Juro deve continuar a cair no longo prazo; no curto, pode repicar

Juro deve continuar a cair no longo prazo; no curto, pode repicar

A queda das taxas de juros, dos spreads e da inadimplência em fevereiro mostra que continua em marcha o processo de melhora econômica que tem impacto direto na vida e no nível de satisfação do brasileiro médio. Desta vez, a redução do juro médio no chamado segmento "livre" veio depois de dois meses de repique, o que até surpreendeu positivamente alguns analistas. Além disso, houve a ótima notícia de que o juro médio e o spread para as pessoas físicas alcançaram uma baixa recorde desde julho de 1994, início da série.

Análise: Fernando Dantas, O Estadao de S.Paulo

24 de março de 2010 | 00h00

Numa perspectiva de maior prazo, esse processo de normalização do crédito no Brasil - que ainda tem um custo real espantosamente caro se for feita uma comparação internacional - deve prosseguir. No curto e médio prazos, porém, o cenário é mais complicado: o mercado crê que a Selic, a taxa básica de juros, inicie um movimento de alta em abril, e há o recolhimento de R$ 71 bilhões de compulsório, cujos efeitos já devem se fazer sentir nos indicadores de crédito de março.

Para se analisar os juros ao tomador final, é bom pensar nos seus dois componentes. Há o custo de captação dos bancos, que está ligado a uma "curva" de juros desse segmento do mercado de dinheiro, expressando as diferentes taxas para os diferentes prazos. É há o spread, onde se amontoam vários subcomponentes: todo o custo não financeiro da operação bancária, uma gordura calibrada para compensar as perdas com a inadimplência e, é claro, o lucro.

Armando Castelar, economista do Gávea Investimentos, acha que existem três fatores que sustentam um movimento de longo prazo de quedas dos spreads no Brasil. O primeiro é uma tendência de crescimento relativo das operações de crédito para pessoas físicas com menos riscos e mais garantias, como o consignado, o financiamentos de veículos e (de forma ainda modesta)o crédito imobiliário, vis-à-vis as modalidades mais caras e arriscadas, como cheque especial e crédito pessoal. O efeito dessa migração, claro, é reduzir o spread médio.

O segundo fator é a queda da inadimplência, que reduz o risco de crédito e, portanto, deve levar à queda dos spreads. E há, finalmente, a força da competição. Os bancos privados, que ficaram muito retraídos durante boa parte do ano passado, pelos efeitos da crise global, agora estão voltando com sede ao pote de crédito. E, nessa tarefa, têm de acompanhar o movimento de redução de spreads iniciado pelos bancos públicos - no caso do segmento livre, basicamente Banco do Brasil e Caixa - em plena crise, como parte da política anticíclica.

Alexandre Pavan Póvoa, diretor do Modal Asset Management, resume bem essa história: "Os bancos públicos entraram para apagar incêndio, e não só não quebraram a cara como o negócio deu certo; agora, para reconquistar market-share, os privados têm que baixar os seus spreads também".

Em relação ao custo de captação, Castelar observa que não é tão óbvio que ele vá subir com a alta da Selic, já que está ligado à "curva de juros", que já embute a expectativa do mercado sobre a trajetória futura da taxa básica. Por outro lado, como nota Pavan Póvoa, os efeitos do recolhimento do compulsório devem se fazer sentir em março, encarecendo o custo do dinheiro.

No curto prazo, o juro pago por um cidadão comum ou por uma pequena empresa vai se movimentar de acordo como a resultante de pressões baixistas, como a competição bancária, e altistas, como o compulsório e/ou um eventual deslocamento para cima da curva de juros da captação bancária. No longo prazo, porém, a se apostar no bom gerenciamento da economia brasileira, a tendência do juro é para baixo - na direção do que seria aceitável para um país normal, como o Brasil deveria ser.

FERNANDO DANTAS É REPÓRTER ESPECIAL DE ECONOMIA DE O ESTADO DE S. PAULO

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