Juro baixo e novo ETF são aposta para fundos de índice

ETFs cresceram em velocidade maior do que a indústria de fundos, mas participação ainda é pequena

Jéssica Alves, O Estado de S.Paulo

28 Maio 2018 | 04h00

Desprestigiado na prateleira de investimentos do brasileiro, os ETFs (Exchange Traded Funds, no termo em inglês) podem ganhar um novo ânimo ainda este ano. Com o lançamento do edital do ETF de renda fixa pelo Tesouro e o mercado financeiro mais competitivo por causa dos juros baixos, a chance de alavancar esse fundo é promissora, mas ainda engatinha nessa trilionária indústria. 

O ETF nada mais é do que um fundo de investimento que espelha o desempenho de índices e que são negociados em bolsa de valores, como se fossem papéis de uma empresa. Atualmente, existem no País apenas 15 ETFs, todos atrelados à renda variável. O primeiro ETF brasileiro de renda fixa, será apoiado pelo Tesouro Nacional e produzido em parceria com o Banco Mundial, para fomentar o desenvolvimento do mercado de capitais em economias emergentes. 

Segundo levantamento feito pelo Itaú Asset Management e obtido pelo Estado, a indústria de ETFs no Brasil cresceu 1,5 vez o que avançou a indústria de fundos desde 2010. O crescimento dos ETFs foi de 18% enquanto a indústria total cresceu 12%. Esse patrimônio, porém, é menos de 0,5% dos R$ 4,5 trilhões movimentados pela indústria de fundos (ver gráfico). 

Do ponto de vista do cenário econômico, Renato Tucci, responsável pela área ligada às ETFs do Itaú Asset Management, explica que nos últimos anos, a alta dos juros beneficiou os investimentos de renda fixa e pode ter tirado o espaço para esse e outros investimentos mais sofisticados. Com a conjunção de um período de juros mais comportados, maturidade do investidor e esse novo produto sendo um canal diferente para acessar os já conhecidos títulos do Tesouro, a tendência é de esse mercado destravar, segundo Tucci.

Participação. Para o professor da Fundação Getúlio Vargas, Willian Eid, a participação acanhada dos ETFs na carteira do investidor tem duas explicações diretas. Primeiro, o baixo número de pessoas com acesso a Bolsa. O dado mais recente da B3 mostra que existem 663 mil pessoas físicas cadastradas, porém, Eid acredita que o número dos que de fato operam é muito menor, talvez até menos da metade, e isso, segundo ele, diminui muito o público apto para fazer os ETFs decolarem. 

O segundo motivo está ligado ao canal de distribuição e a usabilidade. Para o professor da FGV, o fato de os ETFs serem operados na Bolsa via homebroker de uma corretora, ainda é visto como um obstáculo para o pequeno investidor brasileiro, acostumado com a poupança e os fundos sugeridos pelo gerente do banco. Mas Eid acredita que essa visão aos poucos tem mudado com a queda de juros. Em 12 meses, o número de pessoas que compraram cotas de ETFs subiu 32%.

“Ninguém quer ter trabalho. Para avançar tem de ser fácil e simples”, resume Eid. Por isso ele acredita que o gestor do novo ETF deve ser alguma instituição conhecida dos brasileiros para agir justamente nessa frente. No páreo estão Caixa, Itaú, Banco do Brasil e a asset BlackRock, que já possuem ETFs de renda variável no mercado. 

O desenvolvimento dos ETFs também esbarra numa indústria onde reinam os produtos financeiros que incentivam o vendedor, oferecidos sobretudo por bancos, aponta Felipe Sotto-Maior, presidente da Vérios. “Nosso mercado financeiro é estruturado na lógica de venda de produto e remuneração em cima dessa venda, o chamado rebate. Então, o gerente do banco ou os agentes autônomos recebem pelo aconselhamento do cliente, mas quem remunera não é ele, mas sim o produto que ele compra”, explica. Como os ETFs não têm essa vantagem, eles acabam desprestigiados. 

Para Luciano Tavares, fundador da Magnetis, o lançamento do ETF de renda fixa vai destravar essa categoria e complementar a prateleira de produtos, especialmente para quem gosta da garantia dessa classe. “É uma tendência mundial e o mesmo deve acontecer aqui. À medida que chega um novo produto como esse, aumentam os investidores na Bolsa e, no caso da renda fixa, complementam os outros produtos, como o Tesouro fez com os fundos em 2002.”

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