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Joaquim Levy deveria seguir exemplo da Grécia, defende professor da USP

Economista Paulo Feldmann diz que ajuste proposto pelo governo pode levar o País a uma situação política semelhante à grega, e defende medidas como taxar grandes fortunas e heranças

O Estado de S. Paulo

28 de janeiro de 2015 | 12h31


O que pode acontecer se um partido de esquerda radical como o Syriza, da Grécia, vencer as eleições para a presidência no Brasil em 2018? O professor de economia Paulo Feldmann, da USP, afirma em artigo especial para o portal de economia do Estadão que isso pode vir a acontecer, se o governo da presidente Dilma Rousseff insistir nas medidas de ajuste fiscal.

Segundo ele, a vitória do partido radical de esquerda Syrisa na Grécia deve-se aos 'remédios amargos' impostos ao país nos últimos anos, que elevaram as taxas de desemprego. Uma alternativa, diz o professor, seria adotar no Brasil medidas iguais às da Grécia:  taxar as grandes fortunas e instituir um imposto muito alto sobre heranças.

Ele argumenta que  os gastos do governo brasileiro  com juros equivalem a toda economia que o ministro Joaquim Levy se propõe a fazer  aumentando os impostos e cortando os gastos sociais.

Leia a íntegra do artigo:

"E  se o Syrizaganhar  a eleição no Brasil em 2018?"

Paulo  R.  Feldmann (*)

"Pela primeira vez um partido de extrema esquerda vence uma eleição em um país da Zona do Euro. O Syriza  venceu a eleição de domingo na Grécia e vai governar o país nos próximos anos. A causa desta vitória foram os remédios amargos que a Grécia teve que engolir nos últimos anos  que  resultaram numa das maiores taxas de desemprego do mundo - a quarta parte da população está desempregada.

 Sem contar que também a quarta parte da população vive ou abaixo ou muito próxima da linha de pobreza. Essa população, extremamente insatisfeita com as medidas de austeridade que vinham sendo tomadas pelo  governo  anterior elegeram  Alexis Tsipras, o presidente do Syriza, e o colocaram como novo primeiro ministro da Grécia. 

Tomou posse e anunciou  que seu primeiro ato será ir a Bruxelas comunicar aos bancos europeus o fim das medidas de austeridade. 

Sintomático que no Brasil a presidente Dilma reúne pela primeira vez seu ministério para  anunciar que  as medidas de austeridade anunciadas pelo Ministro Joaquim Levy devem se intensificar  por aqui. 

O que Tsipras do Syrisa está dizendo é que pagar juros aos bancos  europeus não é mais a sua prioridade e que vai até deixar de pagar parte da  dívida (fala-se na metade da mesma) já anunciando uma moratória, ou calote como alguns preferem dizer. Diz ele que entre  pagar a divida aos bancos e melhorar a vida dos gregos ele optou pela 2ª opção. 

Já no Brasil  os bancos podem ficar tranquilos por que não só as taxas de juros estão em franco processo de alta como renegociar a dívida pública está completamente fora da agenda.

 Interessante notar que o aumento na taxa de juros  no Brasil neste ano de 2015 causará um aumento enorme nos gastos governamentais pois é ele próprio quem tem que honrar essa dívida. Aliás esse aumento de gastos  com juros é equivalente a toda economia que Joaquim Levy se propõe a fazer  aumentando os impostos e cortando os gastos sociais.

Dilma e Levy deveriam prestar mais atenção ao que Tsipras pretende fazer. Acabar com as medidas de austeridade é só o começo. Ele disse na campanha que vai taxar as grandes fortunas e instituir um imposto muito alto sobre heranças. Por que não faze-lo no Brasil?  

É justo que uma parte da classe C e os bilionários tenha a mesma alíquota de imposto de renda os já tradicionais 27,5 %? E o imposto sobre herança sozinho poderia atender um terço do rombo que o Ministro Levy se propõe a resolver. 

Afinal, não seria prudente começar adotar algumas dessas medidas por aqui antes que surja um Partido Syriza do Brasil e ganhe as eleições de 2018?"

* Paulo R. Feldmann é professor da Faculdade de Economia da USP

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