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JP Morgan parte em socorro

No que pode ser a frase definitiva sobre nossa crise econômica, entrevistado no programa "Squawk Box" da CNBC, este mês, Warren Buffet disse que a economia dos Estados Unidos "despencou num abismo". O mais creditado investidor da história foi ao ar para falar, com a franqueza e humor característicos, a horrível verdade que já conhecemos muito bem, possivelmente para tentar acalmar as coisas e dar algumas respostas que não sabemos ainda.E ele prosseguiu, dando sua opinião sobre o que deu errado ("todos achavam que os preços dos imóveis só iriam subir...de modo que você tinha US$ 11 trilhões de dívida de hipotecas residenciais gerada com base nesta teoria"), sobre o medo e a confusão que estão paralisando as pessoas e sobre a necessidade de sanear os bancos e adotar uma ação clara, decisiva. Um exame da maneira como foi conduzida outra crise financeira um século atrás realça esse argumento em favor de uma ação decisiva.No início de 1906, o banqueiro Jacob Schiff disse a um grupo de colegas que, se os Estados Unidos não modernizassem os sistemas monetário e bancário, a economia, iria cair num abismo e o país "entraria em tamanho pânico, a ponto de outros pânicos anteriores parecerem "peça infantil".Mas o país não reformou suas instituições financeiras, e as condições pioraram continuamente nos 20 meses seguintes. Houve falta de crédito global. O mercado de ações entrou duas vezes em colapso. A jovem Média Industrial Dow Jones perdeu metade do seu valor.Em outubro de 1907, quando o pânico se instalou em Nova York e aterrorizou os depositantes, que fizeram filas para tirar o dinheiro, a previsão lúgubre de Schiff parecia se tornar verdade. Os Estados Unidos não tinham um Federal Reserve, o secretário do Tesouro não tinha autoridade política, e o presidente, Theodore Roosevelt, estava caçando na Louisiana. J. Pierpont Morgan, um banqueiro de 70 anos, se encarregou da situação. Na ausência de um banco central, Morgan durante décadas funcionou como instituição de empréstimo não oficial do país, juntando reservas e fornecendo capital aos mercados em períodos de crise. Durante duas angustiantes semanas, em 1907, ele agiu como um general, mobilizando três jovens lugares-tenentes para fazer o trabalho de campo, suprindo-o com informações, e trazendo para seu lado dois banqueiros importantes: James Stillman, do National City Bank, e George Baker, do First National Bank, que formaram um "trio" que tomava as decisões executivas. (O First National e o National City acabaram se unindo, para formar o que é hoje o Citigroup - Baker e Stillman não estariam se contorcendo no túmulo ao ver no que acabou se tornando o descendente das suas instituições?) As equipes de Morgan fizeram "testes de estresse" com os trustes financeiros não regulamentados, para saber quais estavam muito endividados e teriam de falir e quais estavam saudáveis, apesar de avariadas. Uma vez determinado que uma instituição estava saudável, os banqueiros emprestavam dinheiro, casando dólares com os ativos colaterais da instituição.Quando a Bolsa de Nova York quase fechou num certo dia de outubro de 1907, porque as instituições financeiras resgatando empréstimos estavam asfixiando a base monetária, Morgan reuniu os presidentes dos maiores bancos de Nova York e propôs emprestar US$ 24 milhões à bolsa. Em seguida, a cidade de Nova York ficou sem caixa e eles levantaram um empréstimo de US$ 30 milhões e evitaram a insolvência.No final da primeira semana, o presidente Roosevelt enviou carta à imprensa congratulando-se com os "abastados empresários que, nesta crise, agiram com grande sabedoria e espírito público". Carregamentos de ouro estavam a caminho de Nova York e a confiança voltou "devido"- informava o jornal - "à crença de que homens de peso das finanças americanas tiveram sucesso nos esforços para reprimir o espírito de pânico". No final da segunda semana, Morgan reuniu 50 presidentes de trustes financeiros em sua biblioteca, trancou as portas e não permitiu que saíssem enquanto não assinassem um empréstimo de US$ 25 milhões. Embora Morgan tivesse um enorme sentido de dever público, seu interesse pessoal também operava em escala nacional. Seus clientes - muitos deles europeus que, durante décadas, investiram na emergente economia americana por meio da House of Morgan - tinham bilhões de dólares nos Estados Unidos. Ao cuidar dos interesses a longo prazo desses clientes, tentando controlar os excessos do ciclo econômico e manter o valor do dólar, Morgan servia como guardião do crédito americano nos mercados internacionais.Em 1907, seu poder derivava não só do tamanho da fortuna pessoal, mas da confiança depositada nele por investidores, outros banqueiros e estadistas internacionais. Após a sua morte em 1913, os jornais informaram que a fortuna líquida deixada por ele era de US$ 80 milhões - cerca de US$ 1,7 bilhão em dólares de hoje. Dizem que John D.Rockefeller, que já tinha uma fortuna de US$ 1 bilhão de 1913, ao saber daquela cifra, balançou a cabeça e observou: "E pensar que ele nem era rico".A confiança em Morgan não era universal. Em 1907, alguns críticos o acusaram de ter iniciado o pânico para comprar os ativos a preços de liquidação e encher os bolsos. Na verdade, os bancos de Morgan perderam US$ 21 milhões naquele ano. Hoje, a grande dificuldade de atribuir valores em dólar para ativos "tóxicos" faz com que o trabalho de Morgan pareça fácil. Mas, embora o volume de dinheiro exigido para os pacotes de socorro financeiro em 1907 seja um mero trocado em comparação com os atuais trilhões, na época as dificuldades, e as cifras, eram enormes.Hoje, com os mercados em colapso, ninguém, muito menos um banqueiro privado, conseguirá assumir o tipo de poder exercido por Morgan cem anos atrás. E até agora, nem mesmo a junção de poderes oficiais do Fed e do Tesouro conseguiu conter os desastres em cascata.Paul Volcker, ex-chairman do Federal Reserve, disse que não consegue se lembrar de uma época "talvez nem mesmo na Grande Depressão, em que as coisas decaíram de modo tão rápido em todo o mundo".Talvez uma nova liderança econômica surja nesta crise, sob o nosso talentoso e carismático presidente. Parece provável que ela vá se constituir de pessoas que tenham o tipo de experiência, julgamento e autoridade de Morgan - possivelmente um novo "trio", formado pelo atual chairman do Fed, Ben Bernanke, Paul Volcker e Warren Buffett.Buffett disse que podia "garantir" que em cerca de cinco anos "nossa grande máquina econômica" estará funcionando muito mais rápido do que agora, com o governo assumindo enorme papel na rapidez com que ela vai se recuperar.No outono do ano passado ele declarou que estávamos atravessando um "Pearl Harbor econômico". Na semana passada, ele disse que, para combater esta guerra econômica, o país tem de se unir em apoio ao presidente Obama, o governo tem de enviar "mensagens muito claras" e nós temos de nos concentrar em três tarefas: vencer a guerra econômica; vencer a guerra econômica; vencer a guerra econômica.É exatamente isso que Morgan teria dito. *Jean Strouse é diretor do Cullman Center for Scholars and Writers, na Biblioteca Pública de Nova York

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