JBS acusa sócia de alterar origem de carne

Briga judicial. Gigante brasileira afirma que a italiana Cremonini, sócia na operação Inalca JBS, não apresenta documentos relativos ao balanço da companhia, na qual tem 50% de participação; grupo já considera a possibilidade de dissolver a sociedade

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2010 | 00h00

A disputa entre o grupo brasileiro JBS e o sócio de sua operação na Itália, a Cremonini, agora inclui acusações de "maquiagem" de origem da carne. Segundo o presidente do Conselho da joint venture Inalca JBS, Marco Bicchieri, documentos mostrariam que a Cremonini teria vendido gado criado na França e na Irlanda como italiano para obter vantagens comerciais. Ele diz que o caso foi encaminhado à Justiça da Itália em agosto.

O caso é mais um capítulo em uma relação conturbada: o JBS diz que, desde que comprou 50% da operação da Inalca, há quase três anos, não consegue acesso a documentos que comprovem a veracidade dos dados apresentados no balanço. O conflito já se transformou em disputas travadas na Justiça italiana e também em órgãos internacionais. O JBS já considera dissolver a sociedade com a Cremonini. Além de mais acesso a informações financeiras, o grupo exige também a demissão dos dois atuais principais executivos da Inalca.

De acordo com o JBS, o acordo inicial previa que os executivos da área de finanças seriam indicados pelo sócio brasileiro. Mas os três executivos que chegaram à diretoria financeira pelas mãos do JBS permaneceram pouco tempo no cargo: um foi demitido, outro pediu para sair e o terceiro teve de deixar a Itália porque não teve o visto renovado - segundo o JBS, a Cremonini não providenciou o documento.

Segundo o JBS, os números relativos ao Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) mostram uma evolução anômala do resultado, quando se considera a difícil situação atual do mercado europeu: no primeiro semestre de 2009, o Ebitda da Inalca JBS ficou em 24,4 milhões; em igual período deste ano, saltou para 48 milhões. Bicchieri explica que, dependendo do resultado anual, o negócio pode receber um bônus de 65 milhões do JBS. "O pagamento não é questionado. Mas a gente quer ter conhecimento de como o balanço é apurado. Faz três anos que estamos pedindo isso", diz.

A dificuldade de acesso a informações sobre a saúde financeira do negócio fez o grupo JBS retirar a Inalca do balanço do segundo trimestre. O diretor de relações com investidores da empresa, Jeremiah O"Callaghan, afirma que há um desconforto com o "desequilíbrio das informações". Se a questão não for resolvida até o fim do mês, afirma ele, a Inalca JBS deverá ser eliminada dos resultados do terceiro trimestre de 2010.

Contra-ataque. Enquanto o grupo brasileiro reclama da falta de informações sobre as finanças da companhia, a Cremonini conseguiu autorização judicial para destituir os três membros do Conselho de Administração indicados pelo JBS - neste processo, alguns executivos teriam sido proibidos de entrar na sede da empresa. Segundo Bicchieri, um juiz italiano acatou os argumentos da Cremonini, e a parte brasileira tenta agora reverter a situação.

Além disso, a Cremonini divulgou nota ontem afirmando que houve acesso não autorizado ao sistema de informática da empresa - e que evidências apontariam que a ação foi obra de trabalhadores brasileiros na empresa. No Brasil, o presidente do Conselho da Inalca JBS diz que, caso o problema realmente exista, ele deve ser apurado.

PARA ENTENDER

Operação se estende à África e à Rússia

A operação Inalca JBS representa atualmente 2,8% das operações mundiais do gigante brasileiro JBS: considerado o faturamento de pouco mais de R$ 30 bilhões do grupo no ano passado, o braço italiano da operação representaria cerca de R$ 850 milhões em receita para o conglomerado.

A empresa mantida em parceria com a Cremonini inclui três unidades de abate, uma fábrica de embutidos e outra de enlatados na Itália, onde também estão localizados um centro de distribuição e uma unidade de confinamento.

Além disso, a companhia distribui carne para dois mercados africanos - Argélia e Angola - e mantém uma plataforma de comercialização e uma unidade de produção de hambúrgueres na Rússia. A Inalca JBS tem hoje uma equipe de cerca de 1,4 mil funcionários, de acordo com Marco Bicchieri, presidente do Conselho de Administração.

Em dezembro de 2007, o grupo JBS, além de pagar 225 milhões pela fatia de 50% do negócio, informa também ter assumido uma dívida estimada em 300 milhões. A operação da Inalca era vista como uma porta de acesso do gigante nacional para o mercado europeu.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.