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Juro, PIB... Qual deles?

A economia mundial está desacelerando, o que é bom para alguns países, mau para outros, mas a OCDE, que reúne as 30 economias mais desenvolvidas do mundo, quer que os bancos centrais, principalmente dos Estados e da Europa, aumentem os juros. É para combater a inflação que, segundo a própria organização estima, deverá ficar, no bloco, em 2,3% este ano. Faz ressalvas aos Estados Unidos por manterem os juros básicos em torno de 0,25%, negativos em termos reais, e elogia o Banco Central Europeu que ameaça elevá-los se os preços não recuarem.

Alberto Tamer, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2011 | 00h00

O FMI discorda. A economia mundial voltou a crescer depois da crise, mas está desacelerando. A recuperação é pequena, 4%, e instável. Não se sustenta sem novos estímulos. A própria OCDE admite em seu estudo que a economia dos 30 países do grupo deve crescer apenas 2,3% este ano. É pouco para um bloco de países que mal saíram de grande recessão na qual o PIB caiu 5%. Não se pode contar muito com os governos sufocados por dívida e déficits crescente. A solução no momento é reduzir juros para estimular a demanda e atrair investimentos privados. Esses são os fatores agora possíveis de criar emprego e sustentar o frágil crescimento econômico mundial.

Aumentar agora o juro básico nos Estados Unidos para 1% ou 1,25%, como propõe a OCDE, e também na zona do euro, é contrassenso, mesmo porque não há sinais de maior pressão sobre os preços nas duas maiores economias mundiais. A forte valorização das commodities pesou muito, mas já está sendo em parte absorvida. O petróleo chegou ao nível de US$ 115 e o mercado prevê que ficará oscilando em torno disso, mesmo com maior demanda das refinarias no último trimestre, para se preparar para o inverno do fim do ano. Pode haver surpresas, o Oriente Médio vive ainda sob tensão, mas poucos no mercado internacional falam ainda em US$ 125.

Não é prioridade. O economista-chefe do FMI, Olivier Blanchard, em seminário realizado esta semana no Rio, discordou das recomendações da OCDE, um dia após a divulgação da perspectivas para a economia mundial. Poucas vezes ele foi tão incisivo. "A inflação é um não tema para os Estados Unidos e não é uma grande tema na Europa", afirmou à imprensa. Blanchard foi mais longe. Defendeu abertamente a politica monetária do Fed (banco central americano) de juro real negativo de 0,25%, e injeção de liquidez no mercado para reativar a economia. Até quando? "Seguramente (não provavelmente) isso será ainda por mais um ano", disse ele. Mais, muito mais. Defende uma segunda rodada do Fed, de afrouxamento quantitativo, injeção direta de dólares no mercado, além dos US$ 600 bilhões já aplicados. De acordo com dados divulgados neste fim de semana pelo Fed, entre os vários tipos de operação, pode passar de US$ 2 trilhões e chegar até mesmo a US$ 3 trilhões.

Se lhe perguntassem se isso não seria uma heresia à severa ortodoxia do FMI, Blanchard talvez teria respondido: também nunca tivemos desde 1929 uma recessão nessas proporções, que surpreendeu a todos. Não tínhamos experiência. A última igual foi em 1929.

A tese do FMI é muito clara: é preciso prevenir para evitar uma nova recessão aproveitando a experiência que tivemos agora.

Em outras palavras, para o FMI os Estados Unidos estão certos, os europeus não. É um fato importante para a economia mundial porque, sozinho, o PIB americano é maior que o dos 17 países europeus que integram a zona do euro e pouco menor que os 27 da União Europeia.

Outra discordância. A OCDE teme uma desaceleração da economia chinesa com as medidas do governo para conter uma inflação de 5,8%. O FMI, não. Blanchard afirma que não há um crescimento excessivo na China. Vai desacelerar um pouco, mas deve crescer, numa estimativa realista, em torno de 7%, mesmo com medidas mais austeras do governo. O mundo poderá ainda crescer com ela, para ter um aumento do PIB mundial estimado pelo FMI e pela OCDE também em torno de 4%.

Emprego desonerado. Mas o que fazer de efetivo e imediato?

Pier Carlo Padoan, economista-chefe da OCDE, diz que é preciso "fazer uma redução temporária dos impostos sobre o emprego nos países onde a demanda é fraca (...) para evitar que o nível de desemprego atual (9%) se transforme em estrutural" e continue pesando na economia.

É o que Obama já está fazendo nos Estados Unidos, e o Brasil anuncia agora. Nesse caso, não só com o objetivo de criar mais emprego, mas reduzir o custo trabalhista que incide sobre os preços. Temos menos desemprego e mais inflação. Eles, menos inflação e mais desemprego.

São os dois temas que vão dominar a economia brasileira e mundial nos próximos meses, e que, parece, a OCDE não entendeu bem.

Em tempo. Sexta-feira foi dia de festa no Japão. A inflação voltou, 0,6% em abril, depois de dois anos e meio de deflação e estagnação econômica! Mas o ministro de Economia, Kaoro Yosano, pediu cautela e menos entusiasmo porque "ainda não saímos da recessão e não há nada apontando que a inflação vá permanecer nos próximos meses..."

A deflação pode até voltar porque o governo está pedindo que comprem títulos para financiar a reconstrução do país. Os japoneses vão consumir menos e poupar mais.

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