Juro menor leva novatos para a Bolsa

Em busca de rentabilidade mais alta, eles participam até de IPOs

Leandro Modé, O Estadao de S.Paulo

05 de dezembro de 2007 | 00h00

A trajetória de queda da taxa de juros brasileira está empurrando uma legião de investidores para a Bolsa de Valores. Prova disso foi a enorme procura de pessoas físicas pelo IPO (abertura de capital, na sigla em inglês) da Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F). No total, 260 mil CPFs foram cadastrados para disputar um naco da principal bolsa de derivativos da América Latina. A indústria de fundos de investimento é o lugar onde essa migração pode ser vista com mais clareza. Os fundos de ações e os multimercados (que mesclam na carteira ações, renda fixa e moedas, entre outros ativos) são os que mais acolheram recursos em 2007. Juntos, captaram quase 80% dos R$ 59 bilhões líquidos que a indústria de fundos recebeu até outubro. São pessoas como o administrador Cassio Salama, de 47 anos. Depois de fazer um curso no Instituto Nacional de Investidores (INI), ele se interessou pelo mercado de ações. Ao lado da mãe, da esposa e de um amigo, abriu em agosto o Clube de Investimentos da Prosperidade. A idéia vingou e o clube atraiu outras pessoas. Hoje, conta com quase 20 investidores. Eles reúnem-se todo início de mês para definir as empresas nas quais aplicarão seus recursos. "Escolhemos sempre de acordo com os princípios do INI: visando ao longo prazo e apostando em companhias com tendência de expansão." Os primeiros aportes do grupo foram modestos, de R$ 100 por pessoa. Nas últimas reuniões, atingiram R$ 200. No IPO da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), o grupo comprou o equivalente a R$ 3 mil. Animados com o resultado, eles tentaram R$ 30 mil no IPO da BM&F - mas só conseguiram R$ 1.820 por CPF em virtude do rateio feito pela Bolsa. Salama conta que o objetivo do Fundo da Prosperidade é garantir uma velhice tranqüila. Proprietário de uma casa de repouso localizada na zona sul de São Paulo, ele sabe bem do que fala. "Aqui vemos muita gente que, na terceira idade, acaba se tornando um peso para os filhos", comenta. Ele acredita que uma poupança de longo prazo em ações aumenta as chances de uma velhice tranqüila. Analistas avisam aos neófitos em Bolsa, como Salama, que muitas emoções estão reservadas para 2008, por causa das incertezas do cenário internacional. "A volatilidade que vimos em 2007 deve continuar", afirma Eduardo Castro, superintendente executivo do ABN Amro Asset Management.A crise de inadimplência no segmento de hipotecas de alto risco nos EUA afetou instituições financeiras no mundo todo. A maioria delas possuía em alguns de seus ativos papéis atrelados a essas hipotecas. Os balanços de muitos bancos relativos ao terceiro trimestre mostraram pesados prejuízos com essas operações . Hoje, há duas grandes dúvidas, ambas distantes de solução: 1) a influência da crise imobiliária sobre a atividade econômica americana e 2) se essas perdas com as hipotecas podem chegar a um nível tal que quebrem alguma instituição.Ainda assim, o bom cenário interno deve, na opinião dos especialistas, garantir mais um ano de ganhos para a Bolsa. Em grande medida, essa perspectiva positiva deve-se à previsão de novas quedas para a taxa Selic. O ABN Amro Asset Management, por exemplo, espera que o juro básico encerre 2008 em 10,25% ao ano, ante 11,25% hoje.A expectativa também é boa do ponto de vista do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). A mais recente pesquisa Focus, elaborada pelo Banco Central (BC) com base nas projeções de instituições financeiras e consultorias, prevê uma expansão de 4,33% para o País. "Com isso, as empresas continuarão a apresentar bons resultados", destaca Herculano Aníbal Alves, superintendente-executivo de Renda Variável da Bradesco Asset Management (Bram). Ele não se arrisca a fazer uma previsão numérica para o Índice Bovespa no fim de 2008, mas avalia que há espaço para uma valorização de 15%. O HSBC Investments acredita que há condições para o indicador encerrar 2008 na casa de 80 mil pontos - ou seja, uma valorização de cerca de 30% em relação ao nível atual.

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