Juro alto é ''anomalia'', diz Mantega

Para ministro, taxa de juros brasileira deve ser reduzida para o mesmo nível de outros países emergentes

Sérgio Gobetti, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

29 de maio de 2009 | 00h00

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse ontem que a taxa de juros do País é uma "anomalia" e deve ser reduzida para o mesmo nível de outros países emergentes. "Há uma situação de anomalia do ponto de vista dos juros, embora estejamos caminhando para uma normalidade", disse o ministro em audiência pública no Senado, enviando um recado ao Banco Central, que se reúne em duas semanas para definir a nova taxa Selic. Acompanhe a evolução da Selic no governo Lula"Agora que a inflação está baixa, nos próximos dois anos o Brasil deverá ter taxa básica semelhante à de países com as mesmas condições que as nossas", disse Mantega, acrescentando que a "alta" Selic ainda é um problema a se resolver para sair mais rapidamente da crise. Atualmente, a taxa real de juros de longo prazo (ou seja, descontando a inflação para os próximos 12 meses) está em cerca de 5,5% ao ano, nível mais baixo da história recente. Nas estatísticas internacionais, entretanto, é o segundo porcentual mais alto do mundo, só perdendo para a Turquia. Analistas de mercado, entretanto, questionam se o BC poderá manter o ritmo de queda das últimas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) e se a taxa de juros não precisará crescer depois da crise, quando a economia voltar a se aquecer. Argumentam que, além dos riscos de inflação, o Brasil ainda apresentaria "anomalias" fiscais que impediriam o País de conviver com juros "normais", referindo-se a níveis ainda elevados de gastos públicos e carga tributária. Na quarta-feira, o próprio Meirelles disse que ainda é cedo para saber quanto da atual queda é "estrutural" e quanto é "conjuntural", e avisou que o BC continuará pautando suas decisões estritamente por parâmetros "técnicos". Para Mantega, as críticas ao aspecto fiscal não se justificam, já que o Brasil é um dos poucos países cuja dívida pública não subirá expressivamente por causa da crise. Segundo a agência de risco Standard & Poor?s, o endividamento bruto dos EUA crescerá de 52% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2008 para 79% do PIB ao fim de 2010, enquanto no Brasil a dívida ficaria estável em torno de 58% do PIB. "Reduzimos o superávit primário em 2009 para poder fazer uma política anticíclica e ainda assim nosso resultado nominal (diferença global entre receitas e despesas, incluindo juros) será o segundo melhor do G-20", disse o ministro, citando números da revista Economist, que projeta um déficit de 2,1% do PIB para este ano no Brasil. Nos Estados Unidos, a estimativa é de que o déficit nominal chegue a 13,7% do PIB, no Reino Unido, 11,3% e na China, 3,6%. "Se não fosse a crise, estaríamos perto do déficit zero, mas, com a crise, se não fizéssemos uma política anticíclica, a situação ficaria pior", disse Mantega. Segundo o ministro, hoje só existe um empecilho para reduzir os juros, que seria o piso de remuneração da poupança, de 6,17% ao ano. Ele disse que a atual forma de cálculo dos rendimentos da poupança é um resquício da indexação que precisa ser eliminado do sistema financeiro. Em relação à valorização do real ante o dólar, Mantega disse que é preciso olhar os "dois lados da moeda": o positivo, que reflete a confiança na economia brasileira, e o negativo, dado pela queda na competitividade das exportações brasileiras. "Mas não recomendo mudanças do regime cambial. O câmbio flexível é o melhor", frisou. COLABORARAM: RENATA VERÍSSIMO E CÉLIA FROUFE FRASEGuido MantegaMinistro da Fazenda"Agora que a inflação está baixa, nos próximos dois anos o Brasil deverá ter taxa básica semelhante à de países com as mesmas condições que as nossas"

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.