi-la em abril de 2015. A Abenomics, com seus estímulos monetários e fiscais, é o meio de mudar a mentalidade empresarial ainda apegada à deflação. Nos últimos 15 anos, o mercado de trabalho e as instalações industriais não se renovaram. A desvalorização do iene é necessária para alcançarmos a meta de inflação de 2%. Em dezembro de 2013, o índice de preços subiu 1,3%, principalmente por causa da desvalorização cambial. O alvo final do Abenomics é criar um círculo virtuoso de aumento de consumo, de preços e de produção. Quando a inflação alcançar 2%, o PIB potencial vai subir. O PIB real está agora bem acima do PIB potencial, de 0,5%, segundo o Banco do Japão. Para este ano fiscal, que se encerra em março, estimamos crescimento real da economia de 2,6%.

A projeção de crescimento de 2,6% está muito além da estimativa do FMI. Como pode ser factível?

Acho que o Fundo ainda não entendeu bem a Abenomics. Mas o crescimento de 2,6% vem ocorrendo no Japão. Política de combate à deflação é algo muito incomum e nunca antes foi adotada no mundo. O FMI usa um modelo normal para macroeconomia, mas o caso do Japão hoje é excepcional.

O ponto nevrálgico para a Abenomics será convencer as empresas a aumentar os salários?

Isso é essencial. O Keidanren (Federação Empresarial do Japão) está apoiando bastante a Abenomics. As grandes exportadoras estão se beneficiando da depreciação do iene, registrando lucros e mais confortáveis para adotar aumento de salários. No entanto, muitas pequenas empresas ainda enfrentam prejuízos e dificuldades.

Mesmo beneficiadas pelo iene desvalorizado, as grandes companhias japonesas não perderão competitividade com o aumento de salários?

O objetivo da Abenomics é a mudar a mentalidade empresarial, o que está acontecendo de forma lenta. Se as companhias vislumbrarem maiores lucros no futuro, elas vão aumentar os salários. Estamos na época da publicação dos balanços das empresas. As projeções, na sua maioria, apontam lucros expressivos. Portanto, espero que a média de salário aumente na data-base nacional, em 1º de abril. Eu sempre digo aos altos executivos de empresas: se quiserem cuidar bem de seus negócios, cuidem bem de seus empregados japoneses. Pode não ser um pensamento lógico da economia, mas é patriótico. Empresas que vendem seus produtos no mundo todo podem não responder a esse chamado. Mas, se possível, eu gostaria de ver as empresas japonesas aumentarem rapidamente o salário de seus empregados e, gradualmente, os bônus e remunerações variáveis.

Por que aumentar o imposto sobre consumo em abril, se o que o Japão busca é crescimento com inflação?

Não é nada fácil para nós adotar esse aumento. Mas a dívida pública, como parcela do PIB, é muito alta no Japão, de cerca de 240%. Sua redução também é uma prioridade. Essa arrecadação adicional contribuirá para que o déficit primário nas contas públicas de 2015 seja equivalente ao de 2010 (3,2% do PIB). Em 2020, essas contas serão levemente superavitárias (o governo prevê déficit de 1,9%. A decisão de aumentar esse imposto deu-se em meados de 2011, antes do início do governo Abe, com apoio dos três principais partidos políticos. Em abril, o imposto passará de 5% para 8%, e um ano depois, para 10%. Politicamente, seria muito difícil mudar esse primeiro aumento. Mas o segundo passo não foi decidido ainda.

Pode ser adiado ou cancelado?

Temos primeiro de ver os resultados desse primeiro aumento no consumo e na arrecadação até junho. Então, o primeiro-ministro e o ministro de Finanças (Taro Azo) estudarão com muito cuidado o que fazer. O período de julho a setembro será muito crítico, com inevitável queda na no PIB. Em agosto, estará mais claro para o primeiro-ministro se o imposto deve subir para 10% em 2015.

Qual o impacto dessa medida no crescimento do Japão no ano fiscal de 2014?

O impacto será de 1,2 ponto porcentual do PIB, que deverá crescer apenas 1,4% nesse período. Infelizmente, essa medida é necessária. Mas o governo vai tentar minimizar o choque fiscal.

De que forma?

No Japão, apenas 28% das empresas estão recolhendo imposto sobre o lucro. O restante está perdendo dinheiro. Na medida que o cenário de deflação e de depressão mude para o de inflação baixa com crescimento, esse conjunto de 72% das empresas voltará a recolher o imposto. Alguns especialistas calculam um aumento de 4% na arrecadação, o que me parece muito alto. O ministro das Finanças, muito cauteloso, estima elevação de 1,1%. Eu acredito que o aumento será de 2,5% a 3,0%.

 

Mas o governo prepara a redução do imposto sobre o lucro das empresas em março, apesar de elas ainda não terem se disposto a aumentar salários e investimentos no Japão.

Exatamente. O próximo passo será a discussão sobre a estratégia de crescimento. Entre os principais elementos estão a reforma regulatória, para motivar a competição, e a redução do imposto efetivo pago pelas empresas. Atualmente, as empresas recolhem 38% sobre o lucro, combinando os impostos nacional e locais. A redução para 35% estava programada para março de 2015, mas o primeiro-ministro Abe decidiu antecipá-la para março deste ano. Abe é favorável também à redução gradual desse imposto para o nível de países da OCDE, como França e Alemanha, de 28% a 29%. O Keidanren (Eederação Empresarial do Japão) quer 25%, o que seria demais. Taro Azo é contrário. Não seria uma boa ideia baixar esses impostos agora. Devemos esperar o próximo ano ou o seguinte.

Mais uma rodada de afrouxo quantitativo será necessária neste ano para revigorar a economia? Muitos economistas a esperam em abril.

Os economistas mais agressivos defendem um novo afrouxo quantitativo em março, antes do aumento do imposto sobre o consumo. Não acredito ser possível porque os consumidores já estão se precavendo e comprando bens de consumo duráveis, o que elevará a taxa de crescimento da economia. A partir do início de abril, o PIB inevitavelmente cairá. O aumento de três pontos porcentuais no imposto sobre o consumo não tem precedentes. Na Europa, houve aumento, mas esse imposto incidia com alíquotas diferentes sobre os diferentes grupos de produtos. No Japão, o imposto é linear, e seu impacto será mais pesado. Se o PIB real cair mais do que eu espero, o Banco Japão deve começar o afrouxo em abril. Se for mais cauteloso, esperará as estatísticas do PIB real do segundo trimestre, que sairá em agosto, mas pode ser tarde demais. Esse é o dilema. Creio que ocorrerá no início de maio.

Um dos gargalos para o crescimento do Japão está no setor de energia. Todas as 54 usinas nucleares estão fechadas desde a tragédia de Fukushima. O governo vai autorizar a reabertura delas, apesar da oposição política e da sociedade?

Sinto muito, mas será muito necessário reativar as usinas nucleares. Se a abandonarmos, perderemos um imenso potencial econômico. Tivemos de aumentar dramaticamente a importação de petróleo e gás, o que nos custou 3,6 trilhões de ienes ao ano e um amplo déficit comercial. O uso de energia renováveis é importante, assim como o de usinas térmicas. Mas esses recursos não são suficientes. Por isso, teremos de reativar as usinas nucleares comprovadamente seguras. Uma por uma, elas serão examinadas e reativadas a partir de meados deste ano. Não todas, porém.

Que tipo de economia o governo imagina para o Japão em dez anos, levando-se em conta os investimentos empresariais deslocados para o exterior?

Temos de alcançar um equilíbrio entre as atividades das empresas no exterior e dentro do Japão. Com o iene supervalorizado, desde 2008, tornou-se muito difícil para as empresas japonesas exportar seus produtos. Muitas optaram por investir em linhas de montagem em outros países. Isso ocorreu de forma muito rápida. Agora, o retorno ao Japão depende do segmento em que atuam. Produtos que exigem mão de obra intensiva devem ser fabricados fora do Japão. Mas bens com alto valor agregado e alta tecnologia devem ser fabricados aqui.

 Um pontos centrais da Abenomics é encorajar mulheres que abandonaram ou nunca entraram no mercado de trabalho a buscar um emprego. Como fazê-lo?

A população japonesa está diminuindo rapidamente, o que torna crítico o ingresso das mulheres no mercado de trabalho. As japonesas, em geral, são eficientes e bem preparadas, menos tímidas e mais fluentes em inglês que os homens. Elas são as nossas armas secretas. Mas as condições de trabalho, com jornadas longas, são obstáculos. Hoje há filas de espera de um a dois anos nas creches e jardins da infância. O governo terá de abrandar a regulação para que haja mais investimento privado nesse setor. O primeiro -ministro Abe estuda a criação de cotas para mulheres nas diretorias de empresas e de 30% no funcionalismo público.

A taxa de desemprego no Japão é bastante baixa. Por que a Abenomics tem o objetivo de maximizar a geração de empregos?

Neste momento de deflação, a taxa de desemprego de trabalhadores com até 30 anos é de quase 10%, embora a média nacional seja de 3,7%. Não é fácil a um recém-formado encontrar emprego. Mesmo que se empregue, não terá garantia de permanência porque as empresas não estão ainda seguras de sua lucratividade.

A adesão do Japão à Parceria Trans-Pacífico (TPP) foi um meio de pressionar setores relutantes a apoiar as reformas propostas pelo primeiro-ministro Abe, como o agrícola?

O TPP é um tema delicado e controverso. Eu sou cauteloso. A liberalização do comércio será benéfica. Mas, em um acordo com esse, fica difícil preservar o sentido da tradição, dos costumes, do estilo de vida de cada país membro. Será preciso respeitar aspectos exclusivamente nacionais e humanizar as regras finais. Caso contrário, o Japão, Filipinas, Malásia e até o México não vão concordar com o acordo. Um exemplo está nos produtos geneticamente modificados. No Japão, os fornecedores desses produtos têm de informar os consumidores sobre o que estão comprando. Nos EUA não há tal obrigação, graças ao lobby de empresas como a Monsanto, a Cargill e a DuPont.

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