Juro pode frear a expansão do comércio em 2008

Alta da inflação deve levar o BC a endurecer a política monetária, afetando o principal motor das vendas

Márcia De Chiara, O Estadao de S.Paulo

22 de dezembro de 2007 | 00h00

O excelente desempenho do comércio varejista neste ano, que ampliou em quase 10% as vendas em relação a 2006, pode não se repetir em 2008. Com a perspectiva de aceleração da inflação no ano que vem e de uma política monetária mais apertada, o comércio poderá perder o principal motor do crescimento das vendas: a queda na taxa de juros.Um estudo que acaba de ser concluído pelo Programa de Administração do Varejo (Provar), em parceria com a consultoria Canal Varejo, revela que o recuo na taxa de juros ao consumidor é mais importante do que o alongamento de prazos do crediário e do que o aumento da renda na ampliação das vendas no varejo.Uma série histórica de 7 anos, de junho de 2000 a junho de 2007 - que reúne dados de vendas do comércio apuradas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de juros e prazos dos financiamentos do Banco Central (BC) e da renda do trabalhador medida pela Fundação Seade -, mostra que, para a queda de 1 ponto porcentual nas taxas de juros ao consumidor, a venda no comércio cresce 0,5%. No caso de aumento de 1% no prazo do crediário, a receita do comércio cresce 0,2%. O aumento da renda tem um efeito ambíguo nas vendas, observa o coordenador do estudo, Cláudio Felisoni. Num primeiro momento, diz ele, essa expansão amplia as vendas do comércio. Mas, num segundo momento, tem um impacto explosivo no endividamento, o que reduz o potencial de consumo a médio prazo. De acordo com o estudo, para 1% de aumento da renda, o endividamento cresce 1,7%, se forem mantidos os prazos de pagamento e as taxas de juros.Em outubro, por exemplo, houve um soluço no ritmo de vendas na comparação com o mês anterior. De acordo com a Pesquisa Mensal do Comércio do IBGE, houve um ligeiro recuo de 0,2%, já descontados os efeitos sazonais. "Acendeu o sinal amarelo", diz Felisoni. Mas, na comparação com o mesmo mês do ano passado e o acumulado de janeiro a novembro, o acréscimo foi de 9,6%.Para ele, o resultado pode indicar que as vendas a prazo não se sustentarão por muito tempo. "O fôlego pode ser curto, levando-se em conta que o ritmo acelerado das vendas no varejo é mais influenciado pela queda dos juros, e não pelo aumento da renda, como diz o governo."Coincidência ou não, o soluço em outubro foi exatamente quando o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC decidiu interromper uma seqüência de 18 quedas consecutivas na taxa básica de juros, a Selic, que hoje está em 11,25% ao ano. Na época, o recuo foi atribuído à elevação dos preços dos alimentos, que fez o consumidor reduzir as compras nos supermercados."O endividamento do consumidor de renda mais baixa está chegando ao limite", afirma o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale. Segundo ele, com a perspectiva de a inflação se manter em níveis elevados no ano que vem, especialmente por causa dos preços dos alimentos, a tendência é de a baixa renda, que destina boa parte do salário à compra de comida, ter menos dinheiro para gastar com outros produtos.Além disso, Vale ressalta que a perspectiva é de que a taxa básica de juros, que baliza as demais taxas no mercado, seja mantida para conter a inflação. O estudo do Provar mostra que o recuo do juro tem sido o fator preponderante para o crescimento das vendas no varejo.Com os juros mantidos em 2008, haverá pouco espaço para o aumento de prazos de financiamento, diz Vale. E a renda das camadas pobres deverá ter um crescimento menor, já que o reajuste do salário mínimo não deverá repetir o desempenho dos últimos anos. "O comércio cresce em 2008, mas num ritmo inferior ao deste ano", diz o economista, levando em conta que a base de comparação também será mais alta.O diretor da RC Consultores, Fabio Silveira, faz avaliação diferente. Segundo ele, as vendas do comércio varejista terão condições de crescer cerca de 10% no ano que vem, puxadas, mais uma vez, pelas vendas de eletrodomésticos (15,5%) e artigos de vestuário (12%). "O consumidor tem capacidade para se endividar mais", observa. Ele argumenta que a massa real de rendimentos deve crescer 5% em 2008, depois de ter aumentado cerca de 6% este ano.Além disso, Silveira acredita que o BC voltará a cortar os juros básicos a partir do segundo trimestre do ano que vem, se a crise internacional não ganhar maiores proporções. Com isso, haverá a possibilidade de alongar ainda mais o prazo dos financiamentos. Nas projeções da consultoria, a taxa Selic encerrará o ano que vem em 10,5% ao ano.

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