Juro alto e real forte prejudicaram desempenho da indústria

A depreciação do dólar frente ao real e as altas taxas de juros são apontados como os principais motivos para a reversão no quadro de estabilidade na produção industrial para um cenário de perda de ritmo da atividade. De acordo com a gerente de pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Isabella Nunes, o mês de setembro confirma a perda de ritmo da indústria. Ela avalia que alguns segmentos vinculados a bens de consumo duráveis e não duráveis estão tendo dificuldades de enfrentar a concorrência gerada pelo aumento das importações ou a perda de competitividade com as exportações. Como exemplo, ela citou eletrodomésticos e calçados. O diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos (Depecon) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Francini, também credita às políticas de juros e câmbio conduzidas pelo Banco Central a responsabilidade pela queda de 2% da produção industrial de setembro, ante agosto. "A indústria vive um ambiente extremamente hostil, com os juros absurdos e a valorização do real, que já atinge a R$ 2,19 por dólar, comprometendo diretamente as exportações. É muito expressiva a queda de 2% apresentada hoje pelo IBGE", observou Francini à Agência Estado. Crise política A crise política e seus efeitos negativos sobre a confiança do consumidor foram apontados também como fatores responsáveis pela perda de ritmo da produção industrial em setembro. A opinião é de Roberto Padovani, da Tendências. Para ele, a queda de 8,9% na produção de bens duráveis ante agosto foi "um desastre" e está diretamente relacionada à redução na confiança do consumidor, em conseqüência do "bombardeamento" da crise na mídia. Padovani argumenta que o único indicador recente em queda, capaz de influenciar a produção, é a confiança do consumidor, já que o crédito prossegue em expansão e a renda está em recuperação. Perspectivas Para Francini, o dilema vivido pelo BC, a partir deste mês, estará entre manter o gradualismo no corte da Selic, a taxa básica de juros da economia, ou apressar a diminuição dos juros básicos. "Se fosse eu, daria uma guinada nos juros a partir deste mês, porque a curva de produção é declinante e começa a comprometer o primeiro trimestre do próximo ano", argumentou. Francini sugere que, já na reunião deste mês, o Comitê de Política Monetária do BC reduza a Selic em 1,5 ponto porcentual. "O Banco Central diz que os efeitos das mudanças na Selic se dão num prazo de seis meses. Portanto, as condições presentes vão dar resultado a partir do próximo ano", salientou.

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