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Juro alto reduz atratividade de investimento em inovação no Brasil

Produtividade depende de políticas públicas duradouras e não contraditórias

Karla Spotorno, O Estado de S. Paulo

26 Maio 2015 | 07h00

Abrir mão da classificação de economia altamente fechada é apenas um passo para o Brasil fomentar a melhora da produtividade. Outro é reduzir o prêmio de risco de investir no Brasil. Com os juros nominais mais altos em um conjunto de 30 países do G-10, da Ásia e da América Latina, o Brasil impõe naturalmente uma dificuldade para o empresário. Para se mexer, o empreendedor precisa acreditar que vai lucrar mais investindo em um projeto inovador do que colocando seu dinheiro em títulos públicos. "Aula clássica de industrialização. O negócio do empresário é ganhar dinheiro. Não é ser produtivo. Ele vai ser mais produtivo se essa for a melhor maneira de ele ganhar dinheiro", diz o economista-chefe do Banco Fator e professor da FEA-USP, José Francisco de Lima Gonçalves.

Sendo assim, a política monetária brasileira tem, em certa medida, influenciado historicamente o baixo investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D). Segundo a mais recente Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec) do IBGE, a indústria investe 5% em P&D. "A inovação é naturalmente uma atividade arriscada. Além de o risco ser grande, o retorno do investimento acaba indo para toda a sociedade", afirma Fernanda, do Ipea. Ela exemplifica. O retorno social da invenção de um computador é muito maior do que o retorno do empresário. Por isso, o Estado teoricamente investiria bastante em inovação e novas tecnologias, como ocorreu escancaradamente na Coreia do Sul, benchmark habitualmente citado por especialistas pró-abertura de mercado.

Não só a política macroeconômica, mas iniciativas do governo também podem desestimular o investimento em inovação e P&D. Fernanda dá como exemplo uma contradição entre o programa Inova Empresa da Finep, empresa pública ligada ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), cuja missão é estimular P&D, e o Programa de Sustentação do Investimento (PSI), voltado para fomentar renovação de frotas e bens de capital. "Houve um período, em 2012, que o governo brasileiro cobrou das linhas 'procaminhoneiro' e 'bens de capital' taxa de 2,5% enquanto, nesse mesmo período, as linhas de inovação (da Finep) operavam a 4%", diz a diretora do Ipea. "Ora, porque alguém se arriscaria em um projeto de inovação tecnológica se era mais barato comprar tecnologia já conhecida?", questiona a pesquisadora.

Imprevisibilidade. O caráter mutável das regras e programas federais também atrapalha, na avaliação de Fonseca, da CNI, e do coordenador executivo do Fórum de Economia da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo (FGV-SP), Nelson Marconi."É ruim quando o governo lança uma política e depois volta atrás", diz Marconi. Fonseca dá como exemplo a desoneração da folha de pagamento. A redução dos impostos surgiu para alguns setores em 2011. Depois foi ampliada, tornou-se permanente e agora está prestes a ser extinta como forma de cumprir a meta de ajuste fiscal. "Como o empresário sabe que vai ter a redução de custo por apenas um período, ele não faz o investimento", afirma Fonseca.

É como Fernanda, do Ipea, afirma: "Tudo na vida econômica é questão de incentivo". Mas depende do incentivo e da firmeza do estímulo. Entre 2011 e 2014, o governo federal anunciou 64 medidas, segundo levantamento da gestora Quantitas. Foram iniciativas micro e macroeconômicas com a capacidade de gerar uma repercussão grande, média ou pequena. O resultado de tanto esforço é conhecido. O PIB brasileiro cresceu 0,1% em 2014, e a projeção mediana da pesquisa Focus para 2015 é de uma contração de 1,20%.

Marconi, da FGV-SP, afirma que "nada deu certo" porque, em parte, os preços de juros e câmbio estão fora de lugar. "Os países asiáticos fizeram políticas industriais e se desenvolveram porque os preços macroeconômicos estavam no lugar", diz o professor. No Brasil, a história é um pouco diferente. 

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