Jorro de capitais

Já se esperava que a injeção de capital estrangeiro no Brasil fosse forte em junho, mas ninguém poderia imaginar que saltaria US$ 10,3 bilhões, recorde histórico num único mês.Pelo menos US$ 5,3 bilhões entraram como pagamento do Grupo Mittal aos acionistas minoritários da Arcelor. Houve outras inversões em capacidade já existente. Mas não dá para negar que é crescente o investimento destinado ao aumento de capacidade de produção, o que mostra impressionante interesse novo por investimentos. Aí está importante indicador da economia, cujas projeções estão desatualizadas.O Banco Central, sempre tão conservador, parece estar na frente do resto do mercado. Projeta para todo o ano uma entrada de Investimentos Estrangeiros Diretos (IED) de US$ 25 bilhões. Enquanto isso o mercado, conforme Pesquisa Focus do Banco Central, ainda não passou dos US$ 23 bilhões. Nos últimos 12 meses terminados em 30 de junho, a entrada de IED alcançou US$ 32,3 bilhões (ver gráfico).É possível conferir ao menos quatro fatores que puseram o Brasil na mira dos investidores estrangeiros. O primeiro é a forte melhora da percepção externa sobre o comportamento da economia. Inflação sob controle, reservas agora a US$ 153,3 bilhões e retomada do crescimento (hoje em torno dos 4,5% ao ano) são elementos que garantem previsibilidade ao investidor.O segundo fator é a fartura de recursos externos. Se sobra dinheiro lá fora e, do ponto de vista do investidor, as condições do Brasil estão melhorando, não há como evitar o afluxo.O terceiro é a descoberta pelo resto do mundo das enormes vantagens comparativas do Brasil na produção de biocombustíveis, especialmente etanol. E o quarto é a proximidade do reconhecimento do grau de investimento. Ontem, a Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet) entrou na discussão sobre se esse fator é ou não relevante para explicar a forte entrada de investimentos. A partir de um levantamento feito sobre o que aconteceu com cinco emergentes (África do Sul, México, Bulgária, Rússia e Romênia) concluiu que, com exceção da África do Sul, há a tendência à antecipação de IED. Porém o crescimento maior acontece depois. O caso do Brasil não necessariamente será parecido ao desses países - até porque as condições da economia mundial podem mudar.De todo modo, a predisposição do capital estrangeiro em procurar oportunidades de longo prazo no Brasil esbarra em sérios obstáculos. O caos da aviação civil e o risco de apagão energético são demonstrações do que acontece na infra-estrutura.É claro que esse também seria bom argumento para investir aqui. Mas aí esbarramos em um segundo gargalo: a falta de marcos regulatórios (regras do jogo), confiáveis para deixar que esses capitais operem no País. E podemos acrescentar uma lista enorme de problemas: excessiva carga tributária; altíssimos encargos sociais; lerdeza e falta de confiança na Justiça...

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