Marcos Santos/USP Imagens
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Juro do rotativo do cartão de crédito dá salto em outubro e chega a 317,5%

Na crise, famílias passaram a usar mais a modalidade e o cheque especial, fazendo aumentar o risco de inadimplência para os bancos

Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2020 | 11h18

BRASÍLIA - Com as famílias em dificuldades para fechar as contas durante a pandemia de covid-19, em meio à retração da atividade e ao desemprego, o juro médio total cobrado pelos bancos no rotativo do cartão de crédito subiu 7,8 ponto porcentual de setembro para outubro, informou nesta sexta-feira, 27, o Banco Central. A taxa passou de 309,7% para 317,5% ao ano.

Os dados são influenciados pelos efeitos da pandemia, que colocou em isolamento social boa parte da população, reduzindo a atividade das empresas e elevando o desemprego. Com a carência de recursos, as famílias aumentaram a demanda por algumas linhas de crédito nos bancos. 

O rotativo do cartão, juntamente com o cheque especial, é uma modalidade de crédito emergencial, muito acessada em momentos de dificuldades. Ele pode ser acionado por quem não pode pagar o valor total da fatura na data do vencimento, mas não quer ficar inadimplente. A recomendação de especialistas, no entanto, é pagar todo o valor da fatura, mesmo que para isso precise recorrer a outras linhas bancárias, mais baratas.

Isso porque o juro do rotativo é uma das taxas mais elevadas entre as avaliadas pelo BC. Dentro dessa rubrica, a taxa da modalidade rotativo regular passou de 268,1% para 285,7% ao ano de setembro para outubro. Nesse caso, são consideradas as operações com cartão rotativo em que houve o pagamento mínimo da fatura.

A taxa de juros da modalidade rotativo não regular passou de 336,8% para 339,4% ao ano. O rotativo não regular inclui as operações nas quais o pagamento mínimo da fatura não foi realizado.

No caso do parcelado, ainda dentro de cartão de crédito, o juro passou de 142,0% para 148,6% ao ano. Considerando o juro total do cartão de crédito, que leva em conta operações do rotativo e do parcelado, a taxa passou de 62,4% para 61,2%.

Em abril de 2017, começou a valer a regra que obriga os bancos a transferir, após um mês, a dívida do rotativo do cartão de crédito para o parcelado, a juros mais baixos. A intenção do governo com a regra era permitir que a taxa de juros para o rotativo do cartão de crédito recuasse, já que o risco de inadimplência, em tese, cai com a migração para o parcelado.

Atualmente, porém, o risco de inadimplência aumentou, justamente porque muitas famílias estão enfrentando redução de renda, na esteira da pandemia.

Cheque especial

A taxa do cheque especial caiu em outubro, de 114% para 112,9% ao ano, mas continua muito acima da do crédito pessoal, por exemplo. Mesmo aumentando no mês passado, o custo do crédito pessoal está, em média, em 31,7% (contra 29,4% de setembro).

Desde julho de 2018, os bancos estão oferecendo um parcelamento para dívidas no cheque especial. A opção vale para débitos superiores a R$ 200. Em 6 de janeiro de 2020, o BC passou a aplicar uma limitação dos juros do cheque especial, de 8% ao mês (151,82% ao ano).

Os dados divulgados nesta sexta refletem uma revisão realizada na série histórica do Banco Central. De acordo com a autarquia, os números passaram a considerar o fato de alguns bancos cobrarem juro no cheque especial apenas após dez dias de atraso no pagamento da fatura. Antes, era considerado todo o período de atraso. Essa mudança fez com que o nível do juro no cheque especial, na nova série histórica, fosse menor em anos anteriores.

Para aquisição de veículos, os juros foram de 18,6% ao ano em setembro para 18,9% em outubro. A taxa média de juros no crédito total, que inclui operações livres e direcionadas (com recursos da poupança e do BNDES), foi de 18,1% ao ano em setembro para 18,7% ao ano em outubro. Em outubro de 2019, estava em 23,5%.

O Indicador de Custo de Crédito (ICC) caiu 0,1 ponto porcentual em outubro ante setembro, aos 17,3% ao ano. O porcentual reflete o volume de juros pagos, em reais, por consumidores e empresas no mês, considerando todo o estoque de operações, dividido pelo próprio estoque. Esse indicador reflete a taxa de juros média efetivamente paga pelo brasileiro nas operações de crédito contratadas no passado e ainda em andamento.

Crédito

De acordo com o BC, o volume total do crédito oferecido pelas instituições financeiras cresceu 1,4% no mês passado, para R$ 3,871 trilhões. Em setembro, o estoque de crédito bancário estava em R$ 3,819 bilhões. Em 12 meses, houve alta de 14,5%.

O BC informou ainda que o total de operações de crédito em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) foi de 52,8% para 53,4% na passagem de setembro para outubro.   

As projeções do BC, atualizadas no Relatório Trimestral de Inflação (RTI) de setembro, indicam expansão de 11,5% para o crédito total em 2020. A projeção para o crédito livre em 2020 é de alta de 12,5%. Já expectativa para o crédito direcionado é de elevação de 10,1%

As concessões totais de crédito somaram R$ 353 bilhões em outubro, o que representa uma queda de 0,6% na comparação com o mês anterior.

Em 12 doze meses até outubro, o crescimento da carteira total acelerou de 13,4% para 14,5%, informou o BC. Esse patamar está acima da última estimativa da instituição para o aumento do crédito bancário em todo ano de 2020, que é de 11,9%. Também representa forte aceleração frente ao registrado em 2019 (+6,5%).

No acumulado deste ano, o aumento no crédito bancário está relacionado às medidas adotadas pelo Banco Central para liberar às instituições financeiras mais recursos destinados a empréstimos em meio à pandemia do novo coronavírus.

Em outubro, os números oficiais mostram que volume de crédito ofertado pelos bancos para as pessoas físicas cresceu 1,7%, para um saldo total de R$ 2,2 trilhões, enquanto que a carteira de empréstimo para as empresas subiu 1%, para R$ 1,7 trilhão.

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