Yannis Behrakis/Reuters
Yannis Behrakis/Reuters

Jeffrey Sachs defende 'não' em plebiscito e alívio para dívida da Grécia

Para o economista, os alemães levaram os gregos esta semana a um colapso financeiro completo para forçar o pagamento das dívidas

Álvaro Campos, O Estado de S. Paulo

03 de julho de 2015 | 14h02

SÃO PAULO - O famoso economista Jeffrey Sachs, diretor do Earth Institute da Universidade Columbia, defende em artigo publicado nesta sexta-feira, 3, que os gregos deveriam votar "não" no plebiscito que será realizado neste domingo, recusando o pacote de austeridade imposto pelos credores europeus. Conselheiro da presidência da ONU e consultor que ajudou a aplacar graves crises em países da América Latina e do Leste Europeu nos anos 80 e 90, ele diz que é preciso um alívio para a dívida da Grécia e aponta que a saída do país da zona do euro traria consequências catastróficas.

Sachs propõe um plano de quatro etapas. A primeira é justamente que o povo grego dê um sonoro "não" no plebiscito deste fim de semana. O segundo passo é que o governo continue sem pagar o serviço da dívida externa aos credores oficiais até que se chegue a um acordo sobre a reestruturação desses débitos. Esse dinheiro seria usado, em vez disso, para continuar pagando pensões, financiar programas sociais, promover reparos essenciais em infraestrutura e direcionar liquidez para o sistema bancário.

A terceira fase é que o primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras, deixe claro para a população que seus depósitos em euros estão a salvo e que o país não vai sair do bloco monetário. "Como dizia o presidente norte-americano Franklin Roosevelt, é preciso convencer o povo de que a única coisa que eles têm a temer é o próprio medo", escreve Sachs.

Por fim, Grécia e Alemanha deveriam promover um esforço de reaproximação logo após o referendo, costurando um acordo de reformas econômicas e reestruturação da dívida. Sachs afirma que o próprio Fundo Monetário Internacional (FMI) e os EUA concordam com a Grécia na necessidade de um alívio da dívida, mas a Alemanha se opõe. Para ele, os alemães levaram os gregos esta semana a um colapso financeiro completo, para forçar o pagamento das dívidas. "O ministro de Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, tem uma clara estratégia de negociação, que visa a forçar a Grécia a concordar em sair da zona do euro", afirma o economista.

O problema, para os alemães, é que os gregos não querem sair da zona do euro e, sob as regras do tratado do bloco, não podem ser forçados a isso. Sachs diz que a saída da zona do euro seria extremamente custosa para a Grécia, gerando um caos político e social - e talvez uma situação de hiperinflação - tudo isso no coração da Europa. O valor da poupança dos gregos seria varrido, com a conversão de euros para os novos dracmas. "A classe média seria eviscerada e a conversão do câmbio não economizaria um centavo da dívida externa, que obviamente continuaria denominada em euros".

O professor de Columbia lembra que existem centenas de casos de reestruturação de dívida soberana, inclusive da própria Alemanha. Ele diz que, após a Primeira Guerra Mundial, os EUA, que eram credores dos alemães, exigiram duras medidas de austeridade, aprofundando a instabilidade financeira e, indiretamente, levando à ascensão de Adolf Hitler. Já depois da Segunda Guerra, os norte-americanos aprenderam a lição e, juntamente com outros países, concederam consideráveis perdões à dívida alemã.

Sachs aponta que nenhum país deve receber uma reestruturação de dívida em uma "bandeja de prata". "O perdão precisa ser merecido e justificado por reformas reais para restaurar o crescimento", afirma. Ele reconhece que, no caso grego, todos os lados cometeram diversos erros, inclusive antes da crise. "Um país não chega à situação terrível da Grécia sem uma geração de más gestões flagrantes. Mas um país também não chega à bancarrota sem sérios erros dos seus credores - primeiro ao emprestar dinheiro demais, e depois ao exigir pagamentos excessivos, ao ponto de levar o devedor ao colapso", escreve.

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