ALEX SILVA/ESTADÃO - 12/11/2021
ALEX SILVA/ESTADÃO - 12/11/2021

‘O objetivo da política fiscal hoje é reeleger o Bolsonaro’, diz Scheinkman

Para o economista, o governo vai fazer o que for preciso para tentar manter o presidente no Planalto

Entrevista com

José Alexandre Scheinkman, professor da Universidade Columbia e professor emérito da Universidade Princeton

José Fucs, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2021 | 05h00

Em linha com o pensamento de muitos de seus pares e de executivos do mercado financeiro, o economista José Alexandre Scheinkman, de 73 anos, está apreensivo com a situação das contas públicas do País. Segundo ele, com as propostas de furo no teto dos gastos e de parcelamento dos precatórios, ficou claro que o governo vai fazer o que for preciso para tentar manter o presidente Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto. “O objetivo da política fiscal hoje é reeleger o Bolsonaro”, afirma.

Radicado nos Estados Unidos há 30 anos, Scheinkman fala também, nesta entrevista ao Estadão, sobre o atual cenário econômico global. Na sua visão, a esperada expansão da economia em 2022 depende da solução de uma série de distorções criadas pela pandemia e das decisões do Fed (Federal Reserve, banco central americano) em relação aos juros. “Não estou dizendo que (a retomada) não vai acontecer, mas há tantas variáveis envolvidas que é difícil dizer qual será o desempenho da economia no ano que vem. Muitas coisas ainda podem mudar.”

As previsões para a economia global indicam uma forte retomada em 2022. O efeito da pandemia já passou?

Não, não passou ainda. É certo que, nos Estados Unidos, o nível de emprego está começando a reagir. Mas ainda há varias coisas que estão atrapalhando a retomada. As cadeias globais de suprimentos ainda têm muitos problemas. Algumas coisas que não foram produzidas no momento mais agudo da pandemia, em razão da queda da demanda, agora, com a retomada do consumo, estão em falta. Outras foram produzidas, mas não transportadas, porque está faltando transporte, está faltando contêiner. Todas essas consequências da pandemia, que não são as piores, vamos deixar isso claro, não serão resolvidas amanhã. Serão resolvidas aos poucos. Além disso, a gente não sabe o que pode acontecer em termos de novas de cepas do vírus. Então, não é vida normal, como a gente tinha antes da pandemia. A (Universidade) Columbia, por exemplo, está funcionando normalmente, mas continuamos a ser testados. Além de ser vacinado, sou testado frequentemente, porque estou em contato direto com os alunos. Todo dia eu tenho de atestar que estou bem. 

Na prática, como isso tudo está atrapalhando a recuperação da economia?

Nos Estados Unidos, por exemplo, agora há falta de carros. Mas não é que está faltando carro porque eles não são produzidos. Os carros estão prontos, mas não tem chips, que hoje controlam inúmeras funções dos veículos, para instalar. Durante a pandemia, muitas pessoas não trocaram de carro, porque não precisaram sair de casa durante dois anos. Agora, que as coisas, de certa forma, estão se normalizando, houve um aumento da demanda, mas não há a capacidade de ampliar a produção de alguns insumos muito importantes, como é o caso dos chips, na mesma escala. As fábricas estão fazendo o máximo que podem, mas não é suficiente para atender à demanda. Muitos produtos eletrônicos lançados recentemente também estão com filas de espera grandes. A Apple produz uma peça de computador na Coréia, outra em Taiwan e monta o equipamento na China. São várias fases de produção, cada uma em um lugar. Quando dá um problema numa delas, tudo o que vem depois começa a faltar. Em alguns setores, os empregadores não estão conseguindo contratar o número de empregados que eles querem. As transportadoras estão operando no limite. Ninguém consegue encontrar motorista de caminhão, para aumentar o uso da frota. Em Nova York, muitos restaurantes estão fechando domingo e segunda, o que não acontecia antes, porque não conseguem contratar os funcionários necessários.

O sr. está mais cauteloso, então, do que boa parte dos economistas, em relação às perspectivas de crescimento da economia mundial em 2022? É isso?

Eu não diria que estou mais cauteloso. Não estou dizendo que (a retomada) não vai acontecer, mas há tantas variáveis envolvidas que é difícil dizer qual será o desempenho da economia no ano que vem. Muitas coisas ainda podem mudar. Vai depender da solução de alguns desses problemas de que falamos há pouco e muito das decisões do Fed sobre as taxas de juros. Há também muita preocupação com a China. Se essa preocupação é por causa da política ou por causa do crescimento econômico, é difícil de decompor. Outro problema sério que estamos tendo é o climático, que afeta a produção de commodities agrícolas. O clima tem trazido surpresas ruins. No Brasil, por exemplo,que é um produtor importante, houve uma quebra de safra considerável neste ano (de produtos como milho, trigo, cana-de-açúcar). Isso pode ser só um problema local, mas para o futuro a gente tem de esperar mais situações anormais. Vamos ter mais secas, mais chuvas, mais furacões. A questão climática toda está mais complicada. Agora, com a aprovação do pacote de infraestrutura do governo Biden, de US$ 1 trilhão, certamente haverá uma melhora na perspectiva de crescimento em 2022. 

Esse quadro complicado da economia global a que o sr. se refere está levando a um aumento nos preços das commodities, como combustíveis e alimentos, e a uma alta generalizada da inflação. O sr. acredita que o Fed deverá aumentar os juros nos próximos meses, para controlar a inflação americana?

Primeiro, é preciso entender o que desse aumento de preços é temporário e o que é permanente. O Fed, como qualquer banco central, está preocupado com os aumentos que vão perdurar e não com aqueles que são circunstanciais. O Fed está vendo que, durante essa pandemia, muitas coisas ficaram voláteis, e está avaliando o quanto dessa volatilidade é realmente aumento de preços que vai ficar. A aposta do Fed até agora tem sido de não aumentar os juros. Agora, o mercado não espera que  um aumento das taxas, se vier, se mantenha por um período muito longo. É só ver como está hoje o preço do bônus de 10 anos do Tesouro americano. Ainda está muito baixo. O Fed não tem nada a ver com o preço bônus de 10 anos, mas ele revela muito das expectativas dos investidores em relação às taxas futuras de juros. 

Nos Estados Unidos, hoje, há também um grande debate sobre a existência de uma “bolha” no mercado acionário. Qual a sua visão sobre essa questão?

A alta das ações é resultado dessas taxas de juro que estão muito baixas. O valor das ações deve ser mais ou menos equivalente aos lucros futuros das empresas, descontados as taxas de juros e um prêmio de risco. Se mantivermos o prêmio de risco constante, a taxa de juro baixa influencia muito o valor das ações e as torna mais atrativas. Hoje, nos Estados Unidos, para quem tem um plano de aposentadoria, aplicar o dinheiro num instrumento de renda fixa é muito pouco atrativo. Para ter um retorno maior, tem de investir a maior parte em renda variável. Isso dá uma puxada para cima em todos os valores na Bolsa, embora não justifique todo o preço atual e certamente não justifique o preço atual das ações de todas as empresas.

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O aumento dos juros no Brasil evidentemente não é uma boa coisa para o crescimento
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No Brasil, muitos economistas estão traçando um quadro preocupante para a economia em 2022. De forma geral, qual a sua percepção sobre a economia brasileira? As perspectivas são tão ruins quanto se diz por aí?

As pessoas estão pessimistas. Até os economistas que estavam prevendo um crescimento maior em 2022 estão revendo suas previsões. A situação fiscal está muito complicada. Está claro que hoje o objetivo da política fiscal é reeleger o Bolsonaro. Parece que vão fazer o que for preciso para isso, sem se preocupar com as contas públicas. O último episódio foi essa questão do furo do teto, essa história do parcelamento dos precatórios, que não se sabe se os tribunais vão tolerar ou não. Obviamente, os credores vão questionar isso na Justiça. A preocupação com a renda dos mais pobres neste momento é justificável, mas serviu para passar junto um monte de medidas de interesse do governo e do Centrão. Uma parte grande desse gasto de quase R$ 100 bilhões que será feito acima do teto não tem nada a ver com a expansão do programa de auxílio para as pessoas mais pobres, mas com a necessidade de parlamentares, ministros e do presidente se reelegerem. 

Para 2022, alguns analistas estão prevendo uma recessão ou no máximo uma taxa de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) muito baixa. Como o sr. avalia essas previsões?

Você sabe, eu não faço previsão. Eu leio as previsões dos outros. Não é minha vantagem competitiva fazer previsão econômica. Um analista que respeito muito é o Samuel Pessôa. Até pouco tempo atrás, ele estava prevendo um crescimento de 2% no ano que vem, que já não era uma maravilha. Agora, com tudo o que aconteceu nos últimos meses, que tende a diminuir a capacidade de o Brasil crescer, ele cortou essa previsão pela metade. Segundo ele, o que sobrou para sustentar o crescimento foi só o carregamento, o crescimento inercial que será levado para 2022. Todo o resto ficou muito pior. Em razão da bagunça fiscal, os juros devem aumentar, o que evidentemente não é uma boa coisa para o crescimento. Não me surpreende que as pessoas estejam mais pessimistas agora do que há seis meses. 

O governo argumenta que isso é um reflexo, em boa medida, daqueles problemas todos na economia global que o sr. mencionou. Até que ponto essa situação tem a ver com o que vem de fora e até que ponto é reflexo de fatores internos mesmo? 

Nos Estados Unidos, as pessoas não estão dizendo que o país não vai crescer por causa das consequências da pandemia na economia global. Mesmo que o que vem de fora traga problemas, o resultado líquido está levando ao crescimento. As previsões para os Estados Unidos e para a Europa são bastante positivas. No caso do Brasil, algumas coisas, como a alta dos preços das commodities, seriam até benéficas. Se você comparar com outros períodos em que a gente teve a situação de preços de commodities que tem hoje, como em 2007, 2008, com alta do petróleo, dos alimentos, o país cresceu. O Lula e o (Hugo) Chávez (ex-presidente da Venezuela) pareciam gênios. Para se dar mal nesta situação internacional, tem de haver um esforço considerável do governo. O Brasil conseguiu. É uma conquista e tanto, mas não daquelas que a gente quer ter. 

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O Congresso criou uma nova tecnologia para se apropriar do dinheiro público
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Como a eleição de 2022 e toda a incerteza que ela deverá trazer para a economia, como vamos ficar? Que impacto isso ainda pode ter nesse quadro que já é bem complicado?

A eleição é mais um fator de complicação. Por um lado, ela dá esperança de que, a partir de 2023, a situação possa melhorar. Por outro lado, traz incerteza. O Congresso e o governo estão fazendo o que podem para destruir o equilíbrio fiscal. Você não sabe o que eles vão fazer daqui a seis meses. Depende da situação do candidato. A verdade é que qualquer um que chegar ao poder em 2023 vai ter de lidar com tudo isso. Mesmo o tal Auxílio Brasil, que estão passando, só tem dinheiro para um ano. O que vai acontecer em 2023? Se a PEC que vai criar isso passar e nós tivermos o Auxílio Brasil em 2022, o que vai se fazer em 2023? O presidente que chegar ou mesmo o presidente atual, se por acaso for reeleito, vai ter de continuar,  porque não pode parar um programa assim de repente. Mas como vamos pagar por isso? Esta é a questão. Obviamente, isso é um fator de incerteza. É preciso levar em conta também que, no último ano, de certa forma, o Congresso, a Câmara em particular, criou uma nova tecnologia para se apropriar do dinheiro público, com essas emendas do relator. Tem de pensar que, no Congresso que for eleito em 2022, vai ter gente tentando usar essa nova tecnologia. Um congresso com a mesma “virtuosidade” que o atual, ainda que com pessoas diferentes, vai querer usar essa tecnologia. A gente sabe que uma inovação tecnológica, para o bem e para o mal, costuma vir para ficar.  

No passado, o sr. já se envolveu em campanhas eleitorais no Brasil, como na campanha de Ciro Gomes à Presidência, em 2002. O sr. pretende atuar na campanha de algum candidato em 2022? 

O meu envolvimento na campanha do Ciro foi no sentido de dar ideias. Nem todas ele adotou, mas acredito que a minha vantagem competitiva é gerar ideias, que são justificadas por números, dados. Aquele conjunto de ideias encaminhadas ao Ciro em 2002 foi feito com um grupo de economistas e resumido num documento chamado “Agenda Perdida”, que eu e o (economista) Marcos Lisboa escrevemos. Aquilo teve uma certa influência em diferentes governos. Nós fizemos para estar à disposição de todos. Mesmo durante a campanha nós fizemos questão de colocar aquilo para todos os candidatos. Agora, em 2022, não pretendo me engajar numa campanha. O que eu faria de bom gosto seria conversar com as pessoas se elas tiverem interesse. Em muitas campanhas, conversei com candidatos. Não tenho nada contra conversar com candidatos, desde que estejam comprometidos com a democracia. Acredito que o papel de um economista, principalmente de um economista que é professor na universidade, como é o meu caso, é o de conversar. Mas, no momento, estou muito ocupado com a minha carreira acadêmica, com as minhas pesquisas. 

Qual a sua avaliação do ministro Paulo Guedes, decorridos três anos de governo?

Eu ensino há 40 anos e ainda tenho muita dificuldade de reprovar aluno. Evito o máximo possível, embora eventualmente tenha de fazê-lo.  Com o Paulo Guedes, estou nesta situação. Mas acho que a nota tem que ser de reprovação, porque o ministro da Fazenda, da Economia, no fim é o responsável pela política econômica. Ele pode até dizer e achar que esse furo do teto é um escândalo. Mas, de alguma maneira, colocou a assinatura dele na medida. Isso tudo tem de ser considerado. Não dá para ficar contando com a “Selva do Silício”, na Amazônia, cuja criação ele defendeu, em referência ao Vale do Silício, nos Estados Unidos. Essa não vai acontecer. Este governo é muito de falar, e não tem competência para fazer. 

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