Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

‘Jornada será longa no deserto de sol escaldante', afirma Silvia Matos

Para economista, crise política alonga a recessão, que deve persistir até 2017; agenda de reformas deve ser prioridade

Entrevista com

Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Ibre/FGV

Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S. Paulo

03 de março de 2016 | 12h59

Nas previsões da economista Silvia Matos, a recessão brasileira deverá se prolongar pelos próximos trimestres, num ambiente de dificuldade política. Para 2016, ela estima queda do Produto Interno Bruto (PIB) de 3,4%. Em 2017, o recuo esperado é de 0,4%. “A questão é que a crise política torna o cenário mais prolongado, fazendo as recessões mais dolorosas. Tudo leva a crer que teremos uma longa jornada nesse deserto de sol escaldante”, afirma Silvia, coordenadora técnica do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Estado.

Como a sra. analisa o resultado do PIB de 2015?

Estávamos um pouco mais otimistas. Esperávamos uma queda de 1,2% (no quarto trimestre) e veio uma retração de 1,4%. Este ano vai ser ruim também. É uma recessão das mais longas. Em geral, quando um país sai de uma recessão, espera-se uma recuperação mais rápida. Mas essa retomada, no caso brasileiro, ainda está em risco.

Qual é a projeção para 2016?

Nós estamos com recuo de 3,4%. E não vamos alterar esse número no momento. Continuamos num processo de queda, mas a gente avalia que são quedas menores que as registradas no ano passado. Para o primeiro trimestre, a estimativa é de uma retração de 0,5% (na comparação com o quarto trimestre de 2015). 

Pode haver uma recuperação no segundo semestre?

O segundo semestre está em dúvida, porque há pouco espaço para novas quedas expressivas do PIB. Os nossos números são negativos para o segundo semestre e ainda não acreditamos em números positivos. 

E para 2017?

A previsão é de recessão de 0,4%.

São três anos de recessão.

Na verdade, a recessão começou lá em 2014, então são mais de três anos. E, para sair da recessão, é preciso um número positivo e forte. Só que, no cenário atual, ainda vemos um ano de ajuste, o que prolonga ainda mais a recessão. Por causa desse cenário de ajuste, não vemos queda de juros e o crédito não retoma. 

Quais serão as consequências para o País com mais de três anos de recessão?

Do ponto de vista das famílias, tem um efeito severo no mercado de trabalho, porque é uma crise longa. E também tem o ciclo de crédito. Houve um boom de consumo no passado por causa de um cenário favorável de renda e crédito, mas agora estamos pagando a conta pelo excesso de crédito num cenário de baixa poupança. Em algum momento, chegaria o tempo de vacas magras.

E o cenário piora porque a crise política parece longe de acabar.

A questão é que a crise política torna o cenário mais prolongado, fazendo a recessão mais dolorosa. Tudo leva a crer que teremos uma longa jornada nesse deserto de sol escaldante. Esperamos que, depois da travessia, a gente possa atingir terras mais férteis. A forma política de conduzir esse processo poderia atenuar essa jornada. O País começa a entrar num cenário em que a questão social pode ficar mais insustentável. É difícil imaginar que não vá ocorrer uma reação da sociedade e dos políticos diante do quadro que estamos vivendo. O importante é como isso vai ser conduzido, de uma maneira ordenada ou não, e se haverá uma agenda positiva. A classe política precisa endereçar essa agenda de reformas.

Como a reforma da Previdência, por exemplo?

Todos os estudos são muito relevantes e mostram que as pessoas que se aposentam mais cedo são as de classe mais elevada. Vai ter mais custo social se o Brasil não fizer isso. E precisa de classe política para endereçar essas discussões tão difíceis, mas ninguém quer assumir isso. 


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