Jornais precisam cobrar por conteúdos na internet, diz WAN

Estudo anual da associação mundial aponta que receita publicitária digital não está decolando

Ricardo Gandour, enviado especial do Grupo Estado,

01 de dezembro de 2009 | 17h58

 

Hyderabad, Índia - O faturamento das atividades digitais das empresas jornalísticas está crescendo mais devagar, obrigando os jornais a rever seus modelos de negócio -como, por exemplo, abraçar de vez a idéia de cobrar pela distribuição digital. Essa é a principal conclusão do trabalho anual "Tendências", apresentado na tarde de hoje na abertura do 62º. congresso da Associação Mundial de Jornais (WAN).

 

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O estudo, conduzido pela PriceWaterhouseCoopers, aponta que em 2008 o bolo publicitário global dos jornais foi de US$ 182 bilhões, dos quais apenas US$ 6 bilhões vieram da internet. O mesmo estudo projeta que as vendas digitais não passarão de US$ 8,4 bilhões em 2013 e que, neste ano, a soma das receitas do impresso e do digital não superarão as vendas "de papel" em 2008.

 

"Tão cedo as vendas digitais não compensarão a queda das receitas dos impressos", disse Thimothy Balding, co-CEO da WAN. "Se os jornais quiserem manter sua liderança em conteúdos de qualidade, alguém vai ter que pagar por isso. Vamos ter que resolver a questão do pagamento digital, e rápido", disse Balding. O assunto esteve presente em todas as mesas de debate do congresso e do 16º Fórum Mundial de Editores, que acontece em paralelo. "Para continuar competindo, os jornais terão que reassumir o controle do conteúdo", frisou.

 

O levantamento também trouxe algumas boas notícias. "Não é o apocalipse", disse Balding. Em 2008 (último ano fechado da série estatística -a crise adiou o congresso, programado originalmente para março, e também o fechamento da pesquisa), a circulação dos jornais pagos cresceu 1,3% em relação ao ano anterior, e 8,8 % nos últimos cinco anos. O desempenho global foi significativamente impactado pelo crescimento nos mercados emergentes. "Mas, mesmo nos mercados maduros, caso da Europa, a circulação caiu menos de 3% nos últimos 5 anos", disse Balding.

 

"Conteúdo exclusivo sempre terá demanda e valor"

 

O jornal que priorizar a exclusividade e a qualidade dos conteúdos, e souber usar as mídias digitais para aumentar o envolvimento dos leitores com as reportagens, terá sucesso no novo cenário. Esse foi o tom dominante do painel "Futuro do jornalismo X futuro dos jornais", no primeiro dia de palestras do congresso mundial do setor.

 

Paul Johnson, editor-chefe adjunto do inglês "The Guardian" citou como exemplo o uso de blogs e do twitter como canais de relacionamento e até como parte do método de construção da apuração. A edição, disse Johnson, é multi-canal e faz uso das características de cada meio.

 

NÚMEROS
1,9 bilhão de pessoas, ou 34% da população mundial, lê um jornal todo dia
24% da população mundial usam a internet
O maior mercado mundial é a Índia, com circulação média de 107 milhões de exemplares por dia, ou 20% da circulação mundial
Índia, China e Japão respondem por 60% da circulação mundial de jornais
Em penetração (exemplares por mil habitantes), o Japão lidera com 612, seguido pela Noruega (576) e pela Finlândia (482). O Japão lidera também em “alcance” –91% dos japoneses lêem um jornal diariamente.

Em paralelo, a escolha dos internautas acaba sendo direcionada pela reputação de quem publica, afirmam os debatedores. "O que garante o futuro de um jornal é o seu passado", afirmou Mahfuz Anam, editor-chefe do "The Daily Star", de Bangladesh.

 

Paul Johnson tem dúvidas quanto a cobrar por todo o conteúdo oferecido na web. "A oferta talvez tenha que ser híbrida, um tanto aberto, um tanto fechado", disse. Mas Johnson admite que "a espera pela migração das receitas do papel para a web tem sido muito nervosa".

 

George Brock, chefe do departamento de Jornalismo da City University de Londres, afirma que, mesmo nas novas mídias, "as pessoas irão confiar em quem está selecionando as notícias para elas." "É o poder da edição, da seleção. Isso não vai desaparecer", disse.

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