Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Jovens são a chave para criar um futuro mais pacífico e sustentável

Próxima geração é a parte interessada mais afetada quando se fala sobre futuro global - e devemos a ela mais do que isso

Klaus Schwab*, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2021 | 04h00

Os jovens de hoje estão envelhecendo em um mundo assolado por crises. Mesmo antes da pandemia da covid-19 devastar vidas e meios de subsistência em todo o mundo, os sistemas socioeconômicos do passado colocaram em risco a subsistência do planeta e erodiram para muitos o caminho para vidas saudáveis, felizes e plenas.

A mesma prosperidade que permitiu o progresso global e a democracia após a Segunda Guerra Mundial está criando agora a desigualdade, a discórdia social e a mudança climática que vemos hoje – com um crescente hiato de riqueza geracional e o peso da dívida da juventude também. 

Para a geração de millennials, a crise financeira de 2008 e a Grande Recessão resultaram em desemprego significativo, enorme dívida estudantil e falta de empregos significativos. Agora, para a geração Z, a covid-19 causou fechamentos de escolas, agravamento do desemprego e protestos em massa.

Os jovens têm razão em estar profundamente preocupados e zangados, vendo esses desafios como uma traição ao seu futuro. Mas não podemos deixar essas crises convergentes nos sufocarem. Devemos permanecer otimistas – e devemos agir.

A próxima geração é a parte interessada mais importante e mais afetada quando se fala sobre nosso futuro global – e devemos a ela mais do que isso. O ano de 2021 é o momento de começar a pensar e agir a longo prazo para tornar a paridade intergeracional a norma e projetar uma sociedade, economia e comunidade internacional que cuidam de todas as pessoas.

Os jovens também são os mais bem colocados para liderar essa transformação. Nos últimos dez anos trabalhando com a Comunidade de Modeladores Globais do World Economic Forum, uma rede de pessoas com idades entre 20 e 30 anos trabalhando para resolver problemas em mais de 450 cidades ao redor do mundo, eu vi em primeira mão que eles são aqueles com as ideias mais inovadoras e energia para construir uma sociedade melhor para o amanhã.

No ano passado, a Comunidade de Modeladores Globais organizou diálogos sobre as questões mais urgentes enfrentadas pela sociedade, por governos e por negócios em 146 cidades, atingindo um público de mais de 2 milhões de pessoas. O resultado desse esforço global com várias partes interessadas, Davos Labs: Plano de Recuperação Juvenil, apresenta um lembrete gritante de nossa necessidade urgente de agir e percepções convincentes para criar um mundo mais resiliente, sustentável e inclusivo.

Um dos temas unificadores das discussões foi a falta de confiança dos jovens nos sistemas políticos, econômicos e sociais existentes. Eles estão fartos de preocupações com a corrupção e com a liderança política obsoleta, bem como com a constante ameaça à segurança física pela vigilância e pelo policiamento militarizado contra ativistas e pessoas de cor. Na verdade, mais jovens acreditam na governança pelo sistema de inteligência artificial do que por outro ser humano.

Enfrentando um mercado de trabalho frágil e um sistema de seguridade social quase falido, quase metade dos entrevistados disse que achava que tinha habilidades inadequadas para a força de trabalho atual e futura, e quase um quarto disse que correria o risco de se endividar, se enfrentasse uma despesa médica inesperada. O fato de que metade da população global permanece sem acesso à internet apresenta obstáculos adicionais. Ondas de “cancelamentos” e o estresse de encontrar trabalho ou retornar ao local de trabalho exacerbaram a crise existencial e a, muitas vezes silenciosa, saúde mental.

Então, o que os millennials e a geração Z fariam de forma diferente?

Imediatamente, eles estão pedindo à comunidade internacional para salvaguardar a equidade da vacina para responder à covid-19 e prevenir futuras crises de saúde. 

Os jovens estão se unindo em torno de um imposto global sobre a riqueza para ajudar a financiar redes de segurança mais resistentes e administrar o aumento alarmante da desigualdade de riqueza.

Eles estão pedindo para direcionar maiores investimentos para programas que ajudem jovens vozes progressistas a ingressar no governo e a se tornar formuladores de políticas.

Para limitar o aquecimento global, os jovens estão exigindo a suspensão da exploração, do desenvolvimento e do financiamento de carvão, petróleo e gás, bem como pedindo às empresas que substituam quaisquer diretores corporativos que não estejam dispostos a fazer a transição para fontes de energia mais limpas.

Eles estão defendendo uma internet aberta e um plano de acesso digital de US$ 2 trilhões para colocar o mundo online e evitar o desligamento da internet, e estão apresentando novas maneiras de minimizar a disseminação de desinformação e combater as perigosas visões extremistas. Ao mesmo tempo, eles estão falando sobre saúde mental e pedindo investimentos para prevenir e combater o estigma associado a ela.

Transparência, responsabilidade, confiança e foco no capitalismo das partes interessadas serão a chave para atender às ambições e às expectativas dessa geração. Devemos também confiar a eles o poder de assumir a liderança para criar mudanças significativas.

Sinto-me inspirado pelos inúmeros exemplos de jovens em ação coletiva, reunindo diversas vozes para cuidar de suas comunidades. Desde a prestação de assistência humanitária aos refugiados até a ajuda aos mais afetados pela pandemia e a promoção da ação climática local, seus exemplos fornecem as pegadas de que precisamos para construir uma sociedade e uma economia mais resilientes, inclusivas e sustentáveis que o mundo pós-covid-19 requer.

Estamos vivendo juntos em uma aldeia global, e é apenas por meio do diálogo interativo, nós nos entendendo e nos respeitando, que podemos criar o clima necessário para um mundo pacífico e sustentável.

*FUNDADOR E CHAIRMAN EXECUTIVO DO WORLD ECONOMIC FORUM

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