Giulia Marchi/The New York Times - 25/5/2020
Giulia Marchi/The New York Times - 25/5/2020

Jovens da China procuram emprego na era pós-pandemia

Milhões de trabalhadores foram demitidos ou ficaram de licença enquanto o país enfrentava o coronavírus; a taxa de desemprego entre as pessoas de até 24 anos chegou a 14%, mais que o dobro da taxa geral

Alexandra Stevenson e Keith Bradsher, The New York Times

27 de maio de 2020 | 10h00

Para que a China possa se recuperar totalmente da devastação causada pela pandemia de coronavírus, o país precisa encontrar emprego para pessoas como Huang Bing, de 24 anos. Ele se formou no ano passado numa das mais prestigiadas escolas de teatro da China e recebeu em dezembro uma oferta de primeiro emprego no show business, para trabalhar numa empresa que contrata bandas para bares em Pequim e Xangai.

O coronavírus, que praticamente congelou a China por semanas, pôs fim ao emprego antes mesmo de seu início. Huang teve de procurar trabalho como produtora freelancer de filmes e peças publicitárias, mas cortou os gastos e já está ficando sem dinheiro.

“Já era abril e eu ainda não tinha conseguido emprego, então comecei a ficar preocupada”, disse.  “Comecei a me preocupar com a possibilidade de não conseguir trabalho este ano. Não posso ficar só esperando.”

As relações com os Estados Unidos estão no pior momento das últimas décadas e Hong Kong está fervendo de medo e raiva, mas o maior problema da China, de longe, é dar emprego a sua população. Milhões de trabalhadores foram demitidos ou ficaram de licença enquanto a China enfrentava o coronavírus. Muitos dos que mantiveram o emprego tiveram os salários cortados e viram as perspectivas de futuro se estreitarem.

Os trabalhadores mais jovens da China, em particular, entraram naquele que talvez seja o pior mercado de trabalho do país na era moderna. Muitos estão baixando as expectativas e aceitando qualquer emprego. A pressão está prestes a se intensificar: outros 8,7 milhões de jovens diplomados estão aguardando para entrar no mercado este ano.

Para o mundo, será difícil recuperar o crescimento global até que a China volte ao trabalho. Mas os danos ao Partido Comunista podem ser duradouros. Seu poder político deriva da promessa de proporcionar uma vida melhor ao povo chinês, uma promessa que está cada vez mais difícil de cumprir.

Uma prova da profundidade da incerteza é que os líderes chineses reunidos em Pequim desde a semana passada pela primeira vez se recusaram a estabelecer uma meta anual de crescimento econômico. Mas revelaram outros objetivos que detalham suas maiores preocupações, entre elas reduzir o desemprego nas cidades e domar a inflação dos alimentos, a qual aumentou devido a interrupções na oferta causadas pelo surto e por uma doença suína não relacionada.

Os líderes chineses reconheceram problemas ainda mais amplos na força de trabalho. Os operários chineses foram atingidos pela guerra comercial com os Estados Unidos. Companhias do setor de serviços, como empresas de entrega online, estão contratando, mas esses empregos oferecem baixos salários e muito estresse.

Na semana passada, na abertura da sessão parlamentar anual da China, Li Keqiang, premiê chinês, falou tanto do desemprego quanto das centenas de milhões de subempregados, que vivem de trabalhos esporádicos, com horários flexíveis e salários baixos. “Faremos todos os esforços para estabilizar e expandir o emprego”, disse ele.

Para ajudar, no último fim de semana os principais líderes da China se comprometeram a “usar todos os meios possíveis” para criar empregos e anunciaram a meta de criar 9 milhões de postos de trabalho este ano. Mas muitos de seus planos se pautam na velha cartilha de Pequim, que prevê gastos em obras públicas, financiamento de empresas estatais deficitárias e injeção de dinheiro no setor financeiro.

Essas táticas se mostraram menos eficazes nos últimos anos. Mesmo que os bancos sejam pressionados a emprestar para empresas menores, camada que mais emprega na China, o fardo dos empréstimos ainda é pesado demais para muitas delas. Gastar em obras públicas gera menos impacto à medida que a economia da China amadurece e que sua força de trabalho se torna cada vez mais instruída e direcionada ao trabalho em escritórios.

Mesmo que sejam consideradas imprecisas por muitos economistas, as atuais estatísticas oficiais de desemprego na China indicam a profundidade do problema para os jovens trabalhadores. A taxa de desemprego entre as pessoas de 16 a 24 anos chegou a quase 14%, mais do que o dobro do número oficial para o país como um todo.

Nos fóruns online, jovens candidatos compartilham suas frustrações. “Estou quase chorando”, escreveu uma pessoa recentemente no Weibo, o popular serviço de mídia social chinês. “Arranjar emprego está tão difícil quanto arranjar namorado.”

Muitos usam palavras como “perdido” para descrever seu estado de espírito. “Esgotei todos os tipos de software de busca de emprego”, escreveu outra pessoa. “Não achei nada! O que mais posso fazer?! Estou perdendo a fé.”

Muitos desses candidatos reduziram as expectativas salariais e estão concentrando esforços na segurança do emprego em alguma empresa estatal. Embora as empresas privadas sejam mais populares, a competição por empregos ficou muito acirrada, de acordo com uma pesquisa recente com 3 mil graduados da Liepin, uma plataforma de recrutamento. Três quartos dos recém-formados disseram que esperavam ganhar menos de US$ 1.100 por mês, uma das faixas salariais mais baixas da pesquisa.

As empresas chinesas que estão contratando podem se dar ao luxo de ser exigentes. Os recrutas podem escolher entre um número maior de candidatos, disse Martin Ma, diretor de recursos humanos da iSoftStone, uma empresa de desenvolvimento de software que tem mais de 60 mil funcionários e presta serviços para grandes empresas nacionais e estrangeiras. Os salários iniciais estão mais baixos.

“As vagas disponíveis para recém-formados são todas básicas e o salário não é muito alto”, disse Ma. “Eles não entendem muito bem o mercado. Suas expectativas são bastante altas.” / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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