
07 de junho de 2012 | 04h21
Ronan Sato, formado em estatística aplicada em Oxford, sempre ansiou por trabalhar no Japão, onde nasceu. Mas, numa feira de empregos para estudantes japoneses no exterior, ele verificou que o Japão corporativo não correspondia ao seu entusiasmo. Em encontros com empresas financeiras japonesas no fórum em Boston, em novembro, nenhuma lhe ofereceu um emprego sem que ele se submetesse antes a entrevistas em Tóquio.
Assim, Ronan Sato, que recebeu na hora três propostas de empresas não japonesas, aceitou um cargo em Tóquio num grande banco britânico. "Eu queria ter alguma experiência numa companhia japonesa, mas eles são muito cautelosos", disse. "As firmas japonesas realmente procuram talentos globais? Parece-me que não estão seriamente interessadas."
O Japão corporativo é conhecido por seu isolamento e sempre foi cauteloso em admitir compatriotas educados no Ocidente que voltam para seu país. Mas analistas dizem que essa relutância está se tornando um problema crescente para o Japão, à medida que alguns dos seus grandes setores perdem espaço numa economia global.
Desestimulados pelas suas poucas perspectivas de carreira quando estudam no exterior, mesmo em universidades de elite, um número cada vez menor de estudantes japoneses está procurando estudar em universidades estrangeiras. Ao mesmo tempo, concorrentes regionais do Japão, como China, Coreia do Sul e Índia, estão enviando números sempre maiores de estudantes para fora - muitos deles, quando formados, são arrebatados pelas empresas do seu país por causa de suas habilidades, contatos e visão global.
"As empresas japonesas estão perdendo a oportunidade de conseguir os melhores talentos estrangeiros, e é um erro delas", disse Toshihiko Irisumi, que se formou na Booth School of Business da Universidade de Chicago e é um ex-executivo do Goldman Sachs. Ele dirige a Alpha Leaders, empresa de consultoria com sede em Tóquio que ajuda jovens talentos a contatar empresas empregadoras no Japão. "Eles de fato têm de mudar essa mentalidade."
Desconfiança. Estudantes educados no Ocidente disseram à reportagem terem sido tratados com desconfiança por recrutadores japoneses, que se referiam a eles como "acima da especificação", ou seja, muito elitistas para se adaptarem, muito ávidos para progredir e com boa probabilidade de serem roubados rapidamente por outra empresa.
Além disso, os estudantes japoneses que se formam no exterior com frequência descobrem, quando vão à caça de emprego em seu país, que estão muito atrás dos seus compatriotas, que já contataram 100 empresas e receberam ajuda de amplas redes de alunos.
Numa pesquisa feita com mil empresas japonesas, em junho passado, sobre seus planos de recrutamento de pessoal para o ano fiscal de março de 2012 pela empresa Disco, com sede em Tóquio, menos de um quarto delas disse que planejava contratar candidatos japoneses que tivessem se formado fora. Mesmo entre as grande empresas, com mais de mil funcionários, menos de 40% disseram que pretendiam contratar jovens japoneses formados no exterior.
Essa atitude ajuda a explicar porque, mesmo com o número de japoneses matriculados em faculdades se mantendo em torno de três milhões nos últimos anos, o número dos que estão estudando fora caiu de um pico de quase 83 mil em 2004 para menos de 60 mil em 2009 - últimos dados disponíveis da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Sob alguns aspectos, essa desconsideração para com os jovens japoneses que estudam no exterior testemunha também a força das suas próprias universidades, vistas no geral como muito melhores do que as melhores escolas americanas e europeias, apesar do desempenho medíocre em vários rankings globais.
No ano passado, 21.290 estudantes japoneses se matricularam nas universidades americanas, menos da metade do número observado há uma década. No ano passado, as universidades americanas registraram 73.550 estudantes da Coreia do Sul, que tem menos da metade da população do Japão.
"Existe uma percepção de que a competitividade japonesa está caindo e precisamos de mais mão de obra global", afirmou Kazunori Masugo, chefe da Senri International School. As aulas na escola são dadas quase todas em inglês e anualmente ela envia muitos alunos para faculdades europeias e americanas. "Mas o ambiente no Japão é tal que, se você vai estudar no exterior, precisa estar preparado para seguir sua própria rota, encontrar seu próprio caminho", disse. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
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