FÁBIO MOTTA/ESTADÃO
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Jogo da Previdência ainda está à espera de Bolsonaro

Cobranças começam a surgir de todos os lados para que o presidente entre de verdade na defesa do projeto mais importante de seu governo na área econômica

Alexandre Calais, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2019 | 12h07

Caro leitor,

O governo entrou no seu terceiro mês vendo se avolumarem as preocupações em torno da votação da reforma da Previdência. A proposta que muda as regras para a aposentadoria  no País foi levada ao Congresso no dia 20 de fevereiro. Duas semanas depois, continua parada onde foi entregue. Não há relator escolhido para o projeto, e nem mesmo a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), que terá de dar o aval à proposta para que ela siga seu caminho na Câmara, foi instalada. O próprio líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo (PSL), disse que a criação da CCJ deve se arrastar por mais “duas ou três semanas”.

Talvez esse prazo nem seja tão longo assim, mas a verdade é que há um grande sentimento de urgência em torno da reforma da Previdência. E essa morosidade tem inquietado analistas e investidores. Isso começa a aparecer, por exemplo, na cotação do dólar, que nesta quinta-feira (07) chegou a R$ 3,88, o maior patamar do ano – ajudado, claro, por um cenário externo bem turbulento, com indicações cada vez maiores de um forte desaquecimento da economia global.  

O que o mercado financeiro e os políticos têm cobrado é um engajamento mais efetivo do presidente Jair Bolsonaro na defesa da reforma. Para a economista Alessandra Ribeiro, da Tendências, faltam sinais mais concretos de que o presidente está realmente trabalhando para construir uma base de sustentação que garanta a aprovação do projeto.  Nossa colunista Zeina Letif  alerta para o risco elevado de que saia do Congresso uma reforma “tímida”.

Entre os aliados, o pedido é que Bolsonaro use sua desenvoltura nas redes sociais para defender a proposta. O que, aparentemente, ele agora começou a fazer: nesta quinta-feira, postou uma mensagem em sua conta no Twitter dizendo que o projeto de reforma segue os padrões mundiais, combate privilégios e incluirá todos, mesmo os militares.

Talvez seja um começo, mas não deve ser o suficiente. O presidente tem demonstrado uma preocupação muito maior até agora com questões de moral e costumes do que com temas econômicos ou políticos relevantes. Um levantamento feito aqui no Estadão mostrou que, das 515 mensagens postadas por Bolsonaro desde 1º de janeiro, apenas 5 tratavam da Previdência. Já as mensagens sobre ideologia e doutrinação foram mais de 50.

A postagem desta semana, na qual o presidente compartilha um vídeo pornográfico, aumentou ainda mais essa preocupação. Como mostrou o editorial do Estadão, Bolsonaro  não se deu conta de que cada uma de suas palavras e atitudes é o que vai nortear o debate político e econômico nacional, seja no Congresso, seja nas ruas. E dizer, logo depois do episódio do vídeo, que a democracia depende da vontade das Forças Armadas  não ajuda em nada nesse quadro.

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