Jorro de dólares

O Banco Central já comprou US$ 23 bilhões apenas a partir de março. As reservas saltaram para US$ 222,6 bilhões e, no entanto, se há uma percepção consolidada, é a de que os dólares continuarão chegando em catadupas.

Celso Ming,

18 de setembro de 2009 | 07h36

 

É inevitável a valorização do real ante o dólar, para insegurança da indústria, que perderá competitividade diante do produto estrangeiro tanto no mercado interno como no externo.

 

Na entrevista publicada pelo jornal Valor ontem, o presidente Lula passou o recibo: "Trabalhamos com a hipótese de que vai entrar muito dólar no Brasil. Precisamos trabalhar isso com carinho."

 

Mas o que seria atacar o problema com carinho de maneira a evitar o tranco no sistema produtivo e não só na indústria?

 

A ideia de pagar o comércio com China, Rússia, Índia e Argentina nas moedas dos países parceiros não leva muito longe. A troca se faz até o empate das operações, mas o saldo é sempre compensado em moeda forte. Além disso, mais recursos virão para investimento, para capitalização das empresas (lançamento primário de ações) e para a Bolsa.

 

Impedir a entrada de capitais é tentação recorrente, mas essas coisas não são para um país que precisa jogar mais abertamente com o mundo. Limitar a entrada de recursos na Bolsa, por exemplo, teria baixa eficácia já que o volume de negócios com ações de empresas brasileiras é maior em Nova York do que no Brasil.

 

Parece mais adequado facilitar o acesso das empresas daqui aos dólares para que aumentem sua posição lá fora. Mas cuidado. O próprio conceito de empresa nacional já não faz muito sentido, como o caso da AmBev, que virou AB InBev e é pilotada da Bélgica, já demonstrou. São inúmeros os exemplos de empresas brasileiras que cresceram com vitamina do BNDES e presentes do Fisco e que logo em seguida foram engolidas por capitais globais.

 

Dar incentivos creditícios ao exportador, como está em estudo, não refresca muito porque o aperto não está nas exportações, que continuam superavitárias, bombeando dólares para dentro do País. A empresa nacional também enfrenta concorrência acirrada do produto importado.

 

O problema está apenas parcialmente no câmbio. É de falta de competitividade da empresa nacional ante o alto custo Brasil, que vinha sendo compensada com desvalorização cambial. A resposta adequada é a redução da carga tributária, infraestrutura de baixo custo, crédito mais barato (que pressupõe diminuição drástica do spread bancário), desburocratização... Por aí.

 

É provável que isso ainda não seja suficiente para evitar a excessiva valorização do real, mas é um jeito de começar a atacar corretamente o problema.

 

Confira

 

Perigo de gol - O próprio ministro da Fazenda, Guido Mantega, reconhece: não houve ainda a forte migração das aplicações dos fundos de renda fixa para as cadernetas.

 

Se apenas 1% dos ativos em cadernetas será atingido, como diz o ministro, por que, afinal, a taxação? Ora, para evitar que a migração aconteça.

 

Com essa decisão, o governo restabelece a capacidade de atração dos títulos do Tesouro. Mas acabará com a única arma que se mostrou capaz de derrubar as taxas escorchantes de administração dos fundos de renda fixa impostas pelos bancos.

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