Juro de banco público 'cola' no de banco privado

Com aumentos da Selic e sem capitalização do Tesouro, instituições têm elevado taxas

MURILO RODRIGUES ALVES, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2015 | 02h01

BRASÍLIA - Escolhidos pela presidente Dilma Rousseff para liderar a cruzada da redução dos juros em 2012, os bancos públicos têm elevado as taxas cobradas de seus clientes em ritmo superior aos concorrentes privados. Como consequência, é cada vez mais curta a distância entre as taxas cobradas nos empréstimos do Banco do Brasil (BB) e da Caixa Econômica Federal e a banca privada.

Com os sucessivos aumentos da Selic, e sem sinal de novas capitalizações pelo Tesouro Nacional, o governo não teve como pressionar os bancos públicos a seguir caminho distinto dos privados - na semana passada, o Banco Central elevou, pela terceira vez consecutiva, os juros básicos da economia a 12,25% ao ano. Mas segue, no entanto, o entendimento de que as taxas cobradas por Caixa e BB não podem superar os juros praticados na concorrência.

A diferença entre as taxas dos bancos públicos e privados caiu, principalmente, nas linhas em que Caixa e BB mais reduziram as taxas em 2012, segundo levantamento do Estado. Um dos exemplos é o cheque especial. Em abril de 2012, antes da campanha pelos juros baixos, a Caixa cobrava 75% da taxa do Bradesco e o BB, 97%. Na última semana daquele ano, os juros da Caixa no cheque especial recuaram para menos de 40% do cobrado por Bradesco. No BB, caiu a 49%. Agora, na primeira semana de 2015, a Caixa estava cobrando 66% da taxa do Bradesco e o BB, 87%.

Freio. "A realidade se encarregou de colocar um freio na política de juros baixos. Só restou aos bancos públicos trilhar o mesmo caminho dos concorrentes. Se não fizessem isso, poderiam estar dando um tiro no pé", avalia Luis Miguel Santacreu, analista de bancos da Austin Ratings. Sem novas capitalizações e diante de um cenário de restrição de crédito, Caixa e BB precisam reforçar o lucro, avalia. A primeira coisa a fazer é aumentar as taxas.

Dilma colocou, em 2012, como meta de governo baixar os juros e as tarifas dos bancos. Naquela época, os juros básicos, definidos pelo Comitê de Política Monetária do BC, estavam em trajetória de queda - de outubro de 2012 a abril de 2013, vigorou a menor Selic da história: 7,25% ao ano. "A cruzada contra os juros altos não deu certo. O governo agora tem outras prioridades. Uma delas é justamente ter boa relação com o mercado financeiro", afirma Santacreu.

A presidente não conseguiu cumprir a promessa de baixar o custo do crédito no País. Além da alta da Selic, o governo dobrou o IOF cobrado para o crédito às famílias, de 1,5% para 3%, na semana passada.

Média. O levantamento do Estado, elaborado com dados do BC, com base em uma média das taxas cobradas pelos bancos pelo volume emprestado em cinco dias úteis, mostra que BB e Caixa mais que dobraram as taxas cobradas no cheque especial de dezembro de 2012 até a primeira semana deste ano (ver quadro acima). Na prática, isso significa que, no uso de R$ 1 mil no cheque especial por 20 dias, o BB cobra R$ 22,87 mais de juros, seguido da Caixa (R$ 19,40). No Itaú, a elevação foi de R$ 11,27 e no Bradesco, R$ 6,80. A simulação foi feita por Miguel José Ribeiro de Oliveira, da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade.

Produtos. Em outros produtos, as taxas dos bancos públicos também subiram acima das dos privados, mas, de forma geral, os menores juros ainda são os da Caixa, seguidos pelos cobrados pelo BB. . Como exemplo, a Caixa foi obrigada, inclusive pelas condições do mercado, a aumentar os juros do crédito imobiliário, que ficaram congelados por mais de um ano.

O BB diz que a estratégia de liderar o movimento de baixa dos juros em 2012 deu certo, mas que foi preciso se readequar diante de um cenário distinto com maior custo de captação. A Caixa foi procurada pela reportagem, mas não quis se pronunciar.

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