Ueslei Marcelino/Reuters
Ueslei Marcelino/Reuters

JBS vai ampliar controle na Amazônia para evitar compra de gado de fazendas com passivo ambiental

Com nova tecnologia, companhia pretende monitorar todos os elos da cadeia e não apenas as propriedades que fornecem os animais para abate, como já é feito

Tânia Rabello, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2020 | 14h57
Atualizado 11 de outubro de 2020 | 20h01

A JBS vai utilizar tecnologia blockchain para fazer um amplo monitoramento, na Amazônia, da cadeia fornecedora de bovinos da companhia. Dessa forma, em vez de acompanhar de perto - como faz desde 2009 - apenas as fazendas que lhe entregam bovinos para abate, pretende estender o controle a todos os elos da cadeia. Ou seja, vai monitorar também fazendas que criam bezerros e bois magros, chamadas de propriedades de "cria" e "recria", e todas as suas variantes, ou os "fornecedores indiretos".

Mesmo que complexa, a fiscalização de todos os elos da cadeia pecuária - há fazendas só de cria; outras de cria e recria; as de ciclo completo e aquelas que só engordam o gado magro - é importante para garantir que os animais da ponta final, abatidos no frigorífico, não tenham passado, em algum momento da vida, por propriedades com passivo ambiental ou trabalhista. No caso, áreas desmatadas ilegalmente, embargadas pelo Ibama, áreas de conservação, terras indígenas ou fazendas que utilizem trabalho análogo à escravidão.

Ao Broadcast Agro, o CEO global da JBS, Gilberto Tomazoni, explica que a "Plataforma Verde JBS" permitirá que a empresa monitore também todos os fornecedores indiretos que se relacionam, de uma forma ou de outra, com aqueles que vão de fato entregar o boi para abate, garantindo, nesse processo, o sigilo total das informações por intermédio da tecnologia blockchain - conhecida justamente por essa segurança. "O trabalho será auditado e seus resultados reportados no relatório anual de sustentabilidade", assegura.

Essa e outras iniciativas ligadas à preservação da Amazônia e inclusão social fazem parte do programa Juntos pela Amazônia, que a JBS apresentou nesta quarta-feira, 23. O Juntos pela Amazônia, descreve a companhia, é um conjunto de estratégias com visão de longo prazo que visam a aumentar a conservação e o desenvolvimento do bioma, engajando o setor e propondo ações para além da cadeia de valor.

Ainda sobre os bovinos na Amazônia, Tomazoni acrescenta que "a JBS já tem um sistema de monitoramento robusto e abrangente". Ele acrescenta que a empresa acompanha de perto, dentro da "Política de Compra Responsável de Matéria-Prima da JBS", as fazendas fornecedoras de gado, que somam 45 milhões de hectares só na Amazônia.

"Temos uma base de 50 mil pecuaristas em compliance conosco na região", continua ele, acrescentando que esse programa já conseguiu, por exemplo, detectar e excluir 9 mil propriedades que não estavam em conformidade com regras ambientais e sociais. "É um sistema que funciona, é eficiente, mas que não monitorava o fornecedor indireto de gado, em razão do desafio tecnológico que isso impunha."

Agora, com o blockchain - tecnologia surgida com as criptomoedas -, a Plataforma Verde JBS conseguirá inserir dados também dos fornecedores indiretos na cadeia produtiva. "Ela vai buscar informações do fornecedor do nosso fornecedor, cruzando as informações com listas do Ibama e de análises geoespaciais", relata Tomazoni. "Isso permitirá 100% do controle da cadeia de fornecedores até 2025."

O diretor de Sustentabilidade da JBS, Márcio Nappo, diz ao Broadcast Agro que a companhia necessitará da parceria dos pecuaristas nessa empreitada. "Vamos solicitar a autorização deles para acessar suas Guias de Trânsito Animal (GTAs) e ver a origem dos animais", explica o executivo.

Desde meados de 2019, o acesso às GTAs - documento obrigatório no trânsito de qualquer animal vivo no País - é sigiloso, por lei. "As GTAs não são públicas", confirma Nappo. "São um instrumento de controle sanitário feito pelo Ministério da Agricultura."

Por isso, para obter as informações a respeito dos caminhos - e fazendas - percorridos pelos animais comercializados ao longo de todas as etapas até chegar ao abate e alimentar a Plataforma Verde JBS, Nappo explica que a JBS pretende fazer "uma grande estratégia de engajamento" à plataforma. "A partir daí, ela vai chegar também ao fornecedor indireto." E, então, verificar se há ou não ilegalidades ambientais ou sociais nessas fazendas. "É importante ficar claro para os pecuaristas qual é a informação que vamos buscar; é basicamente saber quem é o fornecedor dos nossos fornecedores", diz Nappo, lembrando, ainda, que o sigilo também é garantido pela Lei Geral de Proteção de Dados, que entrou em vigor recentemente.

Um passo além, quando a Plataforma Verde JBS já estiver funcionando, é tornar essa tecnologia pública e disponível para todos os interessados, diz Tomazoni. "Queremos que todo mundo trabalhe com o mesmo padrão da JBS nesse quesito, incluindo outros frigoríficos", continua. "Vamos tornar disponível o sistema e toda a inteligência desenvolvida para produtores, instituições financeiras e outras empresas que desejarem adotar esses critérios socioambientais em suas cadeias de valor."

Nappo acrescenta: "Teremos condições de verificar todo e qualquer fornecedor; qualquer problema ambiental ou fundiário vai ser capturado pela plataforma". Ao tornar a tecnologia disponível, Tomazoni adiciona que ela, "representará uma solução para todo o setor de carne que opera na Amazônia".

A projeção é de que o sistema esteja 100% operante em 2025, mas já em 2020 começará a trabalhar. "Até dezembro vamos finalizar a plataforma blockchain e comunicar a toda a cadeia produtiva", descreve o diretor de Sustentabilidade da JBS.

Nappo informa que há dois anos a tecnologia está em construção na companhia. "Inicialmente a plataforma será estendida aos fornecedores diretos de gado para a JBS, depois para os indiretos.

Assim, a partir de 2021, a fase 2 do projeto, "que será o grande piloto da plataforma", terá início em Mato Grosso. "Vamos engajar os fornecedores e rodar a plataforma com as informações fornecidas por eles", adianta Nappo. "A ideia é fazer todo o desenvolvimento em Mato Grosso e depois para os outros Estados do bioma Amazônia, até que, em 2025, passará a ser uma condicionante comercial do nosso negócio."

O executivo garante que a Plataforma Verde JBS poderá ser utilizada por outros players do setor pecuário de operam na Amazônia, "independentemente de eles serem concorrentes da JBS ou não".

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