Abdallah Dalsh/Reuters
Abdallah Dalsh/Reuters

Políticas econômicas em resposta à pandemia estão no centro do atual processo inflacionário

Na pandemia, bancos centrais adotaram taxas de juros próximas de zero ou negativas e déficits fiscais elevados para financiar programas de transferência de renda para as famílias

José Márcio Camargo*, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2022 | 04h00

O fantasma da inflação está de volta. Na Alemanha, o Índice de Preços ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês) aumentou 2,5% no mês de março em relação a fevereiro, ante 0,9% no mês de janeiro em relação a dezembro. Em 12 meses, a taxa de inflação acelerou de 5,1% em fevereiro para 7,3% em março.

Nos Estados Unidos, a taxa de inflação medida pelo Índice de Preços dos Gastos com Consumo (PCE, na sigla em inglês), que é a medida preferida pelo Federal Reserve, o banco central americano, acelerou de 6,0% para 6,4% em 12 meses, e o CPI atingiu 7,9% no mês de janeiro, o nível mais elevado em 40 anos. 

Uma parte da aceleração inflacionária está associada aos efeitos sobre a oferta de bens e serviços dos gargalos nas cadeias produtivas e da logística, decorrentes das restrições à mobilidade e lockdowns implementados em diferentes países, em especial na China, para combater a pandemia de covid-19.

Mas isso não é tudo. As políticas econômicas adotadas pelos bancos centrais e pelos governos em resposta ao coronavírus estão no centro da volta da inflação. Diante da forte queda de demanda observada no início da pandemia, bancos centrais e governos adotaram políticas monetárias e fiscais agressivas, taxas de juros próximas de zero ou negativas, e déficits fiscais elevados para financiar programas de transferência de renda para as famílias. Essas políticas conseguiram reverter rapidamente a queda de demanda.

Com as restrições à mobilidade e manutenção da renda, o resultado foi uma mudança na estrutura da demanda, com aumento da procura por bens e queda da procura por serviços. A combinação de gargalos no processo produtivo que inibem o aumento de oferta e o aumento da demanda por bens está na origem do atual processo inflacionário. Uma inflação induzida por políticas monetária e fiscal excessivamente estimulativas.

Este cenário foi reforçado pela invasão da Ucrânia pela Rússia, dois dos maiores produtores de commodities do mundo, o que reduziu a oferta desses bens, aumentou seus preços e gerou pressão inflacionária adicional.

Políticas monetárias não vão resolver os problemas de gargalos no sistema produtivo nem aumentar a oferta de commodities. Mas podem reduzir a demanda e, dessa forma, diminuir a pressão inflacionária. Infelizmente, dado o estágio de desequilíbrio entre oferta e demanda atingido, dificilmente o problema será resolvido sem uma recessão nos países desenvolvidos. 

* PROFESSOR APOSENTADO DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA PUC-RIO. É ECONOMISTA-CHEFE DA GENIAL INVESTIMENTOS 

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