Epitácio Pessoa/ Estadão
Epitácio Pessoa/ Estadão

Queda da demanda chinesa por commodities reduz entrada de dólares e retoma valorização do real

Com as notícias da China na última semana indicando arrefecimento da pandemia, afrouxamento das medidas de lockdown e abertura do comércio em Xangai, a trajetória de valorização do real foi retomada

José Márcio Camargo*, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2022 | 04h00

A política de tolerância zero com a covid-19 foi a estratégia adotada pelo governo chinês para enfrentar a pandemia. Essa política tem por característica a decretação de lockdowns generalizados, drásticas medidas de restrição à mobilidade urbana e ao convívio social sempre que um pequeno número de casos de covid e óbitos é detectado em determinada cidade.

O objetivo é evitar a contaminação de grande parte da população e o aumento do número de óbitos. Efetivamente, segundo os dados disponíveis, o número de casos e de óbitos tem sido relativamente pequeno se comparado ao de outros países em que tais restrições não foram adotadas.

Entretanto, provavelmente devido ao pequeno número de casos, a consequente baixa imunidade natural da população, o baixo índice de vacinação entre os idosos com mais de 80 anos e a pouca eficiência das vacinas chinesas, há cerca de dois meses o surto de covid-19 se intensificou no país, forçando o governo a implementar a política de tolerância zero em mais de 30 cidades, inclusive na maior do país, Xangai. Como a cidade é também o maior centro industrial e o maior porto da China, a decretação do lockdown praticamente paralisou a indústria e o porto locais, agravou os gargalos nas cadeias produtivas e no sistema de transporte e está gerando forte desaceleração da economia.

Os indicadores antecedentes de atividade (PMIs) mostraram desaceleração. O PMI composto atingiu 37,2 pontos e o PMI do setor de serviços 36,2 pontos no mês de abril (dados abaixo de 50 indicam redução da atividade). A produção industrial caiu -2,90%, as vendas no varejo caíram -11,10% em abril e a taxa de desocupação atingiu 6,10% da força de trabalho.

A China é o principal mercado para as nossas commodities, principalmente as metálicas. A redução da demanda devido ao lockdown está gerando queda nos preços dessas commodities, na expectativa de superávit em conta corrente e na entrada de dólares no País, com reversão da trajetória de valorização do real que teve início no final de 2021 – uma variável importante no controle do processo inflacionário.

Com as notícias da China na última semana indicando arrefecimento da pandemia, afrouxamento das medidas de lockdown e abertura do comércio em Xangai, a trajetória de valorização do real foi retomada. Entretanto, dada a incerteza que cerca a evolução da pandemia, as próximas semanas serão fundamentais para projetar o comportamento da taxa de câmbio.

*PROFESSOR APOSENTADO DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA PUC-RIO, É ECONOMISTA-CHEFE DA GENIAL INVESTIMENTOS

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