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“Je ne regrette rien”

Vale também refletir bastante sobre as promessas deturpadas dos populismos de qualquer vertente ideológica

Monica de Bolle*, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2017 | 05h00

“Não, não lamento nada” na voz da magistral Edith Piaf é a catarse que o mundo precisava com a eleição de Emmanuel Macron na França. “Nada lamento” é tudo o que os defensores do Brexit e das idiossincrasias Trumpistas não poderão dizer muito em breve. No caso do Reino Unido porque a eleição contundente de um líder pró-União Europeia na França, país que forjou a ideia de uma Europa aberta e unificada depois da segunda guerra mundial, tornará o divórcio tão complicado quando se imaginara. Nos EUA porque a promessa aparentemente sincera de Macron de defender a parte da população que se sente marginalizada e excluída servirá de contraste às investidas de Trump contra homens e mulheres “esquecidos” que prometera resguardar.

O novo presidente da França assume o cargo em menos de uma semana. Pela frente, terá as eleições parlamentares em junho. É cedo para prognosticar, mas tudo indica que seu novo partido tem grandes chances de ocupar boa parte da nova assembleia legislativa, ou de construir sólidas coalizões. O fenômeno Macron ainda será esmiuçado e estudado à exaustão, mas algo já é certo: em mundo marcado por rejeição aos partidos políticos tradicionais, ele mostrou que é possível renovar sem bagagem, sem populismos e nacionalismos, sem hipérboles e falta de racionalidade. Tal lição é fundamental não apenas para os eleitores frustrados com o retrocesso do Brexit e de Donald Trump, mas também para aqueles que enfrentarão as urnas nos próximos meses. A lição é particularmente importante para o Brasil, onde o velho tenta travestir-se de novo. O novo não nasce dos extremos, pois os extremos, antiquados são. O novo nasce do centro, e é esse o desafio brasileiro: encontrar um Macron não maculado pela corrupção endêmica. Mas, esse não é um artigo sobre o campo aberto da política brasileira.

As vitórias de Macron na França e de Angela Merkel nas eleições regionais de Schleswig-Holstein no último fim de semana aumentam as chances de que a aliança franco-alemã saia fortalecida das eleições de setembro na Alemanha. A aliança Markel (Macron-Merkel) é vista como fundamental para dar solidez a uma União Europeia combalida após oito anos de crise. A aliança Markel também jogaria balde de água fria nas palavras otimistas de Theresa May, que em breve tentará conquistar o mandato para negociar a saída da UE nas eleições marcadas para junho. Theresa May vem insistindo na necessidade de iniciar as negociações pelo lado comercial, isto é, pela elaboração dos novos acordos entre o Reino Unido e os 27 membros da UE para o intercâmbio de bens e serviços. A UE, por sua vez, quer antes de mais nada, definir o que acontecerá com a imigração entre a Grã-Bretanha e a Europa, ao mesmo tempo em que insiste em ser ressarcida pelos compromissos assumidos pelo Reino Unido – a tal conta do divórcio cujo saldo pode variar entre 40 e 100 bilhões de euros. O fortalecimento da UE com os resultados das eleições na França e na Alemanha fragilizam a posição de Theresa May.

Do outro lado do Atlântico, a eleição de Macron expõe as mais recentes investidas de Trump contra seus eleitores. A última foi a aprovação do Trumpcare pela Câmara, a reforma de saúde que pretende substituir o Obamacare. A proposta ainda terá de passar pelo Senado, onde provavelmente sofrerá alterações significativas. De todo modo, a proposta recém-aprovada tem o potencial de deixar indivíduos com doenças preexistentes desassistidos, além de aumentar o custo dos planos para os mais velhos e mais vulneráveis. Ou seja, o Trumpcare pode vir a fazer exatamente o que o candidato Trump prometeu não fazer: tornar a vida dos homens e mulheres “esquecidos” ainda mais difícil. Caso a proposta prospere, o estrago será grande e o arrependimento custará caro ao Partido Republicano.

Nesse momento em que o Brasil começa a se movimentar para as eleições de 2018 em meio à barbárie da corrupção, dos Estados quebrados, da violência, da queda da qualidade de vida apesar do tombo da inflação, vale refletir sobre a França. Vale também refletir bastante sobre as promessas deturpadas dos populismos de qualquer vertente ideológica. Afinal, o Brasil ainda não teve a chance de dizer para si: “non, je ne regrette rien”.

ECONOMISTA, PESQUISADORA DO PETERSON INSTITUTE FOR INTERNATIONAL ECONOMICS E PROFESSORA DA SAIS/JOHNS HOPKINS UNIVERSITY

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