Neil Hall / Reuters
Neil Hall / Reuters

JPMorgan vê 80% de chance de aprovação da reforma da Previdência

A probabilidade leva em conta uma economia pelo menos semelhante à proposta do ex-presidente Michel Temer, de cerca de R$ 550 bilhões em dez anos

Célia Froufe, correspondente, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2019 | 10h39

LONDRES - O JPMorgan promoveu uma série de mudanças em suas previsões para a economia brasileira neste ano e avaliou que a "janela de oportunidade está aberta", ao revisar seu cenário para 2019. A instituição prevê agora que há 80% de chance de que o governo aprove "pelo menos uma modesta reforma da Previdência Social", ainda que conte com dificuldades nas negociações, principalmente no Senado.

Entre os ajustes promovidos pela instituição em relação a novembro estão variáveis como inflação (de 4,2% para 3,8%), dólar (de R$ 4,1 para R$ 3,9), Selic (de 8,25% ao ano para 6,5% ao ano), déficit em conta corrente (de 1,2% do PIB para 1,3% do PIB) e dívida bruta (de 78,8% do PIB para 77,3% do PIB). O banco manteve sua expectativa de expansão do PIB deste ano em 2,3%, mas já adiantou que, para o ano que vem, ampliou sua perspectiva para 2,5%.

"Em novembro, tínhamos a visão de que as perspectivas domésticas no Brasil eram animadoras, notadamente a expectativa de aprovação de uma reforma previdenciária, mas o cenário global justificava cautela. Eventos recentes nas frentes externa e doméstica nos deixaram mais otimistas no curto prazo e decidimos rever nosso cenário econômico para 2019", explicaram os economistas da instituição no Brasil Cassiana Fernandez, Vinícius Moreira e Cristiano Souza, em relatório enviado a clientes, depois da escolha dos presidentes da Câmara e do Senado.

Eles salientaram que houve diminuição dos riscos globais. Em particular, as perspectivas de condições financeiras melhoraram, já que o escritório da instituição nos EUA prevê agora apenas dois aumentos da taxa de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) no segundo semestre do ano, ante perspectiva anterior de quatro elevações. A dinâmica do comércio EUA-China também progrediu bem, segundo os analistas.

Do lado doméstico, o relatório salientou que também houve melhora na margem, especialmente após a escolha de Rodrigo Maia como presidente da Câmara, já que ele é favorável às reformas. Em relação ao Senado, os economistas avaliaram que a situação para o governo parece mais desafiadora após a eleição de Davi Alcolumbre (do centro-direita DEM, mesmo partido de Maia). "A ascensão de Alcolumbre foi impulsionada pelo ministro-chefe da Casa Civil de Bolsonaro, em um processo eleitoral controverso e longo que pode ter dividido setores que serão necessários para apoiar as reformas", consideraram, citando, respectivamente, Ônix Lorenzoni e Jair Bolsonaro.

Apesar da falta de detalhes até agora, o JPMorgan ressaltou que a equipe econômica do governo sinalizou a proposta de alta qualidade na agenda econômica, reiterando a autonomia do ministro da Economia, Paulo Guedes. "Ainda assim, o diabo estará nos detalhes e o risco de execução permanece na mente de todos", observaram. Os 80% de probabilidade da instituição levam em conta uma economia pelo menos semelhante à proposta do ex-presidente Michel Temer, de cerca de R$ 550 bilhões em dez anos. Com a vitória de Maia, o banco também acredita em uma aprovação da reforma mais cedo: no segundo trimestre na Câmara e no terceiro trimestre, no Senado.

Esse cenário mais positivo na política terá reflexos na economia, de acordo com os analistas. Por isso, revisaram suas projeções para a maioria das variáveis macroeconômicas brasileiras - cada uma das mudanças foi justificada em análises detalhadas promovidas pelos profissionais. Eles alertaram, porém, que, apesar do cenário base estar mais positivo, os riscos permanecem elevados. Um dos destaques é o de que a aprovação das propostas de reforma é altamente dependente da liderança de Bolsonaro e da opinião pública, já que o processo de votação no Senado no fim de semana revelou dificuldades para formar maioria em um Congresso fragmentado.

O outro diz respeito ao impacto de investigações sobre o capital político do presidente, que pode colocar em risco a aprovação da agenda. "Em particular, uma investigação envolvendo o filho de Bolsonaro - cujas transações financeiras têm estado sob investigação recentemente - poderia minar a popularidade do presidente e, possivelmente, afetar a votação sobre a reforma da Previdência Social", pontuaram em referência ao senador Flávio Bolsonaro.

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